Eu ando a comer de mais. Estas viagens ao sul, atravessadas por longa estadia, fazem-me engordar, se bem que engordar é uma coisa que toda a espécie animal aceita de bom grado, menos nós, porque nós somos diferentes. Nós engordamos porque não sabemos engordar. As outras espécies fazem-no com uma sabedoria genética que impressiona. No meu caso, engordo porque não tenho tempo para emagrecer. Ando nesta azáfama de ganhar dinheiro e despisto-me por esses restaurantes oferecidos, esses casebres que me destratam e que funcionam quase sempre todos os dias e surgem em todos os lugares como cogumelos gigantes com longas chaminés e prósperas caixas registadoras.
Nos últimos dias já me sentei em belos manjares, porque saiba o leitor que na região do Oeste come-se divinalmente bem e bebe-se ainda melhor. E ainda por cima sinto-me cada vez mais apaixonado pelo Touriga Nacional. E quando um homem se apaixona pelo Touriga Nacional, e se não fizer entretanto umas caminhadas valentes ou se não comer ginásio à colherada, é certo que nele se verifica o inútil avantajar do pescoço, o imbecil embolar da barriga, o inchaço ardido das coxas e, pior ainda, fica com nádegas de gaja. Nada contra as nádegas de gaja, mas nas gajas!
Depois os queijos, os enchidos e os fumeiros tocam na mesma orquestra do Touriga e dançam-nos longas valsas de calorias ritmadas em compassos quaternários, para tornar mais longo o suplicio de engordar, e, mais ainda, ganzar-nos o pensamento de tal forma que só ao fim de três semanas e meia é que damos conta de que já quase não conseguimos ver a tringalha a partir de cima. Uma desgraça!
quarta-feira, 7 de março de 2007
terça-feira, 6 de março de 2007
domingo, 4 de março de 2007
sabores
Soube bem abrir este blog que não conhecia. Música, cinema... e mais música. Ao abri-lo, senti-me no "O Meu mercedes é Maior que o Teu".Há tanto tempo que não vou lá! Tenho saudades.
quinta-feira, 1 de março de 2007
Manuel Bento
da lua
Cheguei à Batalha ontem pela tardinha. A Batalha continua esplendorosa, e já se percebe nela o arrebitar da Primavera. Nos cheiros, nos pássaros, no sorriso das cachopas, a Primavera floresce fazendo acontecer muitas coisas frescas, inclusive o amor. E as paixões, os calores, e a volúpia de como quem lambe um chupa-chupa e depois fica a saborear morangos com sabor a doce que cola nos lábios brilhantes. Mas eu estava a falar da Batalha, e dos vales e montes que a protegem, das serras dentadas e da lua. Se vissem a lua da Batalha talvez não precisassem mais de ver outra lua. Lua penetrante, que nos espelha os sonhos e nos conta histórias com castelos sem heróis, que esses não percebem nada das coisas da lua. Nós sim. Eu sim, percebo. Porque um dia ela disse-me que a minha vontade de amar, de gostar desalmadamente, é que me faz vê-la tão bela. É que me faz venera-la com sorrisos aos riscos, pensamentos ariscos, como se todas as coisas do mundo fossem belos petiscos.
terça-feira, 27 de fevereiro de 2007
papiros
De Minde, aprecio o desvio da estrada que nos leva para a grande cidade a sul e, consequentemente, penetrar nas ruelas do velho burgo, quase assustado, um estranho sem dúvida, e logo numa tarde de sol com meia dúzia de pessoas calcorreando os velhos passeios. Depois, entrar naquele café esquisito, cujo nome, por esquisito, não me recordo mas que tem muito jazz nas paredes e muita cultura nas entranhas. Tem Sagres e jornais desportivos, mas nota-se a fervura em lume brando dos cozinhados tertulianos. De Minde sabe-se que fica ali para as serras, a caminho de Alcanena, ou Alcanede que não estou certo, pois sou Marujo de jangada e escrevo sempre em cima do joelho, conforme me palpitam as coisas da alma. E De Minde veio também uma "escritora wildeana", que não conheço de resto, mas a quem espreito diariamente as suas coisinhas, aqui. Paula Capaz vai lançar um livro "O Táxi que me apanhou", editado pela Papiro, uma editora que presumo tem raízes no jornal "Comércio do Porto" e que gosta de surpreender. Tal lançamento está previsto para o próximo dia 2 de Março em Lisboa pelas 21.30 horas, na livraria Bertrand do Centro Comercial Vasco da Gama. Pudesse eu la estar.
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007
equívocos
julguei que te tinha visto por mais de uma vez, mas, afinal, aquela sombra não era a tua. aquela silhueta a combinar com a luz que relevava a calçada e me transmitia uma harmonia parva, não era de uma pessoa que eu já tivesse visto antes, não era de alguém que me pudesse acenar timidamente e depois revelar-me segredos como se eu fosse um cofre dos reinos de neptuno. julguei que te tinha visto sem te ver, que tinha penetrado nos teus lugares sagrados, nos teus silêncios, e que estava assim habilitado a viajar entre os olhares e os toques e os cheiros...
domingo, 25 de fevereiro de 2007
cinema vivo
sábado, 24 de fevereiro de 2007
procuro
Procuro.
Preciso de um instante mágico que me cale a dor de ser rascunho de mim mesmo.
Não me entendo! Só me vejo em leves traços e não consigo sair deles.
Quero ser obra acabada, colorida e não pesada, sentida.
Quero ser viagem terminada, tão longe me sinto nesta paragem.
Quero boleia porque perdi minha jangada. Não sei dela.
Os farrapos que me vestem assustam os passantes e nem os gatos vadios, meus amigos, me ajudam mais.
Estou dorido, cansado, mergulhado no meu desenho. Perdido...
Não sei que cor escolher, não sei que traço tomar.
Tenho de continuar.
Tenho de continuar...
Preciso de um instante mágico que me cale a dor de ser rascunho de mim mesmo.
Não me entendo! Só me vejo em leves traços e não consigo sair deles.
Quero ser obra acabada, colorida e não pesada, sentida.
Quero ser viagem terminada, tão longe me sinto nesta paragem.
Quero boleia porque perdi minha jangada. Não sei dela.
Os farrapos que me vestem assustam os passantes e nem os gatos vadios, meus amigos, me ajudam mais.
Estou dorido, cansado, mergulhado no meu desenho. Perdido...
Não sei que cor escolher, não sei que traço tomar.
Tenho de continuar.
Tenho de continuar...
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007
repassando
Repassando as ideias com pente de barbeiro rasca, aqueles barbeiros com pomada no cabelo e que soltam milhões de perdigotos a tentar explicar-nos que o Pinto da Costa é o maior santo da terra a seguir à Mãe deles (não é por acaso que eu vou a uma barbeira que fica caladinha a massajar os meus lindos cachos) , informo-te, querido diário, sim, carago, tu agora és mais do que um diário, és o meu fiel amigo, o único confidente, o que está sempre presente e não resmunga, o que ouve e não diz uma palavra, o que me atura quando definho perdido em labirínticos esboços de mim mesmo...informava-te eu, querido diário, que esta coisa de ter feito anos em dia de carnaval, em terça-feira gorda, resultou em grave crise na zona florestal intestina e que me sinto assim terrivelmente constrangido e impedido de desenvolver o meu ritual dia a dia de anarquista burguês, de modos que agora ando a tomar chá com croissants que a fnac me vende perguntando-me sempre religiosamente se tenho cartão fnac. Uma pergunta estúpida e inútil, introduzida no nosso país pela cadeia Continente, no tempo do famigerado cartão universo, depois copiada pelo Carrefour e agora cada vez mais triturada pelas simpáticas funcionárias da fnac, umas tipas baratas e não necessariamente más... enfim.
E dizia-te eu que ando com caganeira, pronto. E sempre que assim me encontro, vem-me à memória aquele Parvo do Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente que era ourives e dramaturgo e não foi tido nem achado nas eleições do tal maior português de sempre. Se calhar porque ninguém o conhece de lado nenhum, é claro, porque os parvos de hoje são bem diferentes, escrevem coisas girissimas e imitam figuras públicas e fazem anúncios a companhias de telefones e tudo, e não têm tempo para falar de pessoas doutro tempo.
Pronto, pronto, não seja por isso e mudando de assunto, ontem vi um grande filme sobre dois amantes que se encontravam uma vez por ano, sempre no mesmo sítio, durante 25 anos e que se conheciam como se vivessem uma vida inteira juntinhos, eram solidáros, honestos... Isto para explicar que, como me disse alguém sobre um livro que falava de uma criança condenada com cancro terminal e que alguém lhe proporcionou uma vida integra, com casamento e tudo, plena, passada e vivida em tão pouco tempo de vida real, os casamentos seriam bem mais honestos, sãos e duradouros, se cada um de nós pudesse hibernar deles 364 dias por ano.
E dizia-te eu que ando com caganeira, pronto. E sempre que assim me encontro, vem-me à memória aquele Parvo do Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente que era ourives e dramaturgo e não foi tido nem achado nas eleições do tal maior português de sempre. Se calhar porque ninguém o conhece de lado nenhum, é claro, porque os parvos de hoje são bem diferentes, escrevem coisas girissimas e imitam figuras públicas e fazem anúncios a companhias de telefones e tudo, e não têm tempo para falar de pessoas doutro tempo.
Pronto, pronto, não seja por isso e mudando de assunto, ontem vi um grande filme sobre dois amantes que se encontravam uma vez por ano, sempre no mesmo sítio, durante 25 anos e que se conheciam como se vivessem uma vida inteira juntinhos, eram solidáros, honestos... Isto para explicar que, como me disse alguém sobre um livro que falava de uma criança condenada com cancro terminal e que alguém lhe proporcionou uma vida integra, com casamento e tudo, plena, passada e vivida em tão pouco tempo de vida real, os casamentos seriam bem mais honestos, sãos e duradouros, se cada um de nós pudesse hibernar deles 364 dias por ano.
terça-feira, 20 de fevereiro de 2007
regressos II
Dia de Carnaval, dia de aniversário. Acordei tarde, quase em cima da hora de almoço. Não porque tivesse ido para a zona, ontem à noite, mas apenas porque me deixei dormir, sonhando com coisas terrenas e com o suicídio de Kurt Cobain. Tinha visto na rtp 2 um doc. sobre Bob kennedy, o irmão do amante de Marylin, um homem que podia ter feito história, e deixei-me adormecer a ver um outro doc., na mesma rtp 2, e sobre Clint Eastwood. Dormi regalado com acréscimos de poesia e romantismo no pensamento. Isto também porque a minha filha estava linda, de diaba vestida, e tinha ido para Ovar, dançar para a tenda, onde ficaria até ás nove horas de hoje.
Já hoje, e depois do banho, e do desprezo pela minha barba de três dias, atirei-me a uma feijoada com focinho de porco e orelheira, bebi um Alentejo tinto e tomei três cafés de enfiada. Amanhã é o início de quarenta dias de Quaresma, de jejuar, de combater o excesso de peso até à Páscoa do pão-de-ló e dos folares. Hoje é terça-feira gorda e ninguém está autorizado a pensar em bandas gástricas. E é assim perdidamente, a ouvir o som do ventilador do meu computador, que me despeço dos quarenta anos redondos. Amanhã só paro nos cinquenta!
E a minha filha acabou agorinha mesmo de acordar do seu soninho e veio aqui dar-me um repenicado beijinho de parabéns. Tão Bom!
Já hoje, e depois do banho, e do desprezo pela minha barba de três dias, atirei-me a uma feijoada com focinho de porco e orelheira, bebi um Alentejo tinto e tomei três cafés de enfiada. Amanhã é o início de quarenta dias de Quaresma, de jejuar, de combater o excesso de peso até à Páscoa do pão-de-ló e dos folares. Hoje é terça-feira gorda e ninguém está autorizado a pensar em bandas gástricas. E é assim perdidamente, a ouvir o som do ventilador do meu computador, que me despeço dos quarenta anos redondos. Amanhã só paro nos cinquenta!
E a minha filha acabou agorinha mesmo de acordar do seu soninho e veio aqui dar-me um repenicado beijinho de parabéns. Tão Bom!
segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007
regressos
Vila Nova de Gaia. De regresso a casa, saúdo o frio que me brindou com uma leve dor de garganta. No Norte sofre-se muito da garganta, ou por que se fala de mais ou porque se sente o frio em demasia.
E entretanto amanha, dia 20, é Carnaval. E é o dia do meu aniversário (e de Kurt Cobain que foi mais inteligente do que eu suicidando-se desta merda toda).
O dia em que eu farei quarenta e um anos sem ter culpa alguma disso. E serei sempre inocente de fazer anos enqunto me sentir salvo pelos meus lindos cachos, pelo meu olhar de puto meigo e pelos os meus belos lábios que foram desenhados por um deus do Olimpo, disse-me uma vez certa pessoa. Fazer quarenta e um anos não pode ser o mesmo que andar para trás indo para a frente. Não senhor. Fazer quarenta e um anos pode e deve ser entendido como uma pequena etapa desta eterna juventude que me preenche.
E entretanto amanha, dia 20, é Carnaval. E é o dia do meu aniversário (e de Kurt Cobain que foi mais inteligente do que eu suicidando-se desta merda toda).
O dia em que eu farei quarenta e um anos sem ter culpa alguma disso. E serei sempre inocente de fazer anos enqunto me sentir salvo pelos meus lindos cachos, pelo meu olhar de puto meigo e pelos os meus belos lábios que foram desenhados por um deus do Olimpo, disse-me uma vez certa pessoa. Fazer quarenta e um anos não pode ser o mesmo que andar para trás indo para a frente. Não senhor. Fazer quarenta e um anos pode e deve ser entendido como uma pequena etapa desta eterna juventude que me preenche.
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