domingo, 29 de fevereiro de 2004

Meus amigos, vocês vão desculpar mas eu hoje estou food-i-do. O Bloguitica anda contente porque um blog foi citado num jornal de referencia. Olha que coisa. Foi um director de jornal que se manifestou, no tal jornal, por via de um “tipo de referencia” ter contestado no seu blog um ou outro artigo do tal director. Mérito? Sinceramente não me parece. E aproveito isto para afirmar que o mérito da blogosfera não está na sua extensão do jornalismo. Se há mérito aqui – e acredito que sim - é na capacidade de muita gente se dedicar à partilha de sentimentos, emoções, etc, incluindo os jornalistas. Devo dizer que só reconheço mérito a uma citação de um blog na imprensa se for devido ao substrato desse blog e não devido ao status do seu autor ou à personalização das questiúnculas entre jornalistas. Já me chegam as guerras entre o Manuel Alegre e o João Pereira Coutinho no Expresso.

E estou igualmente food-i-do por causa da paranóia colectiva que se está a instalar na blogosfera ( e aqui estou de acordo com o Aviz – anda tudo a ficar surdo, mudo e cego ). Deixem-se de merdas absolutamente inúteis. Deixemos de perder tempo com essas conversas de caserna, de gente disciplinada. A disciplina é uma coisa terrível. Um soldado, por via da disciplina, é capaz de matar a própria mãe.

E finalmente também estou food-i-do porque queria ir ver o filme do Mel e dei-me conta de que ainda não se estreou entre nós. Ou seja, primeiro quero ver o filme e depois é que poderei Ter uma opinião acerca do mesmo. Para bom entendedor, seria útil que vissem o filme primeiro e depois sim, falem praí catano.


sábado, 28 de fevereiro de 2004

Hoje não abri um único blog. Passei a tarde a jogar poker com amigos e a beber cerveja. Na noite passada deitara-me tarde e algo aborrecido. Tínhamos ido experimentar o Mondeo novinho em folha que o Hernani acabara de comprar e demos voltas e mais voltas, de Espinho até Vila do Conde, sempre em busca de um bar ou coisa assim, e mesmo no cair do pano da noite aconteceu o pior: deixei cair um tição de tabaco na alcatifa “camel” do carro novo, com quarenta quilómetros nas rodas. Sortes. De maneiras que ficarei ligado à história daquele carro, e logo através de algo que, de tão fortuito, pode acontecer a qualquer um. Antes tivesse o dono do carro proibido o maldito cigarro.
O meu filho não quer ir à catequese. Fartou-se.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2004

Rivoli, anos 80

Ao sabor do café li hoje no DN uma entrevista feita ao lider dos Felt por Nuno Galopim. Deliciei-me. Adorava aqueles gaijos e era quase o único, no meu grupo de amigos, a curtir aquele som underground como o caraças. De maneiras que deixo aqui a "bootleg" do concerto que deram no Teatro Rivoli, no Porto, um ano antes de terem terminado a banda. Uma sugestão: comprem pelo menos um dos discos que a etiqueta vai reeditar em breve.



Teatro Rivoli, Porto, Portugal - 1 April 1988 (56:48) The old man down the road (John Fogerty's cover)
Walking under a spell (Weather prophets cover, from the lp "Mayflower")
Grey streets
I'll die with my head in flames
Stained-glass windows in the sky
She lives by the castle
Ape hangers
Tuesday's secret
How spook got her man
Don't die on my doorstep
Primitive painters

Outdoor Miner (Wire's cover)
Bitter end
The final resting of the ark
Sapphire mansions
The old man down the road (John Fogerty's cover) (reprise)
Primitive painters (reprise)
Note: Pop dell'arte was the support band.





Doraci Edinger. Não, não é nenhum nome famoso das artes e cultura brasileira. Nunca nos entrou em casa com o “glamour” das estrelas de televisão nem com o charme das morenas com vestidos escarlate. Ela era uma obreira. Andava em Africa entregue à sua obra. Cometeu o pecado terreno de denunciar o maior genocídio da humanidade, incomparavelmente mais cínico que qualquer guerra e hipocritamente ignorado por todos aqueles que se preocupam com Cuba, o Irão e as armas de destruição maciça. O mercado existe e são os ricos que se abastecem. São porventura aqueles que se impressionam com o aborto, com o consumo de erva, com a homossexualidade, os mesmos que pagam com dinheiro vivo, já que aquele supermercado não aceita cartões de crédito. Doraci Edinger merece ser respeitada, o seu cometimento carece de firme acção. Ela nunca foi uma “lady di” cheia de câmaras à sua volta. Ela esteve no mato, viveu no mato mas foi o betão que a matou. Ela lutou na selva mas foi a civilização que a aniquilou.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2004

Caro Gandra, ao visitar o teu memorial do camião dei com este blog que tu recomendas. Gostei muito, prova de que uns partilham e outros são partilhados. Um pedido ao "Portugal e Espanha": matéria sobre Miguel de Unamuno. A blogosfera agradece.


Como "mourito do norte" que sou, não podia deixar de me referir à noite europeia que o meu Benfica vai viver logo mais. Tendo apreciado ontem, com gosto, um banho de bola dado aos ingleses por aquela máquina de jogar futebol - Futebol Clube do Porto - só desejo que o meu clube saiba honrar a sua história, tambe´m ela rica em gloriosas noites europeias. Oxalá assim seja.



Agradecer a Malícia de Mulher pela simpatia para com o meu blog. Um reparo (se o achar ácido só pode ser por via do azeite importado): o meu nome é “Altino”, raro nome bem sabe. A colega de blogosfera já disse um dia que se sente bem na condição de anonimato. Eu, atirando a minha identidade para o meio destas pobres letras, tenho como objectivo primeiro nunca ser confundido com um Alcino qualquer.

Adenda: não me senti nada lesado cara Malícia. Não tem, por isso, desculpas a pedir e obrigado pela consideração.



quarta-feira, 25 de fevereiro de 2004

O Terras do Nunca refere num post a presença de espanhóis no nosso país. Porque há pontes ou porque há dinheiro, o certo é que eles andam por aí. O que me custa não é ver isto cheio de turistas. Lamento é ter visto a serra de Montemuro e redondezas cheias daquelas ventoinhas gigantes (não vem ao caso discutir o impacto paisagístico) e encontrar os restaurantes das aldeias frequentados por jovens técnicos especializados, com bons "jipes" e confortáveis "polartecs" a discutir, alegremente, as façanhas do Real Madrid e do Barcelona. Pergunto: com tanta gente formada nas nossas universidades - doutores, senhores - como é possível termos que recorrer à vizinha Espanha para nos fornecer mão de obra especializada?
Fui ver a neve, “essa coisa branca” (a frase é do meu Alexandre, que transcrevo de uma “redacção” que ele fez o ano passado). Não segui, porém, os novos hábitos da pequena burguesia, não fui para a Serra da Estrela e, por conseguinte, não fiquei preso na estrada. A neve alva e surpreendentemente abundante que vi cair na Gralheira, aldeia mais alta da serra de Montemuro, foi um acontecimento para o meu filho. Viu a neve, nela brincou e eu fiquei ali a ver aquele mito a desmoronar-se no olhar de uma criança de 8 anos.

Eu já aqui escrevi um texto sobre aquela aldeia beirã que visitei em pleno Verão, cheio de todas as cores e alegrias, próprias da riqueza humana das aldeias portuguesas. Menos gente hoje do que outrora – não há imigrantes no Inverno – e sob muito frio, não foi só a neve a brilhar. Mais uma vez privei com o calor dos autóctones, dos que não viram as costas aquele bocado de terra agreste. Vi o gado sair das lojas apenas para beber a água que corre no ribeiro. E senti o calor humano, intenso, de pessoas que para muitos só cabem nos livros que ainda andam por aí, desde Torga a Trindade Coelho, Aquilino e Eça de Queirós. Na terra que foi berço de Geraldo comi comida sem igual e trouxe comigo mais histórias para contar, para me contar a mim próprio, desde as alheiras sabiamente preparadas pela dona Elisa, às quais me atirei logo pelas onze da manha, bem antes do cozido que me aguardava no Recanto dos Carvalhos, passando por uma não notícia que foi a caçada ao javali que chagou a estar a três metros do Alfredo mas cuja perícia do animal evitou aquilo que seria um autentico “hapening” na aldeia. O javali por lá continua a engordar à custa das leiras mas tem os dias contados, o pobre.

De maneiras que vivi uma boa jornada carnavalesca, sem o pindérico habitual do lixo televisivo a glosar-nos com as mais reles variações de um Carnaval “ made in” Brasil. Um reparo: estive muito perto de Lazarim e bem pena tive de não ter ido ver o cortejo dos caretos – isso sim o verdadeiro Entrudo. Fica para uma próxima oportunidade. O javali já não terá boa cara quando eu lá voltar.




sexta-feira, 20 de fevereiro de 2004

O tema é: fiz uma lista de
  • ACTUALIZAÇÕES

    . Quem quiser pode usar até gastar. Se o teu blog não consta manda um e-mail que eu coloco. A bem da blognação. Bom domingo gordo.
  • No dia 20 de Fevereiro de 1966, um domingo dominado por fátima, futebol e fado, um canal de televisão pública e meia dúzia de “pides” a rondar as tascas e o adro da igreja – local de falatório antes da pinga “abrideira” –, enfrentava eu o maior desafio da minha vida: nascer. Consta que o fiz com particular brilhantismo, em casa de minha mãe onde uma bacia de água quente me aguardava. Era o meu primeiro banho, de que não me lembro. Era o meu primeiro dia destes trinta e oito anos de uma vida cheia de tantas coisas para contar. Hoje olhei os meus filhos nas primeiras horas da manha e senti ter valido a pena aquele esforço tão grande para sair de dentro das entranhas de minha mãe.

    quinta-feira, 19 de fevereiro de 2004

    Estive a ler os comentários deste magnifico "post" que me ajudaram a consolidar a minha visão da blogosfera portuguesa.
    Começo por esclarecer que não sou profissional da função pública, não sou jornalista nem tão pouco tenho curso superior. Imperativos de vária ordem impediram-me de acabar o ensino secundário, deixando para trás qualquer objectivo académico. Isso não me impediu nunca de cultivar as minhas ilusões culturais, lendo, indo ao teatro, falando muito e ouvindo ainda mais. A actividade política nunca me seduziu, até porque sempre que me punha a imaginar num organização politica logo antevia precoce expulsão da mesma.

    De modos que sou um cidadão capaz de se entusiasmar com aquilo que o rodeia, sem medo de enfrentar novos desafios e, em chegando à blogosfera, logo me encavalitei no cimo da minha cadeira e tratei de me meter com os ditos autores de referência. Vejo neles aquilo que sempre vi: tipos inteligentes mas também muito elitistas e injustos para gente como eu. Tipos quase sempre de costas viradas para quem os lê porque não estão habituados a lidar com a dinâmica destas plataformas de comunicação. Os da classe política manifestam boa ginástica na gestão do conflito gerado nos seus leitores. Os escritores e pensadores experimentam aqui o feedback dos seus leitores, raramente verificado na esfera dos livros que escrevem, refugiando-se na natural, austera e quase sempre evasiva forma de comentar, seja nos blogs seja por e-mail.

    Chegados aqui, e pegando nos comentários que li no já referido post do Barnabé, concluo que a blogosfera está muito para além do debate politico. Ele existe e é bom que assim seja. E existe graças a meia dúzia de pessoas que trouxeram a sua generosidade intelectual de forma gratuita, propondo e debatendo ideias, nem sempre politicamente correctos mas quase sempre eivados de riqueza e capazes de nos fazer pensar na coisa politica com cabeça tronco e membros. Reconheço que o sucesso da blogosfera muito deve ao confronto político. Desgosta-me a arrogância daqueles que se supunham orgulhosamente sós, inatingíveis e terrivelmente seguros das suas verdades.
    Creio pois que na blogosfera há espaço bastante para a cultura, para as artes e para os cavaleiros solitários – os que parecendo não ter nada, têm pelo menos uma coisa: a sua riqueza interior, património precioso que propõem partilhar com quem os lê. Em conclusão, a blogosfera não pode ser vista como tendo apenas dois pólos: o do debate politico e o do debate filosófico. Ela é as duas coisas no seu todo.




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