Parabéns, Carlos. Chegámos à idade da cachaça, dos sabores fortes e intensos. E como as melhores aguardentes, saberemos inspirar força e adstringência necessárias ao andamento perene das nossas vidas. Somos lima-limão suficientemente fresca e suave para poder olhar o que lá vem ao longe. Porque uma boa aguardente tem de saber chegar a velha, tem de saber guardar o tempo que passa e ganhar o tempo que vem. Um abraço.
sábado, 25 de fevereiro de 2017
Parabéns, Carlos. Chegámos à idade da cachaça, dos sabores fortes e intensos. E como as melhores aguardentes, saberemos inspirar força e adstringência necessárias ao andamento perene das nossas vidas. Somos lima-limão suficientemente fresca e suave para poder olhar o que lá vem ao longe. Porque uma boa aguardente tem de saber chegar a velha, tem de saber guardar o tempo que passa e ganhar o tempo que vem. Um abraço.
segunda-feira, 26 de dezembro de 2016
“Don´t think twice, it´s all right”
Olá Carlos, esse Natal? Espero que tenhas tido
um bom Natal. O meu correu dentro da normalidade, correu bem, embora tenha
vivido um bocado de nostalgia de quando não tinha o Natal a correr dentro da normalidade,
de quando passava essa noite a ouvir Pink Floyd e a tentar perceber a ordem das
coisas. Ou a desordem.
Neste Natal, Carlos, recebi um disco de Bob
Dylan, prenda da Catarina. “The Essential Bob Dylan”. E lembrei-me mais uma
vez de ti, amigo, dos teus discos de vinil, das nossas conversas perdidas no
tempo. Num tempo em que éramos apanhados pelos momentos do agora e sempre. A
vida era aquele momento especial e, olha, continua a ser, se calhar. O “agora”
é uma coisa constante, perdura. Que confusão, amigo. São duas da manhã e eu
estou a ouvir Dylan e lembrei-me de ti. Feliz Natal, Carlos.
terça-feira, 15 de novembro de 2016
Bob Dylan - 100 Essential Recordings (AudioSonic Music) [Full Album]
Ao meu amigo Carlos Manuel Gonçalves Reis. Onde quer que estejas, mereces mais do que todos este Nobel Prize ao grande poeta das canções de todas as lutas, todas as filosofias, todos os romances e tragédias. Um abraço.
"Maybe your friends think I'm just a stranger
My face you'll never see no more
But there is one promise that is given
I'll meet you on God's golden shore"
"Maybe your friends think I'm just a stranger
My face you'll never see no more
But there is one promise that is given
I'll meet you on God's golden shore"
sexta-feira, 14 de outubro de 2016
terça-feira, 27 de setembro de 2016
O senhor vá caminhando e quando passar aquela igreja
vira na primeira à esquerda e ande mais uns cem metros que aparece logo uma loja. A esta hora pode ser que
ainda esteja aberta.
E lá fui eu andando, até que passei pela igreja e a
rua estreita lá estava, quietinha, à minha espera. Caminhei mais uns cem metros e, por fim, avistei o senhor Veiga, que se aprestava a sair da loja, segurando
na mão um jarro transparente cheio de vinho branco a embaciar o vidro. Vai
fechar? Não, faça o favor de entrar. Pedi que me aviasse uma garrafa de água e
uma coca-cola para me abastecer do açúcar que a Labruja me ia exigir. O senhor
Veiga, depois de me dar o troco, percebeu o ar de espanto que ainda sobrava na
minha cara. Sabe, tenho um compromisso com uma senhora de noventa anos que
vive sozinha em casa. Todos os dias por esta hora levo-lhe um jarro de vinho e fico
lá um bocadito a conversar com ela e a comer qualquer coisa.
quinta-feira, 22 de setembro de 2016
Tinha saído de casa
relativamente cedo, por volta das oito horas da manhã, no primeiro sábado de
setembro, carregado com uma mochila às costas que pesava para aí uns bons dez kg,
e de modos que me deitei ao caminho e só deixaria de andar quando me achasse em
plena Plaza do Obradoiro, em Santiago de Compostela. Ia visitar o Apóstolo
Tiago Zebedeu. E assim foi.
De tal modo foi que cheguei
a Compostela no segundo sábado do mês de setembro. Não fiz diário, não me
preocupei com dicas ou segredos. Não levei mapa, apenas segui as setinhas. E
fui andando desde a porta da minha casa, passando por umas alminhas ali para as
bandas de Perosinho, já em pleno “caminho de Santiago”.
Nesse primeiro dia
andei muito. Caminhei mais de quarenta quilómetros até ao Mosteiro de Vairão, em Vila do
Conde, onde pernoitei. E assim fiz várias etapas do “caminho”. Caminhei,
descansei, pernoitei e voltei ao caminho, às pausas, aos episódios esquisitos,
às capelas, às catedrais, aos miradouros, ao asfalto e aos caminhos, às serras,
aos campos, aos montes e aos aceiros. Um caminho perfeito, espiritual,
desafiante, abrasivo e relaxante, uma mistura de todos os ingredientes, aqueles
que sabeis e aqueles que pensais vir um dia conhecer. Destes, eu não falarei muito,
porque vos digo: ide fazer o “caminho” e assim descobrireis o sal que vos
falta.
Bom, mas no “caminho”,
o caminho de cada um que o faz, acontecem coisas estranhas, mágicas ou sei lá
quê, e disso eu vos dou garantia porque fiz o “caminho” e sou, portanto,
testemunha viva de que “há coisas”. E dessas “coisas de que há”, que acontecem,
que nos afrontam e nos confrontam e que nos colocam perante um outro sentido da
vida eu vou contar-vos uma.
Estava eu acabadinho
de chegar a Barcelos, portanto findava a segunda jornada de caminhada que
compreendia já uns bons setenta quilómetros, entro no Albergue dos Peregrinos de Barcelos e
após fazer o registo de peregrino e ter sido encaminhado para o meu sítio onde ia pernoitar,
fui confrontado com o meu pé direito. O meu pé direito já não parecia um pé. Parecia
uma abóbora de tão inchado que estava. Bolhas enormes rebentadas por debaixo do
pé, um latejar a ameaçar infecção, um espectáculo para os outros peregrinos,
sempre solidários, tão solidários meu Deus, “então isso está mau?” perguntavam-me
em inglês. E eu respondia, desanimado, num pobre inglês triste e arruinado “estou
bem, vamos ver como vai ser amanhã”
O amanhã era dali a
umas horas, que os peregrinos parecem abelhas, logo pelas primeiras horas da
madrugada a arrumar as coisas, lanterninhas acesas para não incomodar quem
ainda dormia, ou seja eu, o lesionado, o derrotado pelas bolhas de água, o
pobre português que se calhar leva uma vidinha a andar de carro para todo o
lado e, está claro, tem uns pezinhos de vidro que não aguentam dois dias a
caminhar, e é deixa-lo dormir descansado que quando acordar vai direito ao
hospital. Entretanto eu acordo, desvairado, com o pé numa autêntica via-sacra.
Não sabia o que fazer. Os outros peregrinos iam saindo e passavam por mim e
tentavam dar-me coragem e eu sem reacção, perdido, derrotado. O meu pobre pé
desfalecia.
De súbito resolvi
agir. Vesti-me, fui à cozinha e tirei de lá uma garrafa de água e bebi dois ou três
goles. Tentei enfiar as botas mas sem sucesso. O meu pé direito quase
rebentava. Resolvi então enfiar as minhas velhinhas asic que já tinham feito
mais de mil km comigo a correr. O pé não recusou, embora resmungasse. Os
peregrinos saiam e saudavam-me quase em modo de despedida. E eu ali já vestido
e calçado e a porta do albergue aberta e lá fora a estrada e a escuridão.
Eram para aí umas seis
da manhã eu aventurei-me a sair, ainda sem saber bem para onde ir. Mas eu
queria ir para o “caminho”, raios me partissem. E mal saí e vi aquela seta amarela
a apontar o caminho, o andar cambaleante, muito lento, o céu a clarear, deu-me
para me dizer “Olha, meu, se não andares depressa andas devagar. Vamos indo e
vamos vendo, se isto piorar sempre podes parar”. E depois, Cristo também podia
desistir e não desistiu. Podia dizer “Pai, estou cansado, dói-me o corpo, vamos
parar com isto” e de certezinha absoluta que Deus mandava que todo aquele
sofrimento de Jesus a caminho do Calvário terminasse ali mesmo, tal como eu podia
terminar ali ou em qualquer momento deste meu calvário o meu sofrimento. De
modos que fui caminhando por de entre os primeiros milheirais que surgiam à
medida que ia deixando Barcelos e, tal como Jesus Cristo, estava decidido a ir
até ao fim.
E assim andei durante
dez penosos quilómetros, sem deixar de me sentir bem naquele sofrimento, de
apreciar as paisagens, de me sentar no primeiro café aberto que encontrei e
saborear uma deliciosa meia de leite e comer uma boa sanduíche de queijo e
fiambre. “Vou preparar-lhe aqui uma bela sandes de queijo e fiambre muito
saborosa para a sua caminhada” disse o rapaz que me atendeu e eu recordo isto
porque foi verdade e porque foi importante. Foi muito reconfortante,
encorajador mesmo, ouvir esta conversa de cortesia. E depois não deixei de me deter
perante a majestosa igreja de Abade de Neiva “Até ao monumento vai ser sempre a
subir” e tirei uma fotografia que publiquei no Facebook “Bom dia”.
E assim caminhei
durante dez penosos quilómetros até Tamel, S. Pedro de Fins. Andava eu neste
arrastão pio, a ser ultrapassado por tudo o que era peregrino, até por um casal
de portugueses com o Miguel ao colo, catorze meses de idade e já a fazer os Caminhos
de Santiago e eu que tive de esperar cinquenta anos. E eu lá ia metendo
conversa e as pessoas passavam e eu caminhava agarrado ao meu cajado, ao meu
amiguinho fiel que me segurava e me marcava o passo, até que numa recta de
estrada asfaltada, ladeada por umas moradias de construção recente, cujos
passeios generosos se estendiam pela beira da estrada, eu vislumbro dois homens
sentados. Dois peregrinos que me olhavam, apreciando aquele pobre desgraçado
que caminhava cambaleante. “Você está bem?” perguntou-me um deles em português
com sotaque brasileiro. “Eu estou fodido!”, foi tal e qual a minha resposta, de
tão aliviado que fiquei por poder falar português. É que por incrível que vos
possa parecer, este Caminho Português de Santiago está carregadinho de
estrangeiros, de modo que tirando o casal português com o bebé, eu só falava inglês
para tudo o que era peregrino.
“Eu estou fodido”, disse eu, e repito, só o
facto de eu ter dito aquilo foi já um grande alívio, e mais alívio foi quando o
tipo me diz “Senta aqui que eu faço um curativo pra você”. Com tal proposta eu não tinha mesmo
nada a perder, como podem imaginar, nem tinha pressa sequer, afinal tinha saído
muito cedo do albergue e naquele tramo estavam a passar os peregrinos que
acordaram mais tarde. Sentei-me naquele passeio à sombra, tirei o chapéu, tirei
a mochila das costas e respirei aliviado. O cara perguntou de onde eu era e eu
também. “Sou de Belém do Pará, Amazónia”. Meu Deus, pensei eu, nem sequer são
de São Paulo ou do Rio, são do Brasil profundo, da selva. “Viemos fazer o
caminho e começámos no Porto mas ficamos em hotéis porque compensa mais.
Queremos chegar e descansar e não estar levando com todas as implicações dos
albergues”. Bem pensado, disse eu.
"Muito prazer, eu me
chamo Solano. Tenho aqui um óleo muito bom que se usa lá na amazónia. É de uma
árvore que se chama copaíba, cê conhece?" Não. "É um cicatrizante muto bom, com
muitas propriedades curativas".
Bem, amigos, perante isto, perante esta
revelação, esta experiência em Tamel, S. Pedro de Fins, eu ali prestes a
conhecer um processo terapêutico trazido da terra dos índios, da amazónia,
fiquei siderado, parvo, maluco, não queria acreditar. Solano, porém, fez o que
tinha a fazer. Diligentemente limpou o meu pé, e passou aquele óleo uma e duas
vezes. Mais uma. E fez-me um penso com um adesivo. E eu comecei logo ali
naquele instante a sentir um bem-estar tão bom, tão bom, tão bom e comecei a
pensar como é que isto é possível? Como é que tinha de me aparecer um peregrino
da Amazónia com óleo de copaíba? Porque é que não estava ali um paramédico do
INEM a peregrinar e carregado de anti inflamatórios e cicatrizantes das nossas farmácias?
Tinha de ser coisa do Apóstolo, senhores. Só podia ser. De modos que, em me vendo
a sentir muito melhor, Solano resolveu achar que era hora de ir andando. Eu
fiquei mais um pouco. Antes porém, perguntei: É católico? Sou, pois! Solano viu
bem o estado em que eu fiquei com aquela resposta, Percebeu bem a comoção que
se apoderou de mim. E resolveu ir para o caminho.
Uns quilómetros à
frente eu ainda o vi sentado numa sombra à espera que um tal restaurante
abrisse. Acenámos um ao outro e eu bem vi a alegria dele ao perceber que o meu
caminhar já era outro, mas eu resolvi seguir o meu caminho porque no caminho é
assim, há que seguir o nosso próprio caminho. De maneiras que nunca mais o vi.
Fiz todas as etapas do caminho graças àquele índio “Não tire o penso, deixe ele
ficar até sair por si” e quando cheguei a Compostela ainda o procurei no meio
da multidão.
“Havemos de chegar a Santiago”.
Eu cheguei, amigo Solano. Espero que tu também.
PS: E espero que um
dia tu possas ler isto porque isto vai ficar aqui à espera que um dia tu me
encontres novamente e eu a ti e eu quero que tu saibas que foi graças a ti que
eu pude cumprir o meu desejo de fazer o Caminho de Santiago quando fizesse
cinquenta anos. Um abraço, Solano.
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| igreja de abade de neiva |
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| vós que ides passando lembrai-vos dos que estão penando |
domingo, 7 de agosto de 2016
Estou muito orgulhoso de ti, meu rapaz. Correste Portugal de lés a lés, à boleia como deve ser, porque a vida é uma boleia, com o teu amiguinho, um amigo daqueles para a vida e que são tão poucos, muito poucos, digo eu que também tenho os meus. Foste levado por médicos, padres, camionistas e miúdas giras. Foste alimentado por religiosas, paraste em tascas, vendas e mercados. E viste a nossa aldeia, o nosso país lindo e diverso. Palmilhaste terriolas, deslumbrando-te umas vezes, desiludindo-te outras, bem sei.
E chegaste a Sagres, o sítio mais tocante do nosso sonho. E olhaste bem lá longe, que longo é o teu caminho, meu rapaz. E eu repito “Oxalá os teus sonhos sejam sempre inspirados por tão deslumbrante paisagem”.
Tenho muito orgulho em ti.
domingo, 31 de julho de 2016
Vou agora, se me permitem, discorrer sobre um assunto que já me esta a meter nojo: a mania que os meus conterrâneos têm de andar numa de “ai vêm aí os emigrantes, que horror!” ou “credo, é só “avecs” por todo o lado, não os suporto!”
Os emigrantes, meus amigos, bem os emigrantes, para começar, deviam ter uma estátua em cada aldeia portuguesa. Durante este mês de Agosto não há feirante ou lojista que não esteja grato aos “avecs”. Porque eles, os “emigras”, eles compram tudo, eles enchem os restaurantes, eles ocupam as lojas que não vendem quase nada durante o ano e limpam-lhes o stock, as coisas que nós desdenhamos mas eles adoram. Eles mandam construir casas, grandes casas, enquanto nós, coitados, somos enfiados em apartamentos exíguos, eles até piscinas fazem, grandes garagens, três carros - e pagam a tempo e horas!- e isso é o quê? É economia a andar cá em Portugal graças ao dinheiro deles. E já nem falo das remessas que eles andam a mandar para cá há cinquenta anos. Por isso, meus amigos, respeito, muito respeito pelos emigrantes. Sorriam para eles, agradeçam eles virem cá porque muitos deles são já da terceira geração e quase nem sabem falar a nossa língua. Mas adoram Portugal.
Ainda recentemente isso ficou provado. Sim, porque um filho de emigrante português, nascido e criado em França, a trabalhar em França, a falar francês seria muito natural que jurasse amor ao SEU país, a França. Mas não, o raio dos moços adoram Portugal, amam Portugal e apostaram e apoiaram a “Seleçom” como só eles sabem fazer. Tiveram de levar com o mau perder dos franceses e aguentaram, não renunciaram à pátria amada, porque essa é só uma. E agora, chegam a Portugal, à grande e amada pátria e levam com a cara de nojo dos seus compatriotas, a raiva latente nas redes sociais, o ciúme, o preconceito. Se fosse possível eu queimava todas as “memes” que me aparecem a desdenhar os nossos compatriotas emigrantes por esse mundo fora e que fazem o favor de nos vir visitar. E entristece-me muito, aliás, ver muito boa gente que se arma a defender tudo o que é minoria e bla bla bla e depois vem para as redes sociais armar em “português de primeira estorvado pelos emigrantes” coitados, como se isto, esta parvónia fosse um direito só deles.
Por isso respeito, caro amigo, muito respeito pelos emigrantes. Obrigado.
sábado, 30 de julho de 2016
quinta-feira, 28 de julho de 2016
terça-feira, 19 de julho de 2016
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