"Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas" Jesus, In Mateus 23
Reparei que a direita blogosférica anda muito empenhada em tentar justificar o injustificável. Atiram-se a tudo o que possa ter sido tortura para branquear a cobardia americana. Vasculham o passado, recente e não só, de outros protagonistas, procurando com isso apaziguar o sentimento de contestação que grassa em tudo o que é meio de opinião. Não lhes custava nada terem ficado apenas pela admissão dos factos e consequente condenação. Não chegou. Foi preciso vasculhar a merda seca do passado. Foi necessário dizer bem alto: outros o fizeram. Nós já sabemos que outros torturaram (até podíamos ir à história dos descobrimentos para sacar disso evidencias). O que importa saber é que não basta uma potência apresentar-se ao mundo como sendo os “salvadores” ao serviço da democracia. Não é suficiente. É necessário comportarem-se como tal. É urgente perceberem que o mundo está cansado de vilões. O mundo precisa de actos sérios e justos. O mundo está cansado de tantos fariseus.
[o cartoon foi-me indicado via Perestroika Café (thanks Sónia)]
segunda-feira, 10 de maio de 2004
sábado, 8 de maio de 2004
eggs and sausage
“eggs and sausage and a side of toast/ coffee and a roll, hash browns over easy /chile in a bowl with burgers and fries/ what kind of pie?” (Eggs and Sausage, Tom Waits)
Sábado, 6.20. Sentado à mesa do café “Cruz de Cristo", estranho nome para um sitio onde se faz tudo menos falar com Cristo, aguardei pacientemente aquele “cimbalino”. Sical mas cimbalino. Olhava os meus amigos, cansados e famintos, escolhendo cada um sua sandocha, e realizei que estava velho.
Tinha acabado de regressar da cidade. Duma noite talhada para a diversão e, afinal, retalhada por miúdos de pequenos olhares esgazeados e apostados em me chatear a tola. Realizei que estava velho e deu-me vontade de estar só, a ouvir Tom Waits que, estava certo, era o único capaz de me compreender naquele momento. Para tras tinha ficado uma péssima experiência passada no “meu mercedes” aquele bar de que já aqui falei. Umas tipas despudoradamente atiradiças, suspeitas, insinuadas, a atirar-nos um rol de perguntas perfeitamente voláteis e de circunstancia: “São amigos?, irmãos? Aquele tem ar de ser o que está melhor na vida”. “Vamos todos juntos a uma discoteca dançar”. “ A malta vai ao” Bo´Bó” em Matosinhos. Venham connosco”.
Eu andava por ali perdido na minha cerveja e como aquele bar não é grande, acabei por me ver envolvido naquela conferencia espontânea. Ao fim da decima quinta pergunta, que os meus colegas respondiam como podiam, já eu dizia, com azeda ironia: “Sou casado e ando às gajas”, esperançado em que elas desistissem. Mas elas não queriam saber disso. Hoje em dia nenhuma miuda dessas parece intimidar-se com tamanho descaramento. O que elas queriam era aproveitar uns tipos que ali estavam, supostamente frustrados, e cegos por um tempinho extra de “society-success”. De modo que continuei irascível: “ Se me apetecesse dançar eu não tinha vindo aqui, a este bar”. Elas atiravam-se para os mais receptivos do meu grupo, como quem procura a chave para a solução do problema. E logo um dos nossos dizia que sim, que podíamos ir. Eu encostara-me à parede e fumava. A moça mais descarada atirou-se a mim percebendo que eu era o grande obstáculo:” As pessoas pequeninas é que não alinham, não respondem. Vêem uma miúda a falar para eles e assustam-se”; e eu: “Olha lá pequena, já te ocorreu, antes de atirares esse relambório todo, que muitas vezes pode dar-se o caso de a determinada pessoa não lhe apetecer falar? Simplesmente não lhe apetecer?” a miúda foi aos arames e chamou-me agressivo. Eu tinha conseguido. E o sinal da minha vitória foi dado quando dois ou três putos se aproximaram de nós, e a “miuda-irreverente-moderna” apresentou-me um deles como sendo o seu namorado. Cumprimentei-o e prestei-lhe as minhas homenagens. Algum tempo depois o grupo foi embora e nós ali ficámos, a ouvir musica e a beber.
Mais tarde, no café Cruz de Cristo, percebi o peso da minha cruz: descobrir que estava velho. Aquela dose de cafeína dizia-me que tudo tinha sido um equivoco, que elas não andavam no engate, nem eram assim tão má gente. Eu é que já não tenho paciência para estes grupos espontâneos, estes ajuntamentos de pessoas mais ou menos identificadas com o facto de serem jovens. E fui para casa dormir.
Sábado, 6.20. Sentado à mesa do café “Cruz de Cristo", estranho nome para um sitio onde se faz tudo menos falar com Cristo, aguardei pacientemente aquele “cimbalino”. Sical mas cimbalino. Olhava os meus amigos, cansados e famintos, escolhendo cada um sua sandocha, e realizei que estava velho.
Tinha acabado de regressar da cidade. Duma noite talhada para a diversão e, afinal, retalhada por miúdos de pequenos olhares esgazeados e apostados em me chatear a tola. Realizei que estava velho e deu-me vontade de estar só, a ouvir Tom Waits que, estava certo, era o único capaz de me compreender naquele momento. Para tras tinha ficado uma péssima experiência passada no “meu mercedes” aquele bar de que já aqui falei. Umas tipas despudoradamente atiradiças, suspeitas, insinuadas, a atirar-nos um rol de perguntas perfeitamente voláteis e de circunstancia: “São amigos?, irmãos? Aquele tem ar de ser o que está melhor na vida”. “Vamos todos juntos a uma discoteca dançar”. “ A malta vai ao” Bo´Bó” em Matosinhos. Venham connosco”.
Eu andava por ali perdido na minha cerveja e como aquele bar não é grande, acabei por me ver envolvido naquela conferencia espontânea. Ao fim da decima quinta pergunta, que os meus colegas respondiam como podiam, já eu dizia, com azeda ironia: “Sou casado e ando às gajas”, esperançado em que elas desistissem. Mas elas não queriam saber disso. Hoje em dia nenhuma miuda dessas parece intimidar-se com tamanho descaramento. O que elas queriam era aproveitar uns tipos que ali estavam, supostamente frustrados, e cegos por um tempinho extra de “society-success”. De modo que continuei irascível: “ Se me apetecesse dançar eu não tinha vindo aqui, a este bar”. Elas atiravam-se para os mais receptivos do meu grupo, como quem procura a chave para a solução do problema. E logo um dos nossos dizia que sim, que podíamos ir. Eu encostara-me à parede e fumava. A moça mais descarada atirou-se a mim percebendo que eu era o grande obstáculo:” As pessoas pequeninas é que não alinham, não respondem. Vêem uma miúda a falar para eles e assustam-se”; e eu: “Olha lá pequena, já te ocorreu, antes de atirares esse relambório todo, que muitas vezes pode dar-se o caso de a determinada pessoa não lhe apetecer falar? Simplesmente não lhe apetecer?” a miúda foi aos arames e chamou-me agressivo. Eu tinha conseguido. E o sinal da minha vitória foi dado quando dois ou três putos se aproximaram de nós, e a “miuda-irreverente-moderna” apresentou-me um deles como sendo o seu namorado. Cumprimentei-o e prestei-lhe as minhas homenagens. Algum tempo depois o grupo foi embora e nós ali ficámos, a ouvir musica e a beber.
Mais tarde, no café Cruz de Cristo, percebi o peso da minha cruz: descobrir que estava velho. Aquela dose de cafeína dizia-me que tudo tinha sido um equivoco, que elas não andavam no engate, nem eram assim tão má gente. Eu é que já não tenho paciência para estes grupos espontâneos, estes ajuntamentos de pessoas mais ou menos identificadas com o facto de serem jovens. E fui para casa dormir.
sexta-feira, 7 de maio de 2004
manolo
já sabia que o blogame mucho era um excelente blog. habituei-me a ler os deliciosos textos do besugo e da lolita (devo dizer, por honestidade, que do paco conheço pouco), mas tenho que me congratular com a entrada do manolo em cena. bom na pena e óptimo na sensibilidade, ainda mais excepcional no substrato. ah! e benfiquista. um muito bom para o bloga-me.
coisas de nada
Certo dia, andava eu a vender telefones para uma multinacional, no tempo em que ainda não havia telemóveis, e desloquei-me a Barcelos, onde me esperava o “fecho” de um importante negócio. Os empresários do Norte são muito conservadores e nestas coisas de vendas é imperativo nunca termos que pedir desculpa pelo atraso. De modo que ainda faltava cerca de uma hora para a reunião e eu já avistava a igreja matriz, muito arrumadinha entre os paralelos e o enorme lajedo, características daquela bela cidade à beira Cavado.
Acontece que, se por um lado temos a graça de controlarmos os esfíncteres, por outro, e quando o nervoso miudinho comanda a coisa, o intestino manda que se procure solução para a mais tranquila evacuação. De maneiras que o mesmo estabelecimento que me serviu o segundo café do dia também me forneceu acomodação para a nobre tarefa de dar sossego ao aperto. Quem anda nesta vida de vendedor sabe bem os cuidados necessários a ter quando andamos de casa de banho em casa de banho, ora a Norte ora a Sul, e eu habituei-me a forrar muito bem forradinho o rebordo de qualquer sanita acolhedora, com artes de bem trabalhar o papel higiénico. Há, alias, um sem número de tiques engraçados que nos encravam o comportamento. Estou a lembrar-me, a propósito, de um outro tique que manifestava, sempre que ia jantar a casa da minha querida sogra, e que me veio dar resposta àquele intrigante olhar “de rola” que ela me fazia persistentemente: sentava-me à mesa, pegava no prato limpíssimo e limpava-o invariavelmente, dando voltas e mais voltas com o guardanapo. Era automático, uma espécie de ritual.
De volta à casa de banho de Barcelos, e finda a matinal obra de arte, urgia pressa em sair dali. Cinto apertado, mãos lavadinhas e gravata ajustada, estava pronto a fechar a venda, agora aliviado e mais confiante.
A adjudicação – palavra caríssima aos chefes de venda –, resolveu-se rapidamente. Agora era tempo de conversar. Sendo eu muito conversador, herança trazida da minha avó materna, tudo me servia para linguarejar (um dia até citei José Régio – o “Cântico Negro” – a um cliente de Vila do Conde), de modos que o formalismo da coisa já tinha ardido fazia tempo. E em chegando a hora das despedidas, “mais uma vez parabéns pela preferência, “tive muito gosto”, e outros mimos, dirigia-me eu para a porta quando o meu cliente dá uma grande e bem sonora gargalhada. Ele acabara de ver um tipo de fato preto, a semear papel higiénico pelo chão. Uma cena digna do “charlot”. Percebi ali que não dei conta de que um enorme pedaço de papel higiénico ficara colado na minha perna direita.
A partir desse dia, fiquei com mais um tique: passar as mãos pelas coxas sempre que acabo de me servir de uma casa de banho pública.
Acontece que, se por um lado temos a graça de controlarmos os esfíncteres, por outro, e quando o nervoso miudinho comanda a coisa, o intestino manda que se procure solução para a mais tranquila evacuação. De maneiras que o mesmo estabelecimento que me serviu o segundo café do dia também me forneceu acomodação para a nobre tarefa de dar sossego ao aperto. Quem anda nesta vida de vendedor sabe bem os cuidados necessários a ter quando andamos de casa de banho em casa de banho, ora a Norte ora a Sul, e eu habituei-me a forrar muito bem forradinho o rebordo de qualquer sanita acolhedora, com artes de bem trabalhar o papel higiénico. Há, alias, um sem número de tiques engraçados que nos encravam o comportamento. Estou a lembrar-me, a propósito, de um outro tique que manifestava, sempre que ia jantar a casa da minha querida sogra, e que me veio dar resposta àquele intrigante olhar “de rola” que ela me fazia persistentemente: sentava-me à mesa, pegava no prato limpíssimo e limpava-o invariavelmente, dando voltas e mais voltas com o guardanapo. Era automático, uma espécie de ritual.
De volta à casa de banho de Barcelos, e finda a matinal obra de arte, urgia pressa em sair dali. Cinto apertado, mãos lavadinhas e gravata ajustada, estava pronto a fechar a venda, agora aliviado e mais confiante.
A adjudicação – palavra caríssima aos chefes de venda –, resolveu-se rapidamente. Agora era tempo de conversar. Sendo eu muito conversador, herança trazida da minha avó materna, tudo me servia para linguarejar (um dia até citei José Régio – o “Cântico Negro” – a um cliente de Vila do Conde), de modos que o formalismo da coisa já tinha ardido fazia tempo. E em chegando a hora das despedidas, “mais uma vez parabéns pela preferência, “tive muito gosto”, e outros mimos, dirigia-me eu para a porta quando o meu cliente dá uma grande e bem sonora gargalhada. Ele acabara de ver um tipo de fato preto, a semear papel higiénico pelo chão. Uma cena digna do “charlot”. Percebi ali que não dei conta de que um enorme pedaço de papel higiénico ficara colado na minha perna direita.
A partir desse dia, fiquei com mais um tique: passar as mãos pelas coxas sempre que acabo de me servir de uma casa de banho pública.
quinta-feira, 6 de maio de 2004
burrices
O tema é: o jornal "record" diz que o Benfica está interessado em contratar o João Pinto que, ao que parece, não vai continuar no Sporting. Até aqui nada de novo. Acontece que tenho a vaga sensação de que anda aí uma tropa de gente a defender que é obrigatório ir buscar o "menino de ouro" porque, assim, repara-se um grave erro na gestão desportiva de Vale e Azevedo. Só não percebo como é que essa gente ainda não foi buscar o José Mourinho, reparando assim a maior burrice jamais feita por qualquer Direcção em toda a história do Benfica.
Willem Breuker Kollektif

quarta-feira, 5 de maio de 2004
pregão
"Amanhã, o Abrupto fará um ano" in Abrupto
Meus queridos amigos, amáveis leitores, indefectíveis inimigos e recalcados indiferenciados: amanha o Abrupto celebra um ano de vida. Como homenagem a esse grande blog, editado por essa grande figura da vida intelectual portuguesa, lida por milhares de admiradores confessos e mais um milhar de "ressentidos", gostaria de propor uma moção de louvor traduzida por um simples post, nos blogs aderentes, dizendo: "Parabéns Abrupto". Estou certo de que ele não se “espantará” e talvez “s'avergonhe”.
Meus queridos amigos, amáveis leitores, indefectíveis inimigos e recalcados indiferenciados: amanha o Abrupto celebra um ano de vida. Como homenagem a esse grande blog, editado por essa grande figura da vida intelectual portuguesa, lida por milhares de admiradores confessos e mais um milhar de "ressentidos", gostaria de propor uma moção de louvor traduzida por um simples post, nos blogs aderentes, dizendo: "Parabéns Abrupto". Estou certo de que ele não se “espantará” e talvez “s'avergonhe”.
ai como é bom
Da minha janela vejo um campo verde, polvilhado com aquele amarelo lindo e povoado por alguns pinheiros jovens. No solo saltitam dois melros pretos, frenéticos. Devem andar de namoro. Ai como é bom namorar.
carta aberta a Catarina
Ó minha querida amiga Catarina, tu vê lá se republicas o teu blog porque eu gosto dele. E a propósito daquela pequena conversa que tivemos à mesa, devo confessar-te que fui consultar o "blogshares" e tenho a dizer-te o seguinte: procurei o meu blog e apareceram-me "3 matchs found" com o mesmo URL e surpreendi-me com duas coisas: cada um tinha uma avaliação monetária diferente ( um deles até dizia que era um blog em crescimento - é o que dá ir a almoços) e aconselhava investir. E mais fiquei a saber que não sou dono de nenhum deles. Olha a minha desgraça. Falido e sem a minima possibilidade de ganhar uns trocos com o bloguito. Conclusão: aquilo é uma brincadeira e o "food-i-do" continua meu, só meu ( que nem um mágnum amendoa ). Por isso te peço: republica o teu blog. detesto vê-lo 100nada.
parabéns
quem me conhece sabe que eu sou tudo menos "politicamente correcto". vem isto a propósito para dizer que, não sendo portista, aliás, detestando o fcp, cumpre-me endereçar os meus parabéns a esta malta e a todos os outros que comungam da paixão azul e branca. vivendo eu em gaia e numa prédio com vista para o mar e para a galiza, de quando em vez, e se o vento for de favor, oiço as vozes de "nuestros hermanos", trazidas pela brisa da madrugada. esta noite, porém, ouvia os galos em voz embargada pela tristeza, condenados ao canto dorido e sofredor "có-có-ru-co-ru-nha". digamos que tiveram o seu canto dos cisnes.
terça-feira, 4 de maio de 2004
sobrou comida, ainda
"Altino ("Food-i-do") preferiu deixar para segundo plano a blogoesfera, salientando o facto de estarem juntos e explicar que o motivo da sua presença foi o almoço: "É que a escrever dou alguns erros, mas a comer há poucos como eu", gracejou". [in Jornal de Notícias]
o "estaporado" do jornalista que fez esta peça tinha logo que citar uma frase que eu roubei ao Gandra. eu explico: o camionista é um amigo meu e brincalhão como o caraças, e como entrámos "ambos os três" ele, ao ver aquela fartura toda, atirou-me logo: "altino, eu sou mau a escrever mas sou bom a comer". achei cá uma piada que nem vos conto. e quando estava a falar com os jornalistas deixei cair uma data de frases. os gajos só escreviam; e olhavam para mim, claro; e eu sempre a dar ao dente. resultado: impressionei-os, caragu. fui convincente, raios (afinal eu até sou vendedor). não podia imaginar que eles iriam rematar o artigo com aquela brilhante citação. fica aqui o reparo "a cesar o que é de cesar".
o "estaporado" do jornalista que fez esta peça tinha logo que citar uma frase que eu roubei ao Gandra. eu explico: o camionista é um amigo meu e brincalhão como o caraças, e como entrámos "ambos os três" ele, ao ver aquela fartura toda, atirou-me logo: "altino, eu sou mau a escrever mas sou bom a comer". achei cá uma piada que nem vos conto. e quando estava a falar com os jornalistas deixei cair uma data de frases. os gajos só escreviam; e olhavam para mim, claro; e eu sempre a dar ao dente. resultado: impressionei-os, caragu. fui convincente, raios (afinal eu até sou vendedor). não podia imaginar que eles iriam rematar o artigo com aquela brilhante citação. fica aqui o reparo "a cesar o que é de cesar".
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