"Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios..."
in Cântico Negro de José Régio
Hoje há mais um tratado para tratar e há festa e polícias a cortar o trânsito e fotografias oficiais e os Jerónimos. E está frio lá fora. Nada de novo.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
atrevo-me
"He came dancing across the water
Cortez, cortez
What a killer."
Entretanto, ordeno-me que oiça Neil Young. Bom sinal (nesta época do ano não há melhor eucaristia)!
Sinto-me um "Cortez What a Killerrrrr" que precisa de redenção, e no entanto cada rasgo de guitarra surge-me como uma cimitarra que me golpeia as entranhas do pensamento. Rasgos prolongados que me levam à terra do nunca, onde posso dar os passos que não dou e onde vejo as formas que não toco e onde percebo as palavras que não sei.
Depois desta perene oração levanto-me ligeiro e, olhando o "lá fora", vejo o tempo bom, as flores dormentes e os pássaros obreiros. E vejo a tinta da minha alma caiada numa parede lisa e atrevo-me tocá-la em tentativa mordaz de me doer.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
hoje de manhã
Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...
Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.
Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre --
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.
Alberto Caeiro
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...
Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.
Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre --
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.
Alberto Caeiro
sexta-feira, 7 de dezembro de 2007
The Drunken
O man, take care!
What does the deep midnight declare?
"I was asleep—
From the deep dream I woke and swear:
The world is deep,
Deeper than day had been aware.
Deep is its woe;
Joy—deeper yet than agony:
Woe implores: Go!
But all joy wants eternity—
Wants deep, wants deep eternity."
Nietzsche
What does the deep midnight declare?
"I was asleep—
From the deep dream I woke and swear:
The world is deep,
Deeper than day had been aware.
Deep is its woe;
Joy—deeper yet than agony:
Woe implores: Go!
But all joy wants eternity—
Wants deep, wants deep eternity."
Nietzsche
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
devoluções
Hoje devolvo-me a todas as coisas, deixando-me espalhar pelos materiais como se o meu corpo fosse um estado chumbo derretido. Muito quente, muito fluida, a minha matéria está em estado de devolução às coisas, às formas e aos sentidos. E assim fico com outras formas, mais arredondadas e sem ângulos e arestas vivas. As minhas arestas vivas sangram de um tal desejo de arranhar, de tocar e fazer mexer, e em se devolvendo a outras formas, de arco-íris e flores exóticas, do Índico talvez, de outros mares imensos ou de outras luas argênteas, devolvem-se também ao sonho jamais em mim envelhecido.
terça-feira, 27 de novembro de 2007
difusões
Como naquele conto de Oscar Wilde também eu desejo por vezes que algumas pessoas que me rodeiam não tivessem coração. Não padecessem nem perecessem e que a sua missão não fosse mais que fazer-me rir e brincar comigo sempre que eu quisesse. Não precisariam de ser bonitas, apenas práticas e muito disponíveis. E como naquele outro conto do mesmo autor, gostaria que uma bruxa de cabelos cor de ouro rubro me oferecesse um punhal com cabo de serpente que eu levaria comigo e numa noite de lua cheia eu pudesse cortar a minha sombra e despedir-me da minha alma. E por certo a minha alma desprender-se-ia de mim sem nada reclamar. Não me visitaria mais e eu, assim, poderia enfim mergulhar no oceano dos meus sonhos e beijar os lábios molhados de uma sereia.
segunda-feira, 26 de novembro de 2007
prazeres
Bom, isto não é para se dizer mas acontece que eu sou uma puta e digo tudo, mesmo coisas que não se devem dizer. Este fim-de-semana virei o barco que é uma coisa que eu faço de quando em vez mas já não tinha memória da última.
Virar o barco é uma coisa bárbara. Um tipo fica assim a modos que com muitos calores e de repente apanha-se prostrado sobre uma sanita, o mais kunderiana possível já agora e que me deixe ver as entranhas da terra mais o inferno e as chamas que ardem de um fogo irresistivelmente atraente, e enquanto deita tudo borda fora, a alma inicia o seu único e verdadeiro momento de indispensável reciclagem.
Pronto, foi isso; é isto que me acontece sempre que viro o barco. Fico liso na mente, asseado na compostura e remeto-me sempre para as coisas da alma. Depois faço um Spa de infusões quentes, uma sauna de chá verde e umas bolachinhas maria. E deixo-me ficar muito quieto e talvez compre um livro de contos. Tão bom!..
Virar o barco é uma coisa bárbara. Um tipo fica assim a modos que com muitos calores e de repente apanha-se prostrado sobre uma sanita, o mais kunderiana possível já agora e que me deixe ver as entranhas da terra mais o inferno e as chamas que ardem de um fogo irresistivelmente atraente, e enquanto deita tudo borda fora, a alma inicia o seu único e verdadeiro momento de indispensável reciclagem.
Pronto, foi isso; é isto que me acontece sempre que viro o barco. Fico liso na mente, asseado na compostura e remeto-me sempre para as coisas da alma. Depois faço um Spa de infusões quentes, uma sauna de chá verde e umas bolachinhas maria. E deixo-me ficar muito quieto e talvez compre um livro de contos. Tão bom!..
quarta-feira, 21 de novembro de 2007
despertares
Hoje despertei entranhado num apetite diferente. Comi bananas e nozes e bebi chá lúcia lima. Desalbardei Coltrane do leitor de CDs e lá voltei eu ao meu velho e grande amigo que me visita tantas vezes nestes dias de chuva. Sussurra-me coisas, este cabrão. Desafia-me a dançar de olhos fechados. E eu danço num balanço torto e deixo-me sorrir como se soubesse onde fica o lugar da felicidade.
domingo, 11 de novembro de 2007
andamos sempre!
sábado, 10 de novembro de 2007
miserável honestidade
O tipo seria hoje um homem bem mais realizado, não fosse a miserável honestidade a sua principal característica. Dizem-lhe as vozes da nobre arte do elogio que essa qualidade é a melhor coisa que um homem pode ter. O tipo sorri e engole miseráveis sulcos de honesta saliva, cujas enzimas parecem trespassar a alma ingénua como se tal virtude pudesse bem ser triturada qual simples bolo de arroz. O tipo sabe o que perdeu, o que perde todos os dias, e entrega-se às mais miseráveis e desonestas das emoções: a nostalgia. Sim, porque o tipo sente. E sente a nostalgia das coisas que não tem, dos momentos que não vive, das almas que não toca por causa dessa miserável honestidade. Dessa coisa colorida que o torna cinzento, como se não houvesse mais cores no mundo...
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
de lírios no meu tel visor
Sócrates e Santana na Assembleia da República em dueto do "Ópiparó.." em versão Pimba (prefiro a versão Cantares Alentejanos!). À noitinha os azuis ganham e os vermelhos perdem. Ópiparó!....Ópiparó...Cantares Alentejanos seu Camacho!!!
terça-feira, 30 de outubro de 2007
contradições (ou o que é feito da tradição?)
Anda um tipo anos e anos a desejar que o Leixões suba à divisão maior do nosso futebol para, depois, verificar que, afinal, eles não passam de mais um grupelho de vassalos do FCPorto. O Leixões não era assim...
segunda-feira, 29 de outubro de 2007
calabouço
Hoje sinto-me encarcerado. Um dia destes alguém me observou que eu já há muito tempo não escrevo no meu blog. Estava de licença precária, disse eu. Hoje voltei ao calabouço. Está frio aqui!
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