terça-feira, 19 de junho de 2012

Era uma vez uma aldeia de subúrbio, com casas empilhadas entre ruas e vielas. Com pátios de cimento e terra, hortas e galinheiros, e um cão. Quase todas estas casas têm um cão, ora porque se gosta de animais, ora porque se gosta de ter a casa vigiada. E quase todas as pessoas destas casas têm vizinhos e se dão bem. Partilham coisas, recursos pequenos da horta, ou outras coisas que se traz do emprego, que se arranja. Umas madeiras, caixas, ou arame e pregos. Nas casas destas aldeias de subúrbio é normal ver-se muitas coisas que são ali botadas  porque servem para qualquer coisa, nem que seja para dar ao vizinho. E este dar e receber vive-se desde sempre, posto que os vizinhos se dêem, está claro.

E um dia, um vizinho teve ninhada de cães e quando se tem tantos cachorrinhos é normal que não se deitem fora. É normal que se dêem. Os vizinhos dão os seus cachorros, não os vendem. Outros há que acabam por deitar a afogar no rio as cadelinhas por via de uma espécie de "misoginia canina", que é uma coisa que tem tendência a acabar, graças a Deus.

Ora, e um dia um vizinho foi à casa da ninhada escolher um cão. E foi assim que começou a a ser traçada a vida do "Skyp". Ele foi o escolhido porque era o mais bonito da ninhada. Foi um critério de escolha muito razoável, acertado até. Quem não escolheria o cão mais bonito da ninhada se tivesse essa oportunidade?
E o cão deve ter percebido isso. Era o príncipe perfeito, o mais bonito e foi com vaidade que se viu no colo daquela mulher. Saiu do peito da mãe para os braços daquela que iria cuidar dele porque mereceu, porque tinha predicados convincentes e irrecusáveis. Quantos de nós nunca se sentiram assim? O escolhido de entre tantos outros.

Já passaram muitos anos sobre este momento de glória do Skyp e o único outro momento de glória deste  cachorrinho foi o dia em que fechou os olhos para sempre. Quase treze anos depois. Treze anos passados amarrado a uma jaula feita de meio bidão de fibra de vidro , um forno no verão e uma geladeira no inverno. O único brinquedo do Skyp era uma gamela de cimento, onde caía ali uma comida de lavagem. Nunca calcorreou chão nenhum que não fosse aquele pátio sujo de cimento e duvido que tenha tido uma carícia, um consolo da mulher que um dia o retirou do colo materno. Quando por ali passava gente ele era um simples cão perigoso porque era grande e forte e ladrava.
 A única relação de afecto que teve em toda a sua vida foi criada com um carpinteiro vizinho, que ali passava todos os dias de casa para o trabalho e do trabalho para casa. O homem, certo dia a caminho de casa, lembrou-se de lhe atirar com um resto de comida. E isto repetiu-se anos seguidos. Para Skyp, que fora o escolhido, o mais perfeito entre os irmãos, o grande momento da vida dele, o zénite transcendental, era quando o rapaz ali passava e lhe deitava um osso, um bocado de pão ou o que fosse. Por vezes o rapaz não levava nada e via o cão correr aos saltos até onde o cadeado permitia. Via o olhar contente do cão e ficava triste porque percebia a falta, a quebra do ritual.
E assim, ao longo de  quase treze anos, o rapaz procurou não faltar ao combinado. No últimos anos, quando já o pobre bicho definhava, o rapaz sofria. Sofria em silêncio porque eram vizinhos de uma aldeia de subúrbio. E os vizinhos das aldeias de subúrbio dão-se bem e não fazem revoluções. Os vizinhos zangam-se com coisas humanas, não com vidas de cães. Os vizinhos são capazes de observar atrocidades como esta, e de sofrer com elas, mas está-lhes vedado o instinto justiceiro porque talvez ainda não tenham bem presente a diferença entre um cão que foi "o escolhido" e um monte de tábuas que para ali ficou arrumado junto à parede que menos serventia tem. Tudo aquilo faz parte do mesmo e assim continuará a ser.

Certo dia, o rapaz passou frente à casa e não viu o cão. Parou por um instante e sentiu uma tristeza e uma alegria, sol e chuva ao mesmo tempo. Sorriu para ele próprio e seguiu o seu caminho. E noutro dia contou-me esta passagem com ar aliviado enquanto bebia uma cerveja.

domingo, 3 de junho de 2012

Primeiro domingo de um junho que  começa fresco e verde. É de manhã e eu estou a ouvir uma emissora de radio pela internet. Chama-se "radio paradise" e passa música preferencialmente de outro mundo. Rádio ecléctica para um gajo ecléctico, como manda a lei e ordenam os astros.
É quase meio dia cá em casa. De tarde vou acabar de ver o filme "quatrocentos golpes", de François Truffaut, que não consegui ver todo ontem na rtp2. Um belo filme que retrata a vida miserável de um menino na sociedade parisiense de finais dos anos cinquenta. Depois disso, a Europa cresceu muito e a classe média enriqueceu. Hoje está pobre outra vez. Mais pobre ainda porque perdeu também os valores e os sonhos que F. Truffaut tão bem retrata naquele filme. Viva a Europa pobrezinha que eu, entretanto, vou tratar de me debater com uma feijoada bem à portuguesa.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Nao conhecia o menino de 17 anos que partiu por via de uma praia que nos é tão querida, a praia da Baía, em Espinho. Uma praia de que todos nós, aqui da zona, gostamos e utilizamos. Uma tarde de calor, de primavera, de tragédia provocada pela flor da juventude, pela audácia, pelo infortúnio. E hoje, deixei cair uma lágrima por esse menino. Que descanse em paz e que o seu infortúnio nos ensine.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

 há duas semanas fui até espanha a ver se encontrava clientes. umas vezes dá-nos para isto, a nós os portugueses. à falta de gravetame, tungas, abalamos para espanha a ver no que dá.
 espanha anda pelas ruas da amargura, como todos sabem. anda fodida, desesperadamente fodida. madrid é só fachada, castilha la mancha e castilha léon parecem uma urbanização nova cheia de casas para venda e ervas daninhas a comer os logradouros. safa-se o touro osborne (se não sabem o que é o touro osborne, paciência, ide à bruxa de Montain View, Califórnia - essa gaja sabe tudo). o cabrão continua altaneiro, o boi, embora com muito talude em "bolta" dos antigos prados que outrora lhe davam maior fulgor. mas safa-se porque é touro e a espanha é de touros.
 só na biscaia é que vi algum ar de gente a correr. também porque o Athletic ia jogar a final da euroleague e aquilo estava tudo enfeitado com bandeiras às riscas vermelhas e brancas, tudo a "acarditar" numa grande conquista contra castela (mal podiam imaginar que castela é fodida e quando não pode vencê-los vai ao antigo império buscar falcões de garras afiadas - e foi o que se viu). no regresso, ainda comprei um queijo da cantábria, daqueles muito fortes e azuis de bolor, e comprei também uns rosquilhos em verin, que não estavam nada de mais, mas é sempre bom chegar a casa com um ou outro recuerdo.
 de modos que em espanha tudo na mesma, nem bom vento nem o caralho.
 Pra semana vou a toulouse, a ver se compro um bleu d'auvergne, um auvergnaque, que eu sou um gajo cheio de cultura gastronómica (tenho que dizê-lo porque agora qualquer caruncho sabe o que é um auvergnaque, mesmo sem nunca lhe ter posto a vista ou o dente em cima).

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Há 27 anos andava eu por terras de sua majestade a apanhar morangos, framboesas e amoras. velhos tempos, onde as preocupações quase não existiam. 
lembrei-me, pois, de colocar este assunto aqui no meu blog porque gostava de reencontrar aqueles amigos espanhóis e portugueses que na altura comungaram comigo tantas aventuras e experiências. por isso deixa escrever aqui  Church Farm, Tunstead, Norfolk , international farm camp, StrawberriesRaspberrie, etc, a ver se algum desses ménes tem a mesma ideia de reencontrar os velhos amigos e coloca na bruxa (leia-se google) uma destas searchwords. enfim, gostava de rever ou pelo menos falar com malta desse tempo, malta de valença, de murcia, de barcelona...do funchal também. A ver se cola.Ou seja, é como quando um cão dá uma mija num poste. António, de Granollers; Angeles, de Múrcia, e outros...apareçam!


quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

May God bless and keep you always,
May your wishes all come true,
May you always do for others
And let others do for you.
(Bob Dylan)

Bom ano, fellas!
http://www.youtube.com/watch?v=lvebiQfAu4M&feature=related

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

A revista Time, o maior baluarte propagandistico do império capitalista, da mentira e da desinformação, pretendeu brincar com o fogo, no jogo cada vez mais perfeito da clausura planetária face ao jugo capitalista e escolheu para figura deste desgraçado ano de 2011 o "manifestante". Os que se manifestam, se indignam e se entretêm a ocupar espaços públicos de relevância um pouco por todo o mundo capitalista foram, pois, homenageados pelos mensageiros do cancro financeiro, da mordaça económica e social que nos persegue e perseguirá ao longo deste terceiro milénio.

A revista Time devia, sim, prestar homenagem a essa falange imensa de formiguinhas obreiras da sua mais do que perfeita obra de exploração: os caridosos, os que ajudam, os que se organizam em grupos, civis ou religiosos, para dar de comer a quem tem fome. Esses sim, deviam ser figura do ano. Porque essas criaturas caridosas fazem parte deste processo cancerígeno que se chama Capitalismo. Recolhem alimentos, criam cantinas, rouparias e centros de recolha do cada vez maior número de vítimas deste sistema inglório, e que serve apenas os mesmos, sendo que sempre que surge mais um milionário têm de se construir mais de dez grupos de apoio aos desfavorecidos entretanto emergidos. E por estas alturas natalícias, chega a ser ternurento ver tantas reportagens de ceias de natal, entregas de cabazes e de roupinhas, algumas vezes com direito a concerto de variedades e tudo. Chega a ser comovente ouvir idosos que não fizeram mais nada na vida do que andar a sustentar a máquina capitalista, para agora, no final das suas vidas, aparecerem na televisão com um saco de comida na mão, caridosamente entregue por uma dessas organizações de caridade.

O mundo capitalista goza de perfeita saúde porque tem ao seu serviço um grande exercito de coveiros de cadáveres vivos, os esfomeados, os sem abrigo, os cada vez em maior número desgraçados que não podem ser abatidos ou despejados uma Etar qualquer como qualquer outro desperdício que se deita fora. O mundo capitalista vai comer bem neste natal, vestir bem e até vai contribuir com fundos e outros restos dispensáveis para que se diga que há humanidade nesta sociedade tão reles.

E se um dia os homens e mulheres que sofrem se lembrarem de recusar a sacra esmola e passarem a exigir que lhes paguem o que lhes é devido, aí sim, a revista Time talvez venha a homenagear os pelotões de fuzilamento, os grupos de aniquilação que a máquina capitalista se encarregará de criar, a par com a propaganda, para que se faça o que é preciso fazer para que tudo continue na mesma.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Há 25 anos, acabara eu de abandonar a meio um péssimo filme de Copola, no Cinema Trindade, e, descendo a praça, parei frente ao cartaz dos resultados de futebol dessa tarde, exposto na fachada do edifício do jornal O Comércio do Porto. E tive que me aproximar para ler melhor: Sporting 7 - Benfica 1 . Naquela tarde de domingo, fui logo consolado pelo meu amor que não me largava a mão e repetia um "deixa lá" que se vem repetinto ao logo destes 25 anos de vida em comum e sempre que alguma coisa não me corre de feição.
Hoje, tomando o  pequeno almoço, recordei-lhe aquele momento e ela lembrava-se de tudo e sorriu. Como naquele dia.

sábado, 10 de dezembro de 2011

No novo túnel de St. Ovídio já estão afixadas as placas azuis indicadoras dos principais destinos como Porto, Lisboa e, obviamente, "Carvalhos".  Por outro lado, quem passa os Carvalhos em direcção à ponte do Freixo, ha-de reparar numa placa indicando que "Pedroso" fica bem no interior do Concelho, em direcçao a Sandim e Olival. É justo.


É justo, sim senhor. Principalmente porque tenho memória e lembro-me bem da sanha persecutória que o ainda Presidente da Junta de Freguesia de Pedroso encetou contra a Vila dos Carvalhos. Uma gesta motivada por ambições pessoais, castradas no complexo de inferioridade de um ex-pintor da construção civil chegado à ribalta do poder minúsculo de um simples presidente de junta, ainda para mais levado ao colo desse animal político que comanda o Concelho de Gaia até à data em que terá, por via de lei, de zarpar para outra Câmara Municipal. Uma gesta que ganhou adeptos, norteada por vontades parolas em minimizar a importância geo-social da Vila dos Carvalhos, que aqui neste meu sítio já enumerei, e chegando ao cúmulo de querer banir a palavra Carvalhos das placas indicadoras de direcções a tomar para quem venha do sul ou do norte e cruze as terras do concelho sul de Gaia. Por isso é justo que "Carvalhos" continue a figurar onde sempre figurou e é irónico que a única placa de relevo com a palavra "Pedroso" mostre verdadeiramente aquilo que Pedroso não é, nunca foi nem jamais será: locar de importância geográfica relevante.

 Ainda há dias, estava eu em Chaves com um cliente local e perguntei-lhe se conhecia Carvalhos. Obviamente que sim!, respondia-me ele quase ofendido. E Pedroso? e Sermonde? e Grijó? Que não. Sabia lá o que isso era. Carvalhos sim, claro. Toda a gente sabe onde fica Carvalhos. E para quase toda a gente, depois de Espinho e antes de Gaia só existe um sítio conhecido.

 Carvalhos é um sítio onde se vive bem e onde se podia viver melhor, fosse esta localidade dotada de autonomia autárquica. Resistiu ao Tavares, embora tenha perdido a Repartição de Finanças que servia todas as localidades a sul do Concelho e mais algumas do Concelho vizinho. Ainda assim, não perdeu a sua identidade, num período mau para a sua determinação local, ainda para mais numa época em que urge reduzir autarquias por via da crise financeira. Espero sinceramente que os próximos autarcas eleitos tenham aprendido a lição e não se deixem levar por complexos de inferioridade e saibam, isso sim, reconhecer e dar a justa importância dos Carvalhos enquanto pólo de modernização, progresso e qualidade de vida.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Um poema que eu lia quando jovem:

Sous le pont Mirabeau coule la Seine
Et nos amours
Faut-il qu'il m'en souvienne
La joie venait toujours après la peine
Vienne la nuit sonne l'heure
Les jours s'en vont je demeure
Les mains dans les mains restons face à face
Tandis que sous
Le pont de nos bras passe
Des éternels regards l'onde si lasse
Vienne la nuit sonne l'heure
Les jours s'en vont je demeure
L'amour s'en va comme cette eau courante
L'amour s'en va
Comme la vie est lente
Et comme l'Espérance est violente
Vienne la nuit sonne l'heure
Les jours s'en vont je demeure
Passent les jours et passent les semaines
Ni temps passé
Ni les amours reviennent
Sous le pont Mirabeau coule la Seine
Vienne la nuit sonne l'heure
Les jours s'en vont je demeure

"Le Pont Mirabeau"
Apollinaire, Alcools (1912)

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Ando a emagrecer aos bocados. Não, não estou doente, graças a Deus. Simplesmente ando a emagrecer porque quero emagrecer. Estou cansado de ser um tipo gordo de quarenta e cinco anos. Bem sei que tenho de pagar a factura das "rugas dos magros" que me dão a impressão de começar a ficar com um aspecto mais de quarenta e cinco anos do que de trinta e sete, que era a ideia que eu tinha do meu aspecto. Mas ando a emagrecer e, aí é que ela bate, ando a emagrecer sem ter tido de deixar de comer. Ora pois. Emagreço tranquilamente na companhia dos enchidos, dos queijos e dos tintos e da Heineken (gajo pobre bebe Heineken).
O doutor Seabra mandou-me fazer uma bateria de testes e disse-me que eu tenho um coração de atleta, um fígado de bebé mas ando com o colesterol na casa dos duzentos e noventa! Nada de diabetes, nem triglicerídios, essas merdas.
Receitou-me, o doutor, o ferrari dos medicamentos para redução do colesterol. Nem sei a marca porque nem olhei para a receita. Aliás, tenho alguma inveja daquelas pessoas que sabem os nomes de quase todos os medicamentos. Eu não sei nenhum, se exceptuarmos a aspirina e o actifed. Bom, a receita tenho-a ali pronta a trocar na Farmácia Central mas não ando com muita vontade de mamar sessenta pastilhas, uma por dia. Não sei, não gosto de pastilhas. O que ando a fazer é correr quase todos os dias aí uns cinco mil metros, uma légua. E ando a pesar-me e a ver o peso descer e a ouvir os amigos dizerem "Torres, estás mais magro pá!" e isso sabe-me bem. Mas tenho de tomar as pastilhas, não tenho? Foda-se! Detesto essas merdas.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Um Domingo tranquilo é quando tu acordas cedo, fazes um café e passas uma manteiguinha em duas torradas, enquanto o teu cão fica ali sentado à espera da tua generosidade. Depois, levas o cão lá fora e fazes-lhe as festas habituais no elevador. Voltas a casa e espraias-te num banho demorado e voltas a sair. Num domingo tranquilo, tu começas por ir ao café habitual e encontras os amigos habituais e passas os olhos nos jornais habituais. E falas coisas ligeiras e espaças os diálogos com longas fumaças. Regressas  a casa já depois do meio-dia e almoças tranquilamente do que houver. E assim vem a tarde pasmacenta dos domingos tranquilos onde normalmente adormeces no sofá, no momento seguinte ao da escolha do filme para ver ou do livro para ler. Num domingo tranquilo a noite acaba por chegar, bem por cima de tudo aquilo que não fizeste. As horas correm no meio das notícias e ficas com a sensação de que tudo aquilo passou rápido de mais. 

sábado, 17 de setembro de 2011

Hoje apeteceu-me escrever.

Ontem foi um dia assim-assim e hoje apetece-me escrever. Ontem trabalhei normalmente, hoje também e, no entanto, apetece-me escrever. Ontem fui jogar futebol de sala, à noite, depois entrei em copos e conversei noite dentro. Hoje apetece-me escrever.
 Ontem quis ouvir jazz mas os amigos queriam música dura e eu percebi que  eu posso ouvir jazz sempre que me apetecer mas não tenho de arrastar os outros nesse desejo. E hoje apetece-me escrever. E os dias assim-assim nem sempre dão para ouvir jazz mas dão para muitas coisas. Dão para apetecer escrever mesmo sem ter nada de relevante a dizer. Dão para sentir que dormimos pouco e que, ainda assim, estamos vivos, saudáveis, a envelhecer como quando crescíamos. E se nos der para querer ouvir jazz é porque desejamos, por certo, encontrar respostas singelas a perguntas batidas.Os nossos dias correm com súbita voracidade e nós calamos um pouco. Perenes moços, nós já tivemos tudo e achamos que não temos nada. E perguntamos, ingénuos, ao registo musical que nos inunda os sentidos, por que razão somos tão tolos e incompletos? Por que motivo estamos já mais disponíveis para deslizar em vez de correr? Por que motivo nos colocamos mais atrás nas fotografias, por que razões, obscuras ou não, nos deixamos ficar quietos e quase nem argumentamos quando aquele fulano assume a dianteira?
 Queremos o nosso lugar aqui na terra e sabemos bem da sua preciosidade. Podemos talvez ainda achar que somos imortais mas adoçamos o sentido da vida com menos ousadia. Julgaremos nós que os mais novos tomaram os nossos lugares? Nos cafés, nas ruas, nos pontos-de-encontro.  Pensaremos já que somos um livro quase completo mas não sabemos bem em que página nos estamos a ler? Precisaremos de um marcador de páginas da nossa vida porque às tantas andamos demasiados dias a ler os mesmos capítulos, repetidamente, desconcentrados, e a música sabe-nos sempre diferente, tinge-nos a expressão, calca-nos os cabelos turvos?
E, no entanto, hoje apeteceu-me escrever.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

irritações

Venho aqui a correr para assentar uma espécie de irritação que me consome um bocadinho. Uma irritação que é quase um preconceito meu, ou quase um assomo de arrogância da minha parte, temo eu. Só admissível nos meus pensamentos auto-recriminatórios porque eu posso me dizer que, afinal de contas, eu percorri. Posso afirmar a mim mesmo que passei horas e horas numa biblioteca, que fui ao teatro, fui ao cinema, à ópera e comprei discos e livros e ouvi muita rádio que falava comigo e me trazia saberes que se me enraizavam e me moldaram os critérios. E que ainda hoje procuro fazer disso tudo.
E, justamente, o que me traz aqui neste momento não sou eu mas sim a tal irritação que eu ando a sentir faz algum tempo. Conhecem Pelléas et Mellissante? L' heure espagnol? Ah, eu conheço, sabiam? Ouvi e gostei muito, conheço as histórias e sei quem foram os autores e descobri nelas outra forma de entender o início do Sec. XX. Sei o que é porque cultivei essas coisas. Conhecem o noc noc noc on the heaven's door? Conhecem, claro que conhecem. Eu também conheço porque ouvi um disco de Bob Dylan há mais de 30 anos. Ouvi um disco, notem bem. Conhecem Joe Zawinul? E Brubeck, Conhecem? Pois, eu sei que podem pesquisar no google, eu sei. E ficam a saber, não é? E depois vão às Redes Sociais, não é? E postam vídeos e links de Debussy e Ravel, Drama Lírico e Comédia, não é? E Jazz, muito e bom Jazz. E debatem seriamente sobre esses e tantos outros temas. Por outro lado, deixe-me perguntar-vos se têm discos de jazz em casa. Se conseguem assistir a um concerto de música clássica (os divertimezzos não contam). Pois... E lêem romances para além dos downbrowns e margaridasrebelopintos? E Teatro? Ah, o LaFeria (do mal o menos. enfim - eu sei que está na moda).
E então o que é que me irrita tanto? Não consigo explicar doutro modo, peço desculpa. O que me irrita é pensar que anda muita gente a abarrotar de cultura ejaculada da Internet, fora da realidade vivida, da experiência, do contacto, do sal e da pimenta que só existe entre as folhas de um livro, do chilrear da natureza que só acontece numa sala com música, do pulsar do mundo como só se sente numa viagem, dentro de um museu, numa sala de teatro. Por isso irrito-me com, vamos lá ver se consigo ser educado, irrito-me com esse sub-produto de intelectuais fecundados no google, que têm tudo à mão e, assim, de tudo sabem, de tudo falam quais especialistas doutorados. É difícil lidar com essa gente, sabem?
 E às vezes, confesso, até apetece manda-los à merda, mas é claro que se o fizéssemos acabariamos por perder toda a imensa razão que temos.


quarta-feira, 10 de agosto de 2011

civilizaçãozinha-hipócrita-ocidental

  Estamos todos tão estarrecidos com a onda de violência urbana que infesta o território inglês, um país cheio de "shamless people", uns gajos a quem foi preciso uma portuguesa ensinar a não mijar nas paredes dos palácios. Uns gajos ricos que sempre viveram do trabalho dos outros, dos morenos do sul da Europa e dos pretos e asiáticos oriundos dos continentes do velho Império. E nós estamos tristes, porque andam tipinhos sem emprego a incendiar casas e a roubar lojas de gadjets e as polícias, treinadas para uma nova ordem pós terrorismo,  não sabem o que fazer e surgem então os filhos da escória do imperialismo ocidental, os radicais da raça, do poderio branco sobre todos os outros, a organizar resistências selváticas, como se fossem a penicilina que irá expurgar tão perigosa estirpe.
 E mais abaixo, logo ali, crianças morrem de fome. Não passam fome, morrem de fome. E miseráveis somos nós que estamos escandalizados e aplaudimos os "savethechildren.co.uk", coitadinhas das crianças que têm tão mau aspecto e é urgente salvá-las. Desde que os conhecemos, não fizemos outra coisa que não explorá-los, aos pretos. Entrámos nas casas deles, fodemos as mulheres deles, roubámos o que era deles, até a eles os levámos para nos enriquecer, a nós, os ocidentais prósperos e gordos.  Toda a vida fomos isto, uns Párias, e agora andámos tão estarrecidos com os tumultos em casa dos nossos compinchas, dos nossos empregadores, economistas, cientistas, filósofos, financeiros. E contudo, ali  não muito longe, morre-se de fome. Coitadinhos deles! vamos ajudá-los para que cresçam e os possamos foder de novo. Precisamos deles para continuarmos a garantir o nosso conforto e luxo. Mas esta coisa dos tumultos é uma chatice enorme para o nosso sossego. Não fora isto, eu passava umas férias tranquilas e de consciência limpa, bastando para isso uma transferênciazita de somenos para o Pay Pal. Savethechildren.caralho!

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

impressions

Longo tempo sem editar neste meu caderno de delírios. Hoje porém, volto a ele, porque necessito dele, de quando em vez, e ele está sempre aqui para aturar os meus dizeres.

Voltei ao Distrito de Leiria, por motivos profissionais, onde permaneci durante três dias no coração cultural da região, quanto a mim, que é a Vila da Batalha. Tinha andado por cá em intermitentes estadias nos anos passados de 2006 e 2007, de modo que achei fácil ser dominado pela vontade de peregrinar os velhos poisos, restaurantes e sítios que então conheci. Em cinco anos quase nada muda, se exceptuarmos as obras que acabaram e as que entretanto começaram. Novas vias a rasgar o distrito desenham uma nova paisagem na serra. A ligação por auto-estrada desde a Nazaré até Tomar é bem-vinda e, no mais, as pequenas vilas continuam lindas e estão mais asseadas. Batalha, Porto de Mós, Alcobaça e as praias. A praia das Paredes é um nicho de sossego e beleza ímpar. É mar e pinhal e sossego. As pessoas continuam as mesmas. O sotaque cantante como só os leirienses sabem cantar. O "cuméqueé" deliciosamente sorridente, o "AtãoVá" amistoso e perene, enfim, um tipo de povo desabrochado nas pedras da serra e florido na dureza dos olivais que evolui para o mar como robalos dançantes.

Experimentei, contudo, uma nova tristeza. O desconsolo quase reles que senti ao descobrir que aqueles restaurantes e tascas que conheci outrora estão decepcionantemente diferentes. Mudados, de gerências e tudo. Não achei, pois, aquelas frondosas saladas mistas, as lentriscas e as morcelas. Ou melhor, não achei as de outrora e senti pela primeira vez o tratamento que se faz aos turistas. Falso, cínico e interesseiro.

Em cinco anos quase nada muda e se calhar isto que vos disse não é bem assim. Talvez eu tenha mudado, envelhecido de forma cruel e tenha tido a ousadia de pôr de lado o meu "gravitas" próprio de quem amadurece em pomar distante deste. Talvez eu esteja a perder os sabores e a paciência. Talvez.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Manifesto

A entrevista de Jerónimo de Sousa à Sic teve, entre outros, este mérito: apontou o meu caminho como cidadão e comunista.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Não é fácil, de todo, bradar armas contra a Europa após 25 anos de casamento. Os mais novos não sabem o que era este país em 1986, por isso facilmente encaram esta hora de pagar a factura como uma afronta, uma ofensa imperdoável dos endinheirados europeus. Nao é fácil explicar-lhes que foram os pais deles que esbanjaram todo o dinheiro em seus caprichos, suas fortunas, seus compadrios e suas ambicões pessoais.
Somos um povo, como disse um dia um romano famoso, que nem se governa, nem se deixa governar. Por isso, nestes dias em que todo o mundo percebeu que jamais nos governámos, não é difícil aceitar que também não queremos que nos governem. Isso é que era bom, não era? Era, mas não pode ser.
Temos, porém, a obrigação de saber honrar o nosso destino que é, antes de mais, sobreviver, que outra coisa não fizemos desde Egas Moniz. Temos de saber traçar o nosso fado sem andarmos sempre a lamentar não termos ido ao casamento dos Reis Católicos, e sem insistirmos na teimosia enganadora de que já fomos grandes. Enganados fomos sempre e, o pior, enganados pelos nossos, por aqueles que nos comandaram, voluntaria ou involuntariamente, por voto ou imposição, e que não mais fizeram do que praticar o chico-espertismo, o favor com favor se paga. Por isso somos uma miséria de povo que nunca aprende e insiste que é gente brava e esquece que não é gente séria. É dificil explicar aos mais novos que estamos fodidos. Não por causa das definiçoes mais prosaicas que nos sao atiradas pela classe pensante. Estamos fodidos porque somos fodidos. Não há volta a dar, por mais que se agitem bandeiras de mudança, pregões de esperança e melodias de bonança.
O português, como espécie humana é um ser encantador. Como gente é uma fraude. Um erro histórico.
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