sexta-feira, 8 de julho de 2005

um tipo como eu almoça nos restaurantes não-restaurantes, confeitarias com fabrico próprio, de boa qualidade, dispondo de um prato do dia normalmente rico em saladas e composto por guarnição ligeira. estes sítios estão quase sempre cheios à hora do almoço e o serviço é rápido e não necessariamente mau. o espaço é muito bem aproveitado, de maneira que a malta almoça praticamente na mesma mesa. partilha-se quase tudo: o fumo do cigarro, o aroma das francesinhas espectaculares (só no Porto mesmo) e as conversas. hoje calhou de cuscar o que diziam quatro raparigas mulheres, supostamente funcionarias de um tribunal das redondezas. o tema dominante foi o trabalho, o serviço e as relações com as chefias. e conclui que não vale muito a pena pedir-se esforços extras aos portugueses, principalmente a este tipo de portugueses que trabalham das nove às cinco e recebem o seu salário entre o dia 20 e o dia 25 de cada mês. esta malta quer lá saber de questões um tanto mais pertinentes como “produtividade”, “assiduidade”, ou mesmo”responsabilidade”! esta malta precisava de fazer um estagio, de 15 dias apenas, numa empresa com pés e cabeça, com orçamentos e objectivos concretos e apetrechadas com “controladores de tempos e métodos”. morriam, tenho a certeza.

quinta-feira, 7 de julho de 2005

um dia destes...( oxalá nunca!)

Porto, 7.30, um dia destes. Centenas de pessoas desaparecidas no meio dos escombros da estação de S.Bento, no Porto, que ficou completamente destruída desde a rua da Madeira até à Av. Vimara Peres, devido a um presumível acto terrorista ainda não reivindicado. A protecção civil e os bombeiros não têm meios suficientes para fazer face à tragédia, o que levou o primeiro-ministro a pedir auxilio às autoridades espanholas. O presidente da Câmara Municipal do Porto já fez um declaração à imprensa, confirmando que tudo aponta para um acto terrorista. Até ao momento ainda não foi possível perceber-se que tipo de grupo ou organização terrorista possa estar por detrás deste atentado.
de regresso a casa e embrulhado no transito,um calor insuportável e a tsf a dar cartas. Carlos Vaz Marques salvou-me a tarde com o seu excelentíssimo “Pessoal e Transmissível”. a delicia do programa de ontem trouxe-nos a reposição de uma entrevista ao editor/tradutor Michel Chandeigne, um francês rendido a Portugal e a Lisboa, aos nossos escritores, vivos e desaparecidos, novos e velhos. artesão desse oficio raro mas banalizado por inúmeras editoras de tudo e mais alguma coisa que venda, sem critério, sem alma, sem arte, Michel Chandeigne consolou-me o espírito porque ainda existe para os livros, e consequentemente, despertou-me um sorriso de sincera satisfação.
como me soube bem a mensagem clara de que temos alma de escritores, que somos um pequeno país, com uma língua “estranha” e, contudo, recheado de escritores cujos nomes ombreiam com Rilke, Joyce, etc.

quarta-feira, 6 de julho de 2005

Serafim tem um especial orgulho numa colecção de cromos que guarda religiosamente desde 1968. o bacalhau, numero quarenta e dois, está um bocadito desfeito mas era, de longe, o mais difícil de encontrar. o cinquenta e três é o rato e o grilo é o três. ficaram as estampas, coladas com farinha e água numa caderneta muito pequena e feita de papel sebenta. e na memória fica o sabor único dos rebuçados, cor de mel, muito pequenos e que eram envolvidos pelas “vitórias” o nome que se dava àquela colecção.
penso tratar-se de uma edição vendida apenas no Porto e arredores, não sei bem. tinha eu os meus cinco anos e regalava-me a vê-las, e consolava-me com os rebuçados. ajudava os meus irmãos a fazer a cola com farinha e água e jogava ao “vira” com os cromos repetidos. não sei se algum dos visitantes do food-i-do teve alguma experiência com esta fabulosa colecção e, por outro lado, bem me esforcei procurando nos motores de busca por qualquer coisa que faça referencia a isso e não tive sucesso.
recordar é bom, de qualquer modo.

terça-feira, 5 de julho de 2005

ele era o Ginja, o maior. tratavam-no assim porque passava os dias a fazer sinalética para o transito. vestia uma farda à fidel e trazia umas barbas brancas e longas. na mão esquerda segurava uma vergasta à coronel. era um cromo, o Ginja. Efigénia era muito amiga dele e dominava-se por uma ligação conjugal, não ao doido varrido que era o homem, mas sim à sua indumentária. Efigénia sempre adorou fardas e contam os mais velhos que não havia bombeiro na vila que não tivesse sido estímulo para os seus longos orgasmos matinais. de modo que o Ginja sentia-se um modelo para a cachopa. apesar das suas nobres tarefas, o transito e a maldita passadeira, Ginja nunca deixara de lhe botar olhinhos marotos de brigadeiro. Efigénia, já gasta e sem vontades, correspondia aos sinais do cromo e de vez em quando sentia-se menina, para logo acordar daqueles repentes porque o rubor mandava mais e as tarefas da igreja impediam tais propósitos.
solteirões e amantes, como a terra e a lua, Efigénia e Ginja nunca se aproximaram, jamais se tocaram e há quem diga que tal romance só podia ter dado no que deu, nas recordações de tudo o que podiam ter feito e não fizeram , nunca fizeram. por isso o Ginjas era o maior, porque era o dono daquela história. e Efigénia era a Geninha do Ginjas porque se sentia dele, sendo só. sentia-se uma mortalha sem tabaco mas cheia dos aromas de uma juventude sonhada, passada sem passado e queimada como um triste cigarro nos lábios de um homem só.

segunda-feira, 4 de julho de 2005

Maria do Sameiro era uma boa sopeira. uma sopeira, sem ofensa, muito dedicada que via as colegas subirem na vida, pensando ela que tal se devia à velha questão de sempre, a regra mais básica de toda a coexistência humana desde os tempos de adão e eva: a graxa. resolveu então esmerar-se mais ainda. e um belo dia decidiu que o patrão não mais limparia o cu sempre que ela estivesse de serviço. ora o patrão tinha o estranho hábito de, ao cagar, escrevinhar umas coisitas no papel antes de limpar o orifício metrosexual. Maria do Sameiro sabia disso e mais do que prestar um óptimo serviço ao seu mestre, mais do que esperar uma promoção na sua carreira, ela passou a coleccionar os papéizinhos, sem merda, mas cheios de merdas escritas pelo seu dono. Maria do Sameiro andou nisto dias e dias, consta-se que mais de ano, e via as amigas subirem à glória da consagração editorial. De modo que desatou a compilar os rascunhos e decidiu lê-los. e aprendeu umas coisas e percebeu que, em sendo burra, podia ao menos escrever coisas para as amigas sopeiras. elas iam adorar, assim como ela adorou toda a porcaria que elas escreveram, assim como ela elogiou todas as merdas que elas editaram. o patrão deu um jeito e arranjou uma editora que tinha uma executiva para os "assuntos de sopeiras escritoras", a bem da verdade, uma ex sopeira e ex limpa cus. Consta-se que houve uma grande festa e que no momento dos autógrafos, Maria soltara um desabafo que marcou a sessão e que foi, inclusivamente ( um termo bem á sopeira, hein?), citado no cabaré da coxa. Maria teria afirmado que estava feliz porque realizara o sonho da vida dela: escrever um livro de merda.


da janela donde trabalho vejo a capela do Palácio dos Pestanas, hoje sede do Governo Civil do Porto. se a minha memória não me atraiçoa, este belo edifício serviu de albergue a muitos retornados de África. da África que comemora mais ou menos trinta anos de independência. como este, muitos edifícios públicos, mais ou menos abandonados, serviram de abrigo aos milhares de portugueses expulsos de África. como foi o caso do belíssimo Grande Hotel da Granja, um edifício queirosiano que, ainda hoje, está condenado ao degredo do abandono. seria justo, portanto, fazer-se um breve levantamento de edifícios-albergues-de-retornados que hão-de estar na memória viva de muita gente. bem sei que este tema não é fracturante, nem aborda as grandes questões do presente, como são o facto de termos de voltar a Espanha para comprar gadjets e viagra e andarmos a comprar ganza de Marrocos. mas é um tema, contudo.

sábado, 2 de julho de 2005


ó josé, tu caíste na armadilha, disse maria com uma voz seca e fria. josé olhava-a com aparente atenção, fingindo dar crédito às palavras da mulher.
vou mas é ler um bom capítulo daquele livro que tem como nome o retrato do artista quando jovem, disse eu, o narrador deste esplêndido excerto literário.
e no momento em que decido levantar-me da minha secretária, descubro que o protagonista deveria chamar-se bernardo. fica bem um bernardo num conto.

ó bernardo, tu caíste na armadilha, disse maria com uma voz seca e fria. bernardo olhava-a com aparente atenção, fingindo dar crédito às palavras da mulher.

e assim o narrador contemplou o seu belo texto e resolveu considerar que valeu a pena pensar no retrato do artista quando jovem.

milhares de cidadãos do planeta vibraram com o live oito, um festival de musica à escala planetária. um recalque, ou decalque, do celebre live aid de 1985. parece que é por uma boa causa, que as há imensas e nem sempre à escala planetária.

ontem no escritório, uma colega abordou-me e perguntou-me se eu costumava comprar água de garrafa de plástico. claro que sim, disse eu, e ela pediu que eu lhe levasse as tampas porque há uma recolha de tampas para que se possa oferecer uma cadeira de rodas a uma menina de gaia. gaia é a minha terra e a menina precisa de ajuda e eu cá em casa tenho o bom hábito de separar os lixos e não me custa nada levar as tampas para a tal recolha. se isto é verdade, é pois uma boa causa. caso contrário anda alguém a criar uma mega rede de lixeiros especializados em lixo que dá dinheiro. depois vende-se o bruto da coisa e factura-se uma boa maquia. e se é verdade que a boa iniciativa do live oito é séria, tudo bem. mas ninguém me garante que aquilo não passe de uma ocupação de tempos livres de uns tantos roqueiros, grande parte deles dinossauros, que nada mais fazem do que promover a sua imagem. não sei, não. e não me interessa muito. aliás passou-me ao lado porque já não suporto os pink floyd de agora nem o paulinho dos beatles e muito menos o elton dos óculos
oiço o barulho efémero das moedas, que parecem catraios a brincar, saltitando na algibeira do meu casaco já gasto. moedas pobres mas muito activas. elas entram quase sempre aos pares e saem em grupo, raramente permanecem mais de meia hora naquela morada de ocasião. o estacionamento, o café e o tabaco dão-lhes destino marcado. e circulam, sempre contentes, indiferentes à sua condição de vil metal. as mais crescidas estão na primeira fila e, uma vez ou outra, as mais pequenitas ocupam espaços vagos no transporte da troca comercial. são como "moços de trolha" que ora tapam um buraco, ora completam uma tarefa mais básica. raramente são valorizadas, a não ser na caixa de pagamento do supermercado Lidl, onde a conta acaba quase sempre irremediavelmente em "ponto" três cêntimos, ou dois. essa moedinhas, de leite, parecem já um coisa de importãncia. ninguém as recusa e cabem sempre na algibeira. as maiores, orgulhosas, quase as pontapeiam, porque sabem que tais ganapitas as impedem de sair mais cedo. as moedas são uma sociedade viva, como a das abelhas, a das formigas.

sexta-feira, 1 de julho de 2005

o grande thor sabe o que é bom.


via attu

O Rogério, do Indústrias Culturais enviou-me um inquérito para um trabalho académico que está a elaborar. Respondi com gosto:

Inquérito
1. Como começou o seu blogue [razões, objectivos]?
Tomei conhecimento dos blogs através da imprensa e fui ver. Gostei da ideia a aderi.
2. Quando começou?Em Julho de 2003
3. Criou mais do que um blogue? Nomes; blogue individual ou de grupo?
Não

4. Tem preocupações estatísticas (periodicidade, temas, audiências)?
Tenho. Relativas, mas tenho.
5. Antes dos blogues teve alguma experiência na internet (grupo de discussão, comunidade MSN). Se sim, como foi essa experiência?Tinha um experiência no IRC Chat que já estava afastada.
6. Quais os temas do seu blogue?Meltingblog
7. Quais os temas que procura ler na blogosfera?Filosofia, politica e generalidades.
8. A sua perspectiva é optimista ou crítica deste universo?
É criticamente optimista
9. Como define um blogue?Um blog é um registo de textos na web. Pessoalmente acho que um blog é um “tomagochi” da Internet, um webdog.
10. Que níveis etários são, na sua perspectiva, os dominantes nos blogues (7-14, 15-24, 25-34, 35-44, acima dos 45 anos)?25-34 e 35-44
11. Acha que são mais masculinos? Ou femininos? Como caracteriza os de cada género sexual?Unisexo. Os femininos são diabolicamente atraentes e melosos quanto baste. Os masculinos cheiram muito a cavalo.
12. É capaz de idealizar qual será o universo dos blogues daqui a cinco anos? Para onde vão os blogues? Hoje encerrou o Barnabé (devido a uma birra). Acho que os blogs colectivos resistem menos e daqui a cinco anos talvez surja um outro tipo de coisa, mais sofisticada (talvez à boleia do UMTS). Em todo o caso faço notar que isto tudo não é mais nem menos do que um mundo silicone: tudo mexe muito fácil e rapidamente.
13. Que tipos de blogues acha existirem (exemplo: políticos, de jornalistas)?
Há blogs de todas as naturezas. Gostava de ter um blog sobre a morte, mas acho que ninguém lá iria.
14.Qual acha a percentagem de blogues dedicados ao jornalismo? E ao ensino e comentário do jornalismo?Não tenho uma ideia quantitiva.
15. Como entende os comentários no seu blogue e no de outros?Acho os comentários como um apêndice das salas de chat. Há blogs que vivem dos comentários e há blogs que, apesar de poucos comentários vivem do impacto que exercem nas cabecinhas de quem os lê.
16. Usa as diferentes potencialidades dos blogues, como fotoblogue, videoblogue?
De quando em vez, sim.
17. Um blogue é um espaço literário? Ou visual? Ou outra coisa? É um espaço onde há tudo. E pulgas também.
18. O escrever um blogue aumenta ou diminui o consumo de práticas culturais (televisão, cinema, jornais, livros)?Aumenta nos livros (até dá livros) mas retira televisão ( o que é bom)
19. Tem lido livros sobre internet e blogues? Quais? Que resumos pode fazer deles?Nada. Sou contra livros de blogs, não leio.
20. Conhece pessoalmente blogueiros desde que tem o seu blogue? Como chegou ao seu conhecimento? Estabeleceu alguma amizade com eles?Sim, conheço através de alguns encontros de bloggers. Penso que fiz um ou outro amigo.
21. O escrever no blogue alarga contactos ou isola quem o faz?Alarga, definitivamente.
22. Indique até três blogues que fazem parte da sua leitura diária.
Blogamemucho, Blasfémias e Erotismo na Cidade
23. Indique pessoas – em especial não blogueiros – que têm um interesse grande sobre este tema.
Jornalistas, intelectuais e puxa-sacos.
24. Conhece algum blogue cuja temática – jornalismo regional ou de proximidade – seja idêntico ao seu? Qual?Não conheço.
25. No caso de um blogue de jornalista acha que ele respeita as regras e princípios profissionais, como clareza e exactidão?
Quase nenhum jornalista respeita isso, portanto aqui passa-se o mesmo.
26. Dados sociográficos: idade, habilitações literárias, função profissional.
39, 12º ano, consultor
Web Analytics