domingo, 31 de outubro de 2004

Desasado, poisei na velha calçada um pouco do meu pé dorido. Queria era voar, penetrar no ventre do vento Norte. Pois sim, disse eu para comigo. Hás-de voar um dia. Nem que seja apenas a cair, porque os pássaros também voam em direcção ao chão.

sexta-feira, 29 de outubro de 2004

Abri uma garrafa de Palmela tinto, comprada a cerca de um euro no supermercado “Plus”. Ela não veio sozinha daquelas prateleiras despojadas de “marketing”. Acompanhou-a, na curta viagem até minha casa, um fresquíssimo salame de chocolate.
Já em casa, coloquei uma boa porção de bacon na sertã mais pequena e adicionei um ovo de aviário e uma fatia de queijo com ervas e pimentos vermelhos. Abri o Palmela e provei-o com gosto. A televisão mostrava imagens sobre o tratado de Roma com especial destaque para o discurso de um tipo que é conhecido por Durão Barroso. No rodapé li “ José Manuel Barroso”. De modos que olhei para a garrafa de vinho e pensei seriamente na possibilidade de lhe chamar “Terras do Sado”.

A um comunista como eu exige-se, no minimo, alguma coerencia naquilo que diz ou na forma como defende aquilo que defende. Para mim é complicado viver com esse dogma. Assim o comprova a sensação que eu tive ontem ao ouvir o Professor Freitas do Amaral. Uma lição de homem, a deixar muita saudade a quem, como eu,ainda viveu um tempo de "pessoas credíveis".
Onde andam essas pessoas na nóvel classe política portuguesa?

quinta-feira, 28 de outubro de 2004

ficções

Marília entrou naquele instante. Todos a olharam indecentemente. Aquela mulher acabara de iniciar um frente a frente com o tribunal da aldeia. Deixara o marido, o companheiro de 25 anos de uma vida cheia de misérias escondidas, um homem de prestígio e muito importante.
Católico praticante e sempre impecavelmente presente nos momentos mais importantes da comunidade, Artur, médico, daqueles médicos que até levam pouco ou quase nada por tratarem dos mais pobres, só não era presidente de qualquer coisa importante porque gostava de vestir o fato de benemérito. Adorava ser tratado como “ o Sr. Doutor dos pobres”.
Marília era a única pessoa no mundo que pensava diferente. E sabia disso quando entrou naquele café e olhou a pequena multidão de inquisidores. Eles não entendem como é possível um homem como o Artur ter sido abandonado pela mulher, pela mãe dos seus filhos. Eles não admitem como é possível a uma mulher como Marília deitar-se na cama com um amante.
Marília pediu um café, como sempre, e, como sempre, sem açúcar. Puta, ouviu-se ao fundo. Marília sorriu, quase sem vergonha porque achava impossível não ter ouvido aquele nome. Estava ciente de que ali não valia nada e apenas se deixava ficar com os seus pensamentos. Ninguém iria perceber que Marília era uma mulher. Ninguém queria saber disso, ela era mulher enquanto esposa de um homem de bem. Aparte isso, era nada. Acima disso só podia ser puta.
Cinquenta cêntimos pelo café sem açúcar e três ou quatro palavrões. Era um preço justo pelo prazer da cafeína e pela satisfação de voltar a ser mulher.
Ando “práqui” a tentar perceber porque será que alguns bloggers utilizam a cor a enfeitar os posts que escrevem. Alguns há que, com tal expediente, conseguem dar alguma graça ao cinzento da coisa. Outros, porém, de tão excessivamente coloridos, perdem a íris natural que sempre tiveram. A mim isso parece-me patético.

Assis tamos no bom caminho.

Dado o facto de, no dia de hoje, ainda não ter lido qualquer crónica de futebol escrita ou mandada escrever por um dos milhares de portistas do Blasfémais, decidi juntar-me a eles nessa nobre faculdade de não falar de futebol.

quarta-feira, 27 de outubro de 2004

...e, de resto, li o post do excelente Água Lisa sobre a renovação no seio do Partido Comunista Português ( que querem? há por aí muito quem fale da quinta das celebridades). Voltarei ao assunto, evidentemente.
A blogar há mais de uma hora e a sensação de que ficou algo por fazer . Já descobri: ainda não visitei o blogamemuchooooooooooo.


Marcelo falou e disse aquilo que todo o mundo já sabia. Não sei bem se o disse a quem realmente de direito mas isso é de somenos.
Importa saber se Miguel de Sousa Tavares teria tido motivos idênticos para tomar atitude semelhante a Marcelo. Quem sabe.
Importa saber se, para além dos comentaristas, há jornalistas que andam a ser “arrebanhados” pelos seus patrões.
Eu gostaria muito de poder confiar naquilo que vou lendo e no que vou ouvindo sobre o meu país. Pobres diabos sempre existiram, desde advogados, vendedores e jornalistas. Por onde andais vós pobres diabos?
Caro Francisco,
A tua frase: «O amor anda transgênico, geneticamente modificado, fast love.»
foi linkada no meu blog em 6 de Fevereiro deste ano e eu encontrei-a neste teu post. Achei esta frase muito lapidar quando falamos sobre a construção do amor, como sentimento. E fico feliz porque hoje, volvido algum tempo, voltaste a ela, ao seu significado. Obrigado pelo teu e-mail e olha, vai aparecendo.


1 a de P

terça-feira, 26 de outubro de 2004

o futuro (não) é igual ao passado (ele há cada um)

Tudo isto é claro: se queres ver idiotas em calda na televisão vai à tvi, se queres ler demagogia pura sobre umas eleições americanas, da mais cientificamente comprovada, da mais elementar arte de vender banha da cobra, vai ao blasfémias.


"well you can buy me a drink and i'll tell you what i seen
and i'll give you a bargain from the edge of a maniac's dream"

Mr. Tom Waits in Potter's Field

segunda-feira, 25 de outubro de 2004

Ó arautos da verdade, livros da sabedoria, analistas da coisa politica. Estou a dirigir-me a vós, ó sábios, estou a bater na vossa couraça de grandeza e mestria. Digam-me por uma vez. Acaso achais que perdemos tempo a falar das injustiças e da mesquinhez dos poderosos ou devemos nós, os fracos, os anónimos escrivãs das coisas vãs e sem significado nacional, sem nomes pomposos e assuntos da agenda politica, caseira e americana, os que apanham nas ventas com todos os assuntos maus, que podiam ser nossos e nunca vossos, calar e aplaudir a vossa magnânime inteligência e altivez? Porque vós tendes tudo para serdes diferentes. Falais de tantas coisas, procurais tantos assuntos bons e apetecíveis. Sim ó clássicos da informação. Digam-me por uma vez, nem que seja a única vez. Que fazemos nós aqui?
Web Analytics