Hoje deu-me para pegar numa colectânea de canções da minha série preferida, "O Sopranos" (porque afinal um anarquista burguês gosta muito de ter destas coisas boas para em certas alturas escutar muito quieto) e redescobri este Core Ingrato de Dominic Chianese (O inefável Júnior Soprano!). Uma Canção Napolitana que espero vos possa deixar um leve sabor a coisa boa:
Core ingrata (canción napolitana)
Catarí, Catarí, pecché me dici
sti parole amare;
pecché me parle e 'o core me turmiente,
Catari?
Nun te scurdà ca t'aggio date 'o core,
Catari, nun te scurdà!
Catari, Catari, ché vene a dicere stu parlà
ca me dà spaseme?
Tu nun'nce pienze a stu dulore mio,
tu nun'nce pienze, tu nun te ne cure.
Core, core 'ngrato,
t'aie pigliato 'a vita mia,
tutt'è passato e
nun'nce pienze chiù!
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
domingo, 16 de dezembro de 2007
reentrares
Relembrando outros tempos, os outros tempos da inocência e da experimentação, de quando houve coisas de entrar cá dentro e permanecer anos fora, dando que pensar agora e sempre, e apetecer procurar de novo, ousar repetir no agora, como se o agora fosse aquele tempo ido, dá-me na alma assinalar aqui um livro que li e do qual não sei nem o título nem quem o escreveu. Deu-mo uma professora de inglês de entre tantos livros que me oferecia num acto mais do que missionário, pois sabia-os bem entregues. Não que fossem guardados, mas sim porque ela estava certa que seriam lidos, deglutidos com o vigor e a alma de um puto sedento por fugir aos dogmas curriculares, às "Sibilas" e aos "Camões", aos "Kants" e aos "Lavoisiers". E eu li esse livro dentro dele, vivi aquele romance na Munique do pós-guerra entre duas pessoas que me fascinaram tanto. Ele era monge, ou frade, ou padre, nem sei, e ela era uma menina que caminhava na cidade. Sei que casaram no final da história e ele foi noivo e padre desse casamento tão grandioso, porque humano e prenhe de religiosidade. Ficou-me na ideia o título do romance: "Uma mulher naquela casa". Não sei se o reinventei, ou se o gravei como quem grava uma cor do arco-íris de entre todas as outras cores.Sei que gostava tanto de voltar a entrar dentro dele com todas as minhas forças.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
tratados
"Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios..."
in Cântico Negro de José Régio
Hoje há mais um tratado para tratar e há festa e polícias a cortar o trânsito e fotografias oficiais e os Jerónimos. E está frio lá fora. Nada de novo.
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios..."
in Cântico Negro de José Régio
Hoje há mais um tratado para tratar e há festa e polícias a cortar o trânsito e fotografias oficiais e os Jerónimos. E está frio lá fora. Nada de novo.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
atrevo-me
"He came dancing across the water
Cortez, cortez
What a killer."
Entretanto, ordeno-me que oiça Neil Young. Bom sinal (nesta época do ano não há melhor eucaristia)!
Sinto-me um "Cortez What a Killerrrrr" que precisa de redenção, e no entanto cada rasgo de guitarra surge-me como uma cimitarra que me golpeia as entranhas do pensamento. Rasgos prolongados que me levam à terra do nunca, onde posso dar os passos que não dou e onde vejo as formas que não toco e onde percebo as palavras que não sei.
Depois desta perene oração levanto-me ligeiro e, olhando o "lá fora", vejo o tempo bom, as flores dormentes e os pássaros obreiros. E vejo a tinta da minha alma caiada numa parede lisa e atrevo-me tocá-la em tentativa mordaz de me doer.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
hoje de manhã
Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...
Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.
Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre --
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.
Alberto Caeiro
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...
Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.
Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre --
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.
Alberto Caeiro
sexta-feira, 7 de dezembro de 2007
The Drunken
O man, take care!
What does the deep midnight declare?
"I was asleep—
From the deep dream I woke and swear:
The world is deep,
Deeper than day had been aware.
Deep is its woe;
Joy—deeper yet than agony:
Woe implores: Go!
But all joy wants eternity—
Wants deep, wants deep eternity."
Nietzsche
What does the deep midnight declare?
"I was asleep—
From the deep dream I woke and swear:
The world is deep,
Deeper than day had been aware.
Deep is its woe;
Joy—deeper yet than agony:
Woe implores: Go!
But all joy wants eternity—
Wants deep, wants deep eternity."
Nietzsche
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
devoluções
Hoje devolvo-me a todas as coisas, deixando-me espalhar pelos materiais como se o meu corpo fosse um estado chumbo derretido. Muito quente, muito fluida, a minha matéria está em estado de devolução às coisas, às formas e aos sentidos. E assim fico com outras formas, mais arredondadas e sem ângulos e arestas vivas. As minhas arestas vivas sangram de um tal desejo de arranhar, de tocar e fazer mexer, e em se devolvendo a outras formas, de arco-íris e flores exóticas, do Índico talvez, de outros mares imensos ou de outras luas argênteas, devolvem-se também ao sonho jamais em mim envelhecido.
terça-feira, 27 de novembro de 2007
difusões
Como naquele conto de Oscar Wilde também eu desejo por vezes que algumas pessoas que me rodeiam não tivessem coração. Não padecessem nem perecessem e que a sua missão não fosse mais que fazer-me rir e brincar comigo sempre que eu quisesse. Não precisariam de ser bonitas, apenas práticas e muito disponíveis. E como naquele outro conto do mesmo autor, gostaria que uma bruxa de cabelos cor de ouro rubro me oferecesse um punhal com cabo de serpente que eu levaria comigo e numa noite de lua cheia eu pudesse cortar a minha sombra e despedir-me da minha alma. E por certo a minha alma desprender-se-ia de mim sem nada reclamar. Não me visitaria mais e eu, assim, poderia enfim mergulhar no oceano dos meus sonhos e beijar os lábios molhados de uma sereia.
segunda-feira, 26 de novembro de 2007
prazeres
Bom, isto não é para se dizer mas acontece que eu sou uma puta e digo tudo, mesmo coisas que não se devem dizer. Este fim-de-semana virei o barco que é uma coisa que eu faço de quando em vez mas já não tinha memória da última.
Virar o barco é uma coisa bárbara. Um tipo fica assim a modos que com muitos calores e de repente apanha-se prostrado sobre uma sanita, o mais kunderiana possível já agora e que me deixe ver as entranhas da terra mais o inferno e as chamas que ardem de um fogo irresistivelmente atraente, e enquanto deita tudo borda fora, a alma inicia o seu único e verdadeiro momento de indispensável reciclagem.
Pronto, foi isso; é isto que me acontece sempre que viro o barco. Fico liso na mente, asseado na compostura e remeto-me sempre para as coisas da alma. Depois faço um Spa de infusões quentes, uma sauna de chá verde e umas bolachinhas maria. E deixo-me ficar muito quieto e talvez compre um livro de contos. Tão bom!..
Virar o barco é uma coisa bárbara. Um tipo fica assim a modos que com muitos calores e de repente apanha-se prostrado sobre uma sanita, o mais kunderiana possível já agora e que me deixe ver as entranhas da terra mais o inferno e as chamas que ardem de um fogo irresistivelmente atraente, e enquanto deita tudo borda fora, a alma inicia o seu único e verdadeiro momento de indispensável reciclagem.
Pronto, foi isso; é isto que me acontece sempre que viro o barco. Fico liso na mente, asseado na compostura e remeto-me sempre para as coisas da alma. Depois faço um Spa de infusões quentes, uma sauna de chá verde e umas bolachinhas maria. E deixo-me ficar muito quieto e talvez compre um livro de contos. Tão bom!..
quarta-feira, 21 de novembro de 2007
despertares
Hoje despertei entranhado num apetite diferente. Comi bananas e nozes e bebi chá lúcia lima. Desalbardei Coltrane do leitor de CDs e lá voltei eu ao meu velho e grande amigo que me visita tantas vezes nestes dias de chuva. Sussurra-me coisas, este cabrão. Desafia-me a dançar de olhos fechados. E eu danço num balanço torto e deixo-me sorrir como se soubesse onde fica o lugar da felicidade.
domingo, 11 de novembro de 2007
andamos sempre!
sábado, 10 de novembro de 2007
miserável honestidade
O tipo seria hoje um homem bem mais realizado, não fosse a miserável honestidade a sua principal característica. Dizem-lhe as vozes da nobre arte do elogio que essa qualidade é a melhor coisa que um homem pode ter. O tipo sorri e engole miseráveis sulcos de honesta saliva, cujas enzimas parecem trespassar a alma ingénua como se tal virtude pudesse bem ser triturada qual simples bolo de arroz. O tipo sabe o que perdeu, o que perde todos os dias, e entrega-se às mais miseráveis e desonestas das emoções: a nostalgia. Sim, porque o tipo sente. E sente a nostalgia das coisas que não tem, dos momentos que não vive, das almas que não toca por causa dessa miserável honestidade. Dessa coisa colorida que o torna cinzento, como se não houvesse mais cores no mundo...
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
de lírios no meu tel visor
Sócrates e Santana na Assembleia da República em dueto do "Ópiparó.." em versão Pimba (prefiro a versão Cantares Alentejanos!). À noitinha os azuis ganham e os vermelhos perdem. Ópiparó!....Ópiparó...Cantares Alentejanos seu Camacho!!!
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