quinta-feira, 11 de março de 2021

 Esta coisa dos cabeleireiros continuarem fechados, enfim, nem comento. Mas queixo-me. Sim, porque queixar é diferente de comentar.

Queixo-me porque cumpro. Porque não cortei o meu cabelo, porque não fui a um barbeiro nem recebi nenhum em casa. Queixo-me porque não consigo aceitar que os barbeiros e cabeleireiros continuem encerrados, ora missas!
Queixo-me porque não entendo como é possível eu ser um dos raros exemplos vivos de uma pessoa que está a sofrer as consequências dessa medida catastrófica. Eu e os profissionais do sector, evidentemente.
Mas queixo-me sobretudo, porque todos os dias vejo os ministros e deputados, e o Presidente da República, sempre com ar de pessoa muito bem tosquiada. De aspeto irrepreensível, barbeados com rigor, cortes à inglesa, à escovinha, e até mesmo os "negligés" aparecem com ar de bem aparados, os futebolistas, então, é cada jogo cada corte diferente.
Pois então eu não percebo como é que eu fui perder o comboio dos que, mesmo sem haver cabeleireiros abertos, nos surgem à frente como se em cada esquina houvesse uma barbearia a laborar. Não percebo! Sinceramente não percebo como é que isso é possível, como é que isso está a acontecer bem por debaixo das minhas barbas!
Bem sei que há sempre um elemento prestável nas famílias. O cunhado que tem uma bimby de cortar cabelo, a esposa dedicada que se presta a cortar uns rancos, umas repas, uma prima que tirou um curso profissional de cabeleireira e, às duas por três, dá uns toques na arte da tesoura...
Cos diabos, eu que até tenho amigos no sector, eu devo andar a dormir na forma, de certeza. Toda a gente aperaltada, de cara lavada, com ar de metrosexual e eu com este aspeto javardola, de louco cinquentão. Não entendo. Sinceramente!
A sério. Não percebo bem este fenómeno, ou se calhar percebo. Deve ser igual a tantos outros fenómenos, sempre que impliquem o nacional desenrascanço. Não há cabeleireiros abertos mas toda a gente parece ter o seu cabeleireiro clandestino ali bem à mão de semear.
Fenómeno idêntico a este só me lembro quando houve uma grande crise de bacalhau, era eu um miúdo. Mas toda a gente tinha bacalhau! Essa é que era essa!
Ele aparecia, o fiel amigo... e o barbeiro também. O Barbeiro é como o bacalhau, fiel amigo que nunca nos abandona! Vivam as barbeiras e os barbeiros!

domingo, 7 de março de 2021

 Auriol Dongmo e Pedro Pablo Pichardo, dois atletas portugueses não nascidos em Portugal e não descendentes de portugueses, levaram o nome de Portugal ao mais alto galarim do desporto europeu. Ambos de cor negra, como tantos outros que escolheram Portugal como a sua nova Pátria. Uma Pátria que vota em partidos que bradam aos ventos "Estrangeiros, pretos, ide para a vossa terra"! Uma Pátria que, apesar destes energúmenos políticos e dos milhares de acéfalos que votam neles, só tem é de estar agradecida a estes dois cidadãos e a tantos outros que, dia após dia, procuram uma vida melhor e, graças a esse seu labor, tornam o nosso país uma nação maior.

Pela minha parte e no que me toca dizer, é simples: Obrigado, meus caros concidadãos.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali..."

Cântico Negro - José Régio

Está consumado o maior "Quebra Espinha" do Futebol Português. A saber, de um momento para o outro, tudo se inverteu, tudo, e não foi só no universo benfiquista. 

Um Presidente que despediu e destratou um treinador, um treinador que disse e fez cobras e lagartos contra o Benfica, um público benfiquista que destilou ódio contra o técnico, adeptos anti Benfica passaram a venerar o treinador, o seu futebol maravilhoso, (todo o país viu e torceu pelo Flamengo de JJ, um português a impor-se no Brasil), etc. 

E de repente, de um momento para o outro, tudo ao contrário. O Presidente a dar tudo para ir buscar o treinador, o treinador a mandar aos papéis um contrato no Brasil para regressar ao clube que tão mal disse dele, os adeptos a engolir tudo o que disseram e pensaram sobre o treinador. Os adversários a puxar pelos argumentos esquecidos como, "vaidoso de sempre" "egocêntrico empedernido", "rei da bazófia" "atentado à língua de Camões", etc.

Todos a quebrar a Espinha! Um fartote.


Não me peçam para estar contente com isto, porque não estou. Mas neste Benfica de Vieira nada me surpreende. 

É que eu tenho um "problema" que norteia toda a minha vida: eu comecei a ler José Régio ainda era um menino e aprendi que a Espinha não é para se quebrar.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

O Benfica perdeu este campeonato. Foi azar!
Eu podia dizer que perdeu para o pior Porto dos últimos 30 anos, mas não digo. Podia dizer que o perdeu para um clube intervencionado pela UEFA, que começou a época com cenas de pancadaria entre o treinador e o capitão, mas não digo. 
Tenho de saber "ser agradecido" ao melhor presidente do meu clube desde a sua refundação, desde 2003.

Eu podia dizer que o Benfica perdeu este campeonato para um clube cujo treinador se demitiu em directo para as TVs, dizendo à boca cheia que punha o "lugar à disposição do presidente porque no clube não havia união", mas não digo. Podia dizer que perdeu o campeonato para um clube que teve de pedir um empréstimo à banca para pagar salários do mês de Abril, que viu o jogador mais caro do plantel recusar treinar, Mas não digo.

 O que digo é que tivemos azar, que o nosso presidente não merecia!  

 Eu sei que podia dizer que perdemos um campeonato logo numa altura em que temos uma pujança financeira invejável,., mas isso não interessa. Foi Azar. O nosso presidente não merecia.  
Podia dizer que apesar dessa pujança estamos a desinvestir nas modalidades amadoras, fizemos um Empréstimo Obrigacionista, antecipámos metade das receitas de TV e estamos muito perto de vermos o nosso presidente ser acusado de ter usado o Benfica para obtenção de vantagem pessoal, mas isso não digo. Tudo isso só pode ser dito pelos adversários, que foram eles que inventaram tudo. A mim, como benfiquista, só me compete apoiar e saber "ser agradecido" ao nosso presidente.

Eu até podia dizer que o Benfica vai agora contratar, caso ele queira, o treinador que foi despedido, acusado em tribunal, destratado pelos homens fortes da comunicação do clube, excomungado pelo presidente por mais de uma vez e com juras de nunca mais admitir o seu regresso ao clube, mas não digo. 

Bem podia eu dizer que o que o Benfica precisa é de uma mudança a sério e que uma mudança a sério não é ouvir um vice presidente dizer, com aquele ar boçal, que "É altura de entrar num novo ciclo, com foco na componente desportiva"... uma mudança a sério é sim correr com todos os órgãos sociais do clube através de Eleições democráticas, limpar a BTV do servilismo pornográfico ao presidente e dar início a um novo ciclo sem negociatas, sem esquemas, sem parcerias estratégicas, sem andrades e sem lagartos. 

Mas não digo. O nosso presidente não merece. O nosso presidente salvou-nos e o que eu devo fazer agora é saber "ser agradecido".
  

sábado, 25 de abril de 2020

A nossa língua...
A sério, da nossa língua já Cervantes dizia que era a mais musical de todas. E não consta que ele tivesse grafonola...
E no que toca a amar esta língua portuguesa, no que respeita ao tesouro depositado por estes séculos afora pelos nossos grandes poetas e escritores mágicos de aquém e de além mar, o pormenor de ser Francisco Buarque de Hollanda o primeiro cantautor a ganhar o maior prémio de literatura da Língua Portuguesa...
Que bom perceber esse pequeno pormenor e ao mesmo tempo ter a certeza de que Torga, Jorge Amado ou Saramago não teriam desejado melhor.


Dylan, o maior de todos eles, já  tinha ganho o Nobel da Literarura e pode ser que um dia a Academia Sueca se lembre do Chico. Do grande Chico Buarque! #premiocamões

quinta-feira, 12 de março de 2020


 "O Luxemburgo, quente e branco. Estátuas, pombos, crianças".
"Junto do repuxo um barquinho parecia perdido, inclinava-se, afundava-se lentamente. Todos riram. Um miúdo tentava apanha-lo com uma vara."

Jean Paul Sartre in A idade da Razão

Li este livro, tinha eu dezanove anos! Devorei-o, aliás.

Passados estes anos todos fui lá. Andei por ali, fiz aquele percurso, Montparnasse, o Quartier Latin, a Sorbonne, o Boulevard Saint Michel.
Enfim vi a Paris que estava dentro de mim.

segunda-feira, 9 de março de 2020

Max Von Sydow, o actor de Bergman em o Sétimo Selo, deixou-nos. O  actor que encarnou aquele homem  da idade média que  jogou xadrez com a Morte que vinha em barda naqueles tempos, e em forma de
Peste Negra. Hoje mesmo, e ainda, anda a humanidade a jogar xadrez com o adversário de sempre, essa Morte cruel e fria, que desta vez nos  ameaça com outra roupagem, outra peste.
#Rip #maxvonsydow #bergman

quinta-feira, 5 de março de 2020


Um homem de 54 anos não pode parar. E deve correr. Ou caminhar, que dá no mesmo. O que interessa é não parar. E das minhas corridas há tantas coisas para contar. Dos pensamentos - O Pensamento é livre, diz o Zequita - ficam marcas que nos timbram a existência. Que nos arrebatam.


Tantas histórias criadas naquele espaço temporal medido por dezenas de passadas lentas e arfares imorredouros! Orações intermináveis ao meu Deus, sinais da cruz cerimoniais defronte das tantas alminhas que o caminho nos dá. Um ou outro mais pausado, porque Deus escolhe os nossos lugares, as nossas peregrinações.

Dizia eu que o pensamento nos leva para muitos lados enquanto corremos ou caminhamos. Por vezes conduz-nos à infância, aos tempos da inocência. Transporta-nos a lugares que só ali revemos e que por eles deslizamos como se fossemos planta trepadeira que arriba em sentido contrário, para baixo, para as raízes das memórias. E fazemo-nos dramaturgos. Escrevemos diálogos e criamos cenários onde pomos as nossas personagens a falar connosco. Ressuscitamos até os que já partiram e eles apegam-se à trama. Respiram novamente e falam sem parar.

Depois apagamos tudo. Reiniciamos outra história, outro espaço, outro universo.

E continuamos a correr e sorrimos para dentro sem dar conta do tempo, da fadiga. E, por fim, arredamos, exaustos, e lavamo-nos e secamo-nos e vestimo-nos e passamos outra vez a existir cá neste sítio.


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Tirando os livros da saga "Os Cinco" de Enid Blyton, que eu devorava na cozinha da minha avó enquanto ela preparava um "caurdo branco" e umas fanecas da senhora Carolina, Charles Dyckens foi, na verdade, o primeiro escritor estrangeiro que eu conheci, ou melhor, acerca de quem eu, ao ler "Um Conto de Natal", me detive pela primeira vez a pensar quem seria o autor de tão maravilhosa história.
Nasceu neste dia em 1812!

sábado, 24 de agosto de 2019

Do filme "Variações", que fui ver, tenho a dizer: É ir a correr, sentar e ver, apreciar e recordar...

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Não morro de amores por João Miguel Tavares. Não aprecio as suas crónicas no jornal Público mas, por outro lado, consigo tolera-lo no programa "Governo Sombra" da TVI24, talvez porque os seus colegas de programa dominem como poucos a arte de contradizer, ou melhor, contrariar a fina retórica do rapaz.
Posto isto, eu que nunca liguei muito ao 10 e Junho, tirando aquele, nos idos de oitenta, em que eu fui para o estádio do Bessa ver Lena D'Agua e Jorge Palma, eis que dei por mim a ler uma mão cheia de opiniões sobre um tal discurso que o jovem jornalista fez em Portalegre. E lá fui eu ouvir o que é que nele havia.
No que me foi dado perceber, acho que ninguém que seja razoável pode não ter concordado com o que foi dito. É claro que, sendo um discurso, tinha de ter alguma empatia, algum calor, palavras ritmadas, repetidas até (nem todos são como o Vieira), mas no essencial o rapaz disse coisas importantes que a todos tocam, de certeza. Pelo menos a mim tocou-me. A mim que sou filho e uma geração destroçada pela ditadura e pela guerra colonial, desmantelada por via da emigração forçada, onde poucos foram aqueles que investiram na educação dos filhos, na cultura. A mim que, na parte que me toca, procurei investir nos meus filhos. Tudo por eles, tudo para eles. E agora são eles que comandam, que se erguem na vida, no trabalho e nos sonhos. E foi sobretudo a pensar neles que este discurso foi escrito.
Por isso o discurso foi bom não só porque criticou os políticos, e, em suma, a Sociedade que somos nós, mas também porque nós precisamos de aprender a ouvir coisas boas e que nos fazem pensar, mesmo que sejam ditas por pessoas de quem nós podemos até nem apreciar muito.
Uma palavra para aqueles que ainda continuam a ver as coisas pelo lado enviesado da clubite politica: façam o favor de amadurecer!

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Entre Julho e Novembro – David Mourão Ferreira

Rangia entre nós dois a música da areia
como se fosse Agosto a dedilhar um sistro
Agora está fechada a casa onde te amei
onde à noite uma vez devagar te despiste

Floresça o clavicórdio em pleno mês de Outubro
Na harpa de Setembro entrelaçou-se a vinha
A que vem de repente entre os dois este muro
feito de solidão de sal de marés vivas

Podia conjurar-te a que não me esquecesses
mas é longe do Mar que os navios são tristes
De que serve o convés com a sombra das redes
 

Quis a tua nudez. Não quis que te despisses
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