quinta-feira, 6 de agosto de 2026

 Um review que deixei no Google Maps e que penso ter pernas para andar para ponto de partida para um ensaio qualquer sobre o perda da portugalidade (não sou chegano, não senhor, nem essas cenas)

Isto tem de ser escrito de pancada, ainda com todo o prazer gustativo no corpo e na alma. Não interessa a decoração, não interessa se podia estar mais moderno, não interessa nada disso. O que interessa é que este espaço ainda existe, ainda faz o favor de estar cá para um indivíduo como eu, que vem de trabalhar toda a manhã por terras saloias e, de repente tem fome e pára neste tasco. E tem a felicidade de o terem prendado com umas azeitonas irreversíveis, um pão imaculado, um vinho baconiano, e um bife... Aí meu Deus, nem sei o que vos dizer. Um simples bife, vulgar de lineu, na frigideira, carregadinho de alho, molhadinho, saboroso, tenrinho, mas o sabor presente, a textura, a simplicidade subliminar. E umas batatinhas fritas divinais...Não há palavras para isto, para esta portugalidade. Abaixo os outros, os fast foods e quem lhes sucedeu com propostas mal amanhadas de comida pretensamente portuguesa. A comida portuguesa está em casas como esta. Obrigado.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

 Luís Represas deixou-nos. Uma referência que tanto deu à música popular portuguesa. Uma voz cristalina, única, uma pessoa brilhante. Fui vê-lo este ano no Porto a liderar a melhor banda de sempre no que à música portuguesa diz respeito, e onde revisitei com a São aquele concerto no Coliseu que tínhamos ido ver nos anos 80. Já tinha sido assim com Fausto, o outro monstro da MPP que nos deixou meses depois de o termos ido ver à Casa da Música. As minhas grandes referências estão a partir, mas esta partiu cedo de mais. O grande trovador morreu mas a sua voz será eterna. 


sábado, 25 de abril de 2026

❤ #40

"You turn me on
You lift me up
Like the sweetest cup I'd share with you
You lift me up
Don't you ever stop, I'm here with you
Now it's all or nothing
'Cause you say you'll follow through
You follow me, and i, i, I follow you"
Simple Minds - Alive and Kicking

quarta-feira, 1 de abril de 2026

 

Hoje o meu sogro faria oitenta e seis anos. Tenho muitas histórias para contar sobre o meu sogro. E ele também me contava muitas histórias da vida dele, sobretudo da Guiné. Falava muito comigo, principalmente às tardinhas, à volta de um copo. E se eu estivesse três dias sem aparecer, ele virava-se para a filha – O Sôr Altino? Que é feito dele? E complementava aquela pergunta com uma suposição qualquer que lhe viesse à cabeça.

O meu sogro era um homem bonito e quando o conheci gostei logo dele, sempre bem vestido e com aqueles óculos que o faziam mais parisiense do que o próprio Jean Paul Sartre.

Do meu sogro dos passeios com a netinha – Ó vu, já chega de serras!, do meu sogro das patuscadas, da serenidade a comer (gostava de comer, mas não era guloso. Servia-se do seu bocado e ficava ali a saborear calmamente com um ar feliz, sobretudo quando na mesa estava toda a sua prole), do meu amigo sogro falarei um dia, sem dúvida.

Hoje, porém, tenho vontade de recordar os encontros com o irmão, o tio Eusébio, quando este o visitava nas tardes de sábado. Que festa aquilo era! Muitas vezes tive eu o privilégio de vê-los ali aos dois a falar sobre tudo o que lhes vinha à cabeça, histórias da mocidade, dos pais, dos irmãos, disto e daquilo, enquanto por sua vez as cunhadas, do outro lado da mesa, falavam de coisas de cunhadas. E depois, para celebrarem aqueles momentos, o meu sogro ia buscar uma gaita de boca pequeníssima e dava-se início ao “Duo Lamonte”, como eles gostavam de dizer. Um recital de bem cantar modas de sempre, muitas vezes interrompidas por um copo ou por uma graça ou por qualquer outra coisa menos tristezas.

Muitas saudades tuas, meu sogro.

domingo, 29 de março de 2026

quinta-feira, 19 de março de 2026

 


Hoje, eu sinto-me assim...

É preciso estar sempre embriagado. Isso é tudo: é a única questão. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que lhe quebra os ombros e o curva para o chão, é preciso embriagar-se sem perdão.

Mas de que? De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser. Mas embriague-se.
E se às vezes, nos degraus de um palácio, na grama verde de um fosso, na solidão triste do seu quarto, você acorda, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, pergunte ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunte que horas são e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio lhe responderão: “É hora de embriagar-se!
Para não ser o escravo mártir do Tempo, embriague-se; embriague-se sem parar! De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser”.
Charles Baudelaire

quinta-feira, 5 de março de 2026

Um belo dia numa aula de Psicologia do 10º ano, a professora de pose moderna e discurso atraente virou-se para a turma e anunciou:

 – Os Cus de Judas, têm de ler. 

 Achei aquele título fascinante, de tal modo que não mais me esqueci daquela cena. Já a professora, essa, rapidamente viria a decepcionar o, à época, adolescente irascível (agora apenas irascível), de modos que não demorei muito a abluir dela as minhas mãos.
 Já com o magnífico escritor, foi amor à primeira vista. Li muito dele e ainda tenho muito para ler. Da obra tão grandiosa, destaco as crónicas dominicais que ele escrevia no jornal Público e que eu lia religiosamente após o almoço em casa dos avós. Crónicas maravilhosas que, de resto, estão publicadas em livros. 

 - Lobo Antunes, têm de ler! 

 DEP, Senhor António Lobo Antunes.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

"Se queres compreender a palavra 'felicidade', indispensável se torna entendê-la como recompensa e não como fim."

Antoine de Saint-Exupéry




sábado, 31 de janeiro de 2026

 

Faz hoje três anos que sou avô de uma menina maravilhosa. A Margarida está de parabéns, pois está. E nós, os avós, também. Ser avô é uma dádiva maravilhosa de Deus. E esta dádiva vem num momento especial da nossa viagem por este mundo. Nessa bênção nós vemos a nossa odisseia prolongar-se no tempo infinito, e eu sinto-me como aquela borboleta que atravessa o continente americano de cima a baixo, numa viagem que é feita por várias gerações de borboletas. Ela sabe que prossegue uma pequena etapa de uma grande viagem que foi precedida por outras borboletas e que vai ser continuada por outras, nunca acabando. Ela e eu sabemos o nosso papel neste ciclo perpétuo de vida.

Hoje é mais um dia bonito, dia de festejar uma data muito linda e sorrir para a vida, continuando a abraçá-la, muito mais cheio de vontade de vivê-la.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

 Este ano que passou foi um ano bom e isso foi bom.


Fomos a Paris ver o nosso filho, revisitar a cidade das cidades, comer raclette e ostras, beber vinho e descobrir Saint Germain de Prés. Andámos por ali no inverno e havemos de lá ir em junho só para ver as folhas das árvores. Dos Champs Élyéees e da Place des Vosges, principalmente.

Fomos a Granada de férias e descobrimos Almuñecar e apaixonamo-nos por aquilo tudo, e vamos voltar lá este ano, pronto.

Também houve perda. Da mãe. Abruptamente.



Muito trabalho houve às carradas. Mas soube bem trabalhar. Muito!

E a Margarida a crescer tanto e tão bem e nós a ver, a amar tanto!



Há quarenta anos andava eu a pensar o que ia ser de mim, sem jeito para nada, sem pouso, sem leito, sem papel fundamental, secundário que fosse. Andava pensativo a imaginar que nunca ia conseguir ter um emprego, que nunca ia conseguir ter uma mulher, um filho, um neto.
Em resumo, andava enganado e só o tempo flamejante e hipersónico me fez ver que todos os medos que tivemos eram sempre o prenúncio das grandes obras que faríamos.

Se fiz obra? Penso que sim, os meus filhos que são complemento de mim, que são mesmo braço dos meus braços, ramos do meu ser, pavios que iluminam os meus medos, tornando-os sempre mais suaves, sorrisos quando choro, acenos quando hesito - vai, Pai!

Fiz obra, sim. Fizemos. 💕

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

 A minha avó contava-me histórias e uma delas falava de uma mãe que tinha um bebé no berço e um gato. A mulher saiu para ir à "venda" e quando chegou viu ao pé do berço uma mancha de sangue e o gato. Automaticamente a senhora desferiu um golpe mortal no bicho porque pensou que ele tinha atacado o bebé. Quando se abeirou do berço viu o bebé dormindo sossegado e uma cobra morta ao pé dele...

Ora serve isto para tentarmos perceber como é que nós fazemos juízos de valor fáceis e tantas vezes sem fundamento. Serve para dizer que a propósito de um alegado atropelamento de uma senhora na Rua do Padrão por um autocarro da UNIR foram também feitos muitos e errados juízos de valor. Que o motorista atropelou uma mulher que estava no passeio, que é estrangeiro e está ilegal. Que fugiu e ninguém sabe dele. Mais isto e mais aquilo...
Mas, ora bolas, parece que afinal a senhora estava na faixa de rodagem e aprestava-se a atravessar a rua com uma passadeira ao lado, afinal naquele passeio existem umas bolas (há quem lhes chame os ditos de Hércules) e o autocarro não podia passar para o passeio sem pelo menos derrubar uma delas, afinal o motorista acudiu à vítima, embora confuso terá ido á vida dele, pois estava lá muita gente para prestar ajuda à senhora e ele nao se sentia culpado e tinha um horário a cumprir e estava a empatar o trânsito. Afinal a história não era bem o gato a atacar a criança, não era o estrangeiro ilegal, o tratante! Éramos só nós a julgar sem saber...
Posto isto, enxerguem-se, por favor.

sábado, 11 de outubro de 2025

 Hoje apetece-me partilhar um excerto de poesia de Miguel Torga que é, para mim, o maior escritor português de sempre. Leiam-no bem e apreciem a atualidade que ele tem.

Não que a mulher de hoje seja "do campo" apenas, mas sim e essencialmente porque ela é agora uma mulher do campo onde há betão e asfalto e buzinas e escritórios e fábricas. Não que a mulher de hoje seja "rude e silenciosa".
Mas é "cheia de horizontes largos", cada vez mais, e continua "de ferro", continua a não se vergar e cada vez mais se levanta e é "lume que aquece"...
"Mulher do campo, rude e silenciosa,
Com os olhos cheios de horizontes largos,
E as mãos gretadas como a própria terra,
És tu que fazes a seara e o pão,
E dás ao homem a força e a ternura
Que sustentam o mundo.
Terra dura, mulheres de ferro,
Que o vento não dobra nem a fome verga.
Nos vossos olhos há o frio da serra
E o lume que aquece o lar.
Maria, mulher da aldeia,
A tua vida é um rosário de sol e lama.
Lavas, rezas, lavras, calas
E no fim ainda dás graças."
Miguel Torga

sábado, 13 de setembro de 2025



Mãe:

Que desgraça na vida aconteceu,

Que ficaste insensível e gelada?

Que todo o teu perfil se endureceu

Numa linha severa e desenhada?


Como as estátuas, que são gente nossa

Cansada de palavras e ternura,

Assim tu me pareces no teu leito.

Presença cinzelada em pedra dura,

Que não tem coração dentro do peito.


Chamo aos gritos por ti — não me respondes.

Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.

Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes

Por detrás do terror deste vazio.


Mãe:

Abre os olhos ao menos, diz que sim!

Diz que me vês ainda, que me queres .

Que és a eterna mulher entre as mulheres.

Que nem a morte te afastou de mim!


Miguel Torga, Diário IV

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