terça-feira, 31 de maio de 2005

Encostado na minha cadeira proponho que não se diga nada. Aguarde-se em silêncio, que o barulho é imenso e ninguém nos ouve. Lá longe rufam tambores de protesto, gestos de indignação. Aqui somos o eco. Maldita pedreira.

segunda-feira, 30 de maio de 2005

Nestes tempos de crise há uma nova palavra no já de si riquíssimo léxico das transacções comercias: “Abraço”. É empregue quando o credor telefona ao devedor a pedir que este amortize aquela dívida tão familiarmente íntima dos dois: "vê lá se me dás um abraço”.
Uma questão de estima.
Por vezes apetece entregarmo-nos sem dar luta. Como se estivéssemos em frente a um comboio e, sabendo que ele investia para nós, deixávamo-nos estar ali, e saboreávamos todo aquele tempo. O tempo que nos separa do esmagamento. Da morte. E nesse tempo conscientes, tudo nos vem à cabeça. O filme das nossas vidas, sem “close ups” e sem água das pedras. Sem extravagancias. O nosso filme em curta longa-metragem.
Por vezes, dizia eu, apetece uma entrega sem luta. E ficar a saborear a distância de um fim qualquer. Um travo agridoce de prazer.
Quase sempre se pensa que lutar é bom. Mas a glória de enfrentar o mais negro precipício é um dos mais raros e belos sabores.
Tu já me tinhas avisado. Olha que este mundo é, de todo em todo, igual a todos os mundos. Há os ricos e os pobres. Os “de espírito” abundam. Há os que se nota terem tudo e há os gajos da parte de baixo. Os tesos. Há os de compaixão e os “julgas”. Ou julgas que não? Há os que têm a mania de tudo conhecerem e os que, tudo conhecendo, têm a mania de só eles saberem. Há de tudo aqui. Pois há. E tu também andas por aqui. Atravessas todos os mundos como se fosses um caminhante. E Santiago é ali tão perto…
Ao longe oiço um pássaro a cantar muito excitado. Anda a fazer festa por qualquer coisa. Os pássaros festejam muito e nunca foram apanhados por uma brigada de trânsito. Quando um dia eu for pássaro quero festejar tanto e até vou esquecer querer voltar a ser homem.

domingo, 29 de maio de 2005

O Setúbal venceu com muito mérito a taça de Portugal. O Benfica foi o que eu já esperava, uma equipa pobre. Sem Luisão não existe, com Trapatoni existe muito pouco e, depois, o trio eléctrico teve um percurso longo de festa.

Gostei de ver o Setúbal a correr depois de ter andado as últimas jornadas do campeonato a estagiar, abrindo as pernas ao Porto quando estes precisavam desesperadamente de alimentar o sonho impossível de serem campeões. O Setúbal mereceu, digo eu, benfiquista, e cumprimento-os, pois.

Aguardo ansiosamente pela despedida do nosso treinador. Obrigado senhor Trapatoni.

Agora vou ver o Rui Santos a descambar no Benfica, a destilar o seu ódio perante o maior clube português. Nós, benfiquistas, somos desportistas e sabemos o que valemos. A festa foi boa, pá.
Da minha janela vejo a serra de Valongo. Há putas nas ruas municipais em volta da serra de Valongo. Ninguém fala delas, nem fotos nem nada. Elas ficam hora e horas sentadas à beira da estrada esperando aquela motorizada rocinante, ou uma Mitsubishi Canter, de caixa aberta, que pare. Elas não pagam IVA nem têm custos de venda. Não gastam água nem têm aquecimento central. São as putas da estrada, de pernas abertas e revista Maria na mão. Quando está frio elas fazem uma fogueira para se aquecerem. Elas têm patrões que se escondem nos pinhais, atentos ao negócio, empresários sem computador, sem “Primavera Software”. A folha de caixa deles é um molho de notas que lhes são entregues. Não fazem orçamentos nem “sales forecasts”.
Uma puta de estrada é o quê? Mão-de-obra explorada? Função pública? Quadro técnico? Tem idade de reforma? Aumentos? Carreira? Nada disso. Uma puta de estrada é um serviço público que todos vêem, alguns utilizam e quase ninguém quer saber.
A serra de Valongo fervilha de actividade. As TVs estão prontas para as grandes reportagens. As putas nunca existiram.

sábado, 28 de maio de 2005

Um dia vou escrever um poema. Qualquer coisa que meta amor e ciúme. Ou desejo. Adoro o desejo em excesso de velocidade. Um gajo quando deseja, quando é por demais aditivo, percebe que a satisfação se recolhe no espraiar das frustrações. Complicado isto. Um poema sobre isto é coisa de grande empreitada.
Para além disso não vou à feira do livro. Primeiro porque ainda tenho muitos livros para ler e ando teso também, segundo porque o Abrupto desmoralizou-me com todo aquele realismo negro à volta da feira do livro do Porto. Que saudade da velha feira na Rotunda da Boavista…

E como dizia, vou ver se escrevo um poema sobre o desejo.

Cavaco é o pai do monstro

Quem o diz é Miguel Cadilhe. Ora bem...


Da minha janela vejo a serra de Valongo. Não sei porquê mas creio que já escrevi isto num post qualquer. A serra de Valongo e a minha janela são a minha fonte de inspiração quando não sei bem o que escrever.
Bom sábado.

Entretanto recebi um mensagem no meu telemóvel dizendo: "liga-me com urgência. Dinheiro à vista". Ó diabo!!!

sexta-feira, 27 de maio de 2005

Hoje o dia nem correu muito mal. Pouco transito nas artérias da metrópole, muita gente em casa e apenas a morrinha teimava em empastelar a mais fantástica segunda-feira do ano. Não há melhor segunda-feira do que aquela que anuncia um sábado.
Por isso dizia eu que o dia nem correu assim tão mal. Arrebatei umas tripas à moda do Porto, no restaurante Barão, ali na Barão de Forrester e conversei bastante sobre trabalho e estratégias de venda e tal. Agora ando a desenvolver o “Procor”. Não é nenhuma candidatura a fundos europeus, não senhor. O Procor, para quem não sabe, significa “Programa Corporativo de Recomendações”. Cada cliente meu recomenda-me a cinco ou seis amigos e eu, obviamente, recompenso esse meu cliente. É uma forma de conseguirmos mais clientes pela via mais transparente: a recomendação. De modos que liguei a um cliente meu a expor a coisa e ele, lá do outro lado da linha “ Eu ando a convencer um casal amigo a adquirir o colchão igual ao meu porque realmente aquilo é uma maravilha. Eles quase compravam um na Colunex, mas eu estou a dar-lhes a volta. Aquilo realmente…então a vibro massagem é uma delicia. Chego a casa estoirada, ligo aquilo e fico ali deitadinha um tempinho e olhe…uma maravilha”. Fiquei sem palavras e pronto, lá lhe falei do Proco,r mas ela que não. Recomenda porque é bom.
“Procor” me havia de dar. Quem está bem servido é um Procor por natureza.
Às vezes fico a olhar para a janela, com cara de vitelo mal morto, à espera de qualquer coisa para escrever. Deixo-me estar de boca aberta e olhar desabrido como uma criança a ver navios.
Um post é um parto difícil, exceptuando os clones. Há muitos clones postados. E parasitas simbióticos. E cargas de perfume “Ach Brito”. Um post saído de uma observação da paisagem é que é um caso difícil. Da minha janela já vejo o lusco-fusco. È a noite a chegar. Boa noite.
Este blog continua em "greve de blog". De toda a maneira ( este termo aprendi com um emigrante em França - eles não tardam!!) só cá vim porque tenho um outro problema:sou viciado em blogs. Humpf
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