terça-feira, 13 de março de 2007

sobrevivências

Hoje sinto uma leve dor de cabeça. Dormi o que dormi, mas não compensei o excesso de cerveja e de fumo. Passei a noite quase toda a jogar poker e estas coisas são cansativas, porque ficamos ali sentados a receber cartas e a apostar fichas desalmadamente com o cigarro enfiado na beiça e o olhar à matador. O poker ensina-nos a levar a vida com outra destreza. As habilidades postas em jogo numa relação pessoal ou profissional cabem todas num simples jogo de poker. O poker deveria ser estudado nas escolas, deveria ser um guia prático de como devemos encarar as pessoas e as suas estratégias de sobrevivência...
O poker ensina-me a sobreviver.

segunda-feira, 12 de março de 2007

segunda-feira

Tenho de me levantar. Tenho muito de ir tomar um banho, de me vestir e de emborcar café e fumar, não consigo deixar de fumar, e olhar as pessoas e rir e agitar o meu olhar com fulgor que dá inveja. Tenho de fazer isso tudo como se não fosse possível fazer mais nada. Coço a cabeça violentamente porque me sinto emaranhado. Noto alguns cabelos entre os dedos. Não tenho caspa, já quase não me lembro de ter caspa. Não tenho dessas coisas. Dores de costas, olheiras, tosse, febre, cansaço. Nada disso me afecta. Sou um pavão hoje de manhã.

sábado, 10 de março de 2007

vamos morrer todos

"Calma doutor! Calma doutor! Vamos morrer todos!" Uma frase que o Yuri me atirou ontem, quando eu lhe dizia duas ou três coisas mais aceleradas, em circunstâncias próprias de um dia normal de trabalho. O Yuri é um russo que trabalha. Faz tudo para ganhar dinheiro, inclusive aturar toda a merda de patrões que se aproveitam da sua condição precária. Vai ter um passaporte, finalmente. Vai ter "papeis" para poder trabalhar com dignidade. O Yuri gosta de trabalhar e toca baixo e adora rock soviético. Sonha criar uma banda e eu alimento-lhe esse sonho. Prometo-lhe dias gloriosos neste sol ocidental. Que vai actuar no "O meu Mercedes" do Porto e no "Clinic" de Alcobaça. Diz que vou ser o "Manager" da banda, que não conhece ninguém melhor do que eu. E eu fiquei a pensar naquela expressão de descontracção, de aparente descomprometimento com os problemas que afectam um cidadão russo desterrado neste sol. Calma, doutor! Vamos morrer todos! Pois vamos.

quinta-feira, 8 de março de 2007

essa gaja

Eu não sou nada a favor dos dias especiais de qualquer coisa. Mas este dia merece-me um breve comentário. Eu percebo pouco de mulheres, não lhes conheço as manhas e só sei dizer que gosto delas. Sempre gostei. Da mãe, da tia, do borrachinho do sétimo ano, da tesuda do liceu, da professora, da empregada, da puta da estrada e da brasileira do pantera. Mas aquela de quem eu gosto mesmo é a mãe dos meu filhos. A única mulher de quem eu jamais deixarei de gostar, custe o custar, aconteça o que acontecer. Essa sim, conheço bem. É gaja do caraças. Como tantas gajas por aí que são mães a tempo inteiro, trabalham a tempo inteiro, dando ideia de que ainda podiam fazer mais qualquer coisita, como se tudo fosse uma simples história de embalar. Essa gaja, mãe dos meu filhos, é dona do meu pensamento. Quando me ponho a pensar em homenagear a mulher, uma mulher, não consigo encontrar ninguém que lhe faça frente.

quarta-feira, 7 de março de 2007

gordo outra vez

Eu ando a comer de mais. Estas viagens ao sul, atravessadas por longa estadia, fazem-me engordar, se bem que engordar é uma coisa que toda a espécie animal aceita de bom grado, menos nós, porque nós somos diferentes. Nós engordamos porque não sabemos engordar. As outras espécies fazem-no com uma sabedoria genética que impressiona. No meu caso, engordo porque não tenho tempo para emagrecer. Ando nesta azáfama de ganhar dinheiro e despisto-me por esses restaurantes oferecidos, esses casebres que me destratam e que funcionam quase sempre todos os dias e surgem em todos os lugares como cogumelos gigantes com longas chaminés e prósperas caixas registadoras.
Nos últimos dias já me sentei em belos manjares, porque saiba o leitor que na região do Oeste come-se divinalmente bem e bebe-se ainda melhor. E ainda por cima sinto-me cada vez mais apaixonado pelo Touriga Nacional. E quando um homem se apaixona pelo Touriga Nacional, e se não fizer entretanto umas caminhadas valentes ou se não comer ginásio à colherada, é certo que nele se verifica o inútil avantajar do pescoço, o imbecil embolar da barriga, o inchaço ardido das coxas e, pior ainda, fica com nádegas de gaja. Nada contra as nádegas de gaja, mas nas gajas!
Depois os queijos, os enchidos e os fumeiros tocam na mesma orquestra do Touriga e dançam-nos longas valsas de calorias ritmadas em compassos quaternários, para tornar mais longo o suplicio de engordar, e, mais ainda, ganzar-nos o pensamento de tal forma que só ao fim de três semanas e meia é que damos conta de que já quase não conseguimos ver a tringalha a partir de cima. Uma desgraça!

domingo, 4 de março de 2007

sabores

Soube bem abrir este blog que não conhecia. Música, cinema... e mais música. Ao abri-lo, senti-me no "O Meu mercedes é Maior que o Teu".Há tanto tempo que não vou lá! Tenho saudades.

quinta-feira, 1 de março de 2007

Manuel Bento

Ainda há pouco eu era puto e adorava o Bento. O guarda-redes que voava sobre os avançados e nunca teve direito nem a poema nem a letra de canção. Era da Golegã, e foi o meu guarda-redes de sempre. Deixou-nos hoje.

da lua

Cheguei à Batalha ontem pela tardinha. A Batalha continua esplendorosa, e já se percebe nela o arrebitar da Primavera. Nos cheiros, nos pássaros, no sorriso das cachopas, a Primavera floresce fazendo acontecer muitas coisas frescas, inclusive o amor. E as paixões, os calores, e a volúpia de como quem lambe um chupa-chupa e depois fica a saborear morangos com sabor a doce que cola nos lábios brilhantes. Mas eu estava a falar da Batalha, e dos vales e montes que a protegem, das serras dentadas e da lua. Se vissem a lua da Batalha talvez não precisassem mais de ver outra lua. Lua penetrante, que nos espelha os sonhos e nos conta histórias com castelos sem heróis, que esses não percebem nada das coisas da lua. Nós sim. Eu sim, percebo. Porque um dia ela disse-me que a minha vontade de amar, de gostar desalmadamente, é que me faz vê-la tão bela. É que me faz venera-la com sorrisos aos riscos, pensamentos ariscos, como se todas as coisas do mundo fossem belos petiscos.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

papiros

De Minde, aprecio o desvio da estrada que nos leva para a grande cidade a sul e, consequentemente, penetrar nas ruelas do velho burgo, quase assustado, um estranho sem dúvida, e logo numa tarde de sol com meia dúzia de pessoas calcorreando os velhos passeios. Depois, entrar naquele café esquisito, cujo nome, por esquisito, não me recordo mas que tem muito jazz nas paredes e muita cultura nas entranhas. Tem Sagres e jornais desportivos, mas nota-se a fervura em lume brando dos cozinhados tertulianos. De Minde sabe-se que fica ali para as serras, a caminho de Alcanena, ou Alcanede que não estou certo, pois sou Marujo de jangada e escrevo sempre em cima do joelho, conforme me palpitam as coisas da alma. E De Minde veio também uma "escritora wildeana", que não conheço de resto, mas a quem espreito diariamente as suas coisinhas, aqui. Paula Capaz vai lançar um livro "O Táxi que me apanhou", editado pela Papiro, uma editora que presumo tem raízes no jornal "Comércio do Porto" e que gosta de surpreender. Tal lançamento está previsto para o próximo dia 2 de Março em Lisboa pelas 21.30 horas, na livraria Bertrand do Centro Comercial Vasco da Gama. Pudesse eu la estar.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

equívocos

julguei que te tinha visto por mais de uma vez, mas, afinal, aquela sombra não era a tua. aquela silhueta a combinar com a luz que relevava a calçada e me transmitia uma harmonia parva, não era de uma pessoa que eu já tivesse visto antes, não era de alguém que me pudesse acenar timidamente e depois revelar-me segredos como se eu fosse um cofre dos reinos de neptuno. julguei que te tinha visto sem te ver, que tinha penetrado nos teus lugares sagrados, nos teus silêncios, e que estava assim habilitado a viajar entre os olhares e os toques e os cheiros...

domingo, 25 de fevereiro de 2007

cinema vivo

Ennio Morricone vai receber hoje um Oscar Honorário em homenagem à sua vastíssima obra musical para cinema. Todos se lembram dos "Westerns Spaggetis" de Sergio Leone e que pariram para o mundo esse excelente Clint Eastwood. Mas Ennio Morricone é muito mais do que isso, é o cinema vivo e intemporal, conforme nos mostra o melhor filme jamais feito em homenagem ao próprio cinema, Cinema Paraíso, musicado também por Ennio Morricone. Viva o cinema! Viva a música!
Web Analytics