terça-feira, 22 de Outubro de 2013

onde tudo começa é no outono. nas árvores com folhas amarelas de mais, nos ventos agrestes e nos sóis mais raros. é no outono que se fazem os mais secretos planos. não de férias nem de empregos nem de mudança de vida. planos de usar pijamas quentes, calçar meias grossas e beber vinho doce enquanto as castanhas não descem de preço. é no outono que se rivaliza no futebol, ainda todos podem ganhar, e é no outono que os mais organizados começam a comprar coisas para o natal. é no outono que a gente mais se manifesta e é no outono também que se modera mais a linguagem e os modos. é no outono que estamos e é no outono que se começa a beber vinho tinto.

quarta-feira, 25 de Setembro de 2013

Para os pedrosenses

Este indivíduo que aparece na fotografia que eu captei por ocasião do encerramento da Repartição das Finanças dos Carvalhos, de megafone na mão, encenando reclamar um equipamento que o Governo Central retirou à população do Sul de Concelho, presidente da Junta de Freguesia de Pedroso, já por cá anda há mais de 20 anos e persiste em por aqui andar por muitos mais anos porque o poder calcinado nas teias dos favores, no marasmo do "deixa pra la", no faça-se o que for preciso fazer para que tudo fique na mesma, de tudo se serve para que tipos como este sejam os novos Regedores das Freguesias.

Outrora impostos pelo Poder Central, os Regedores eram os senhores da terra. Os que mandavam. Hoje, porém, a Nossa Democracia, dotada de leis de mão, artimanhas legais e a caça ao voto - vejam o que ele fez há dias quando levou os velhinhos a almoçar em terras de Fátima, passando a jornada a chantagear os nossos seniores que "se não votarem em mim para o ano não vai haver passeio"- não mais faz do que perpetuar no poder esta fauna de caciques, gente de mão, cristalizada no expediente "natural" de fazer vida à custa da Democracia.
A Democracia tem de ser, em primeiro lugar, um instrumento que garanta a rotatividade no poder, que elimine o cargo vitalício. A nossa Democracia, a nossa jovem Democracia, definha nos vícios do antigo regime, na epilepsia do favor, na estalactite do "Capo Regime".

Por isso mesmo, pedrosenses, é hora de dar um coice de mula a gente como esta. É hora de apoiar a renovação, dar lugar a outros, conceder a oportunidade de gente nova, sem vícios, de mostrar outro tipo de capacidade, outra forma de tentar ajudar a comunidade a crescer e a valorizar-se.
 Já que estes dinossaurozinhos de paróquia não se enxergam, não percebem os princípios fundamentais da Democracia, saindo de cena por mão própria, que seja a Democracia, através do acto eleitoral, a correr com eles daqui para fora. Oxalá!

segunda-feira, 10 de Setembro de 2012

Samuel parou por um momento, tirou o capacete velho e desbotado e coçou a cabeça. Olhou para os céus negros de uma negritude belicosa. Na encosta era fogo alto e gente a correr pelos caminhos. Gritos de mulheres, sirenes, cães ladrando e Samuel ali sentado a olhar o desespero. Da estrada principal, chegava o carro do Director da Protecção Civil, um bólide alemão com motorista, e outro carro, também alemão, chegava quase em simultâneo. Dele saiu o Presidente da Câmara. E mais outro carro, e mais outro homem importante, um Secretário de Estado, talvez. E outro "alta cilindrada" alemão. E um motorista. E as televisões a correr, as rádios, e os jornais a correr.
 E Samuel , coçando a cabeça, de casco na mão, olhava para aquele molhe de gente e veio-lhe à cabeça a lembrança de que lá no quartel quem pagou o frigorífico foi a vaquinha entre todos, a Internet também, e nas horas mortas, se quiseram ver a bola para entreter, tiveram que ser eles a mandar instalar o cabo. Para o serviço, o gasóleo é pouco e os carros, os carros dos Soldados da Paz, estão velhos e avariam-se muitas vezes. E os uniformes são fracos e mortos de velhos, e o fogo é forte. Que forte é o fogo que arde ali fora e que quente é a raiva de Samuel. Que vontade de gritar! Que impotência, que miséria!
 É neste preciso momento que Samuel pensa numa vontade.  Correr desalmadamente, não para investir contra as chamas que a todos ganham, mas correr direitinho àquela corja e investir forte sobre todos eles, o Director, o Presidente e o Secretário. Que sensação tão estranha se apoderou daquele pobre bombeiro. Era fodê-los a todos, esses cabrões. Dizer-lhes duas verdades, que se pusessem na alheta, que dali não levavam nada, nem foto nem imagem nem votos.
 Por um momento viu-se naquele acto heróico e quase iniciou a marcha triunfante dos que sofrem em silêncio as injustiças dos que falam de cima do pedestal, mas as crianças sujas de carvão negro, enfeitadas com as faúlhas que caíam do céu e as mulheres que berravam gritos calados por soluços de uma vida atropelada nas chamas, fizeram-no olhar para trás, e Samuel, que era um deles, correu para a frente do fogo e descarregou naquela parede vermelha toda a sua raiva, e assim esteve até noite dentro a apagar os lumes que lhe iam na alma.
Quando voltou a sentar-se, a tirar o capacete, a coçar o rosto molhado, olhou para o outro lado e já só via o restolho que ficara daquela gente importante. Por certo haviam de parar mais a sul, porque o fogo é procissão do demo.  Melhor assim, que tenham feito boa viagem. E foi aí que se lembrou de ligar para casa, dando notícias, que estava bem e que só queria  estender as pernas um bocado.

sábado, 28 de Julho de 2012

Caro Professor,

Ao longo dos tempos, pelo menos desde que existe essa coisa chamada Ensino, houve professores que marcaram de forma indelével os - ou pelo menos um - alunos. Pessoalmente, lembro-me da minha professora de inglês, a Odete Veludo, que também lecionou na Escola Secundária de Carvalhos e que me atirou logo no primeiro dia de aulas do meu décimo ano com um  "o que andas aqui a fazer?".
Eu não passava de um aluno medíocre a inglês, como ela de resto já tinha percebido quando fora minha professora no oitavo ano. E a seguir àquela pergunta irónica e quase maternal passaram-se dois anos de apaixonante vivência com a língua de sua majestade, da qual acabei por me desenvencilhar, e, sobretudo, de um extremo relacionamento franco e sincero entre uma professora devota e um aluno "ingenuo-anarquista", sedento de saber e ao mesmo tempo a viver as escuridões das estrelas, que é uma coisa que poucos hão-de conseguir explicar. Adiante.

E ao longo dos anos, de certeza que houve muitos professores que foram capazes de marcar os pais dos alunos. Ou de um aluno.
O professor, que não duvido tenha e venha a marcar muitos alunos, é um desses profissionais que é capaz, para além da sua dedicação como técnico, de deixar ficar aos pais essa marca de autenticidade e valor. Durante os cinco anos em que foi o professor de inglês do nosso filho, foi capaz de nos marcar. Não interessará muito descriminar aqui os factos e as experiências vividas, os momentos de tensão, de solidariedade, de compreensão e paciência. O que vale, agora que o "nosso" ciclo de relacionamento professor-aluno-pais termina, é dizer obrigado. Obrigado por ser o homem e o profissional que é. E oxalá a sua capacidade de "ser", enquanto professor, possa contribuir para que outros alunos e outros pais percebam que isto dos alunos e das escolas e dos professores  não é apenas uma relação efémera e processual. Não é apenas uma tarefa. É a tarefa perene, A que fica e prevalece. Obrigado professor.

sexta-feira, 22 de Junho de 2012

Eia, pá, agora somos outra vez muito bons!
Ontem, escrevi no Twitter que Portugal inteiro estava preparado para adular a sua equipa nacional de futebol, caso vencesse, ou para a destruir, caso terminasse a sua participação do Campeonato da Europa de Futebol. Afinal, somos finalmente bons outra vez! E fomos bons, sim senhor. Pelo menos ontem fomos competentes e efectivos e o nosso adónis encheu-nos de orgulho!

Após o jogo, dispensei-me de assistir aos bocejantes debates televisivos portugueses sobre futebol que teimam em não sair daquele registo tão tuga, a ausência de qualquer sentido crítico, e que está na génese do tal  tweet que eu escrevera bem antes do início do jogo . Preferi ver o "Punto Pelota", o programa mais "kitch" sobre as coisas da bola, uma coisa que só vista. Passa em Espanha, com epicentro em Madrid, e versa sobretudo a rivalidade entre Barcelona e Madrid, e, claro, Cristiano Ronaldo. Ali, o nosso CR7 é esmiuçado de uma forma tão meticulosa que dá arrepios.
 Idolatrado por madridistas e triturado por todos os outros, dá-me particular gosto e especial satisfação devorar aquilo tudo até à medula, o madridismo, a xenofobia, a sobranceria, a inveja.
Para terem uma ideia, os tipos ontem gastaram 50 minutos só com o nosso CR7 e isso arrasta para o seio de Espanha toda a nossa portugalidade e uma espécie de vingança histórica de todo um povo contra Castela, onde li, com agradável surpresa, uma galega dizendo "Se Portugal va con Espana yo voy por Portugal". Lindo, não é?

Veja aqui o Punto Pelota de 21/06/2012

terça-feira, 19 de Junho de 2012

Era uma vez uma aldeia de subúrbio, com casas empilhadas entre ruas e vielas. Com pátios de cimento e terra, hortas e galinheiros, e um cão. Quase todas estas casas têm um cão, ora porque se gosta de animais, ora porque se gosta de ter a casa vigiada. E quase todas as pessoas destas casas têm vizinhos e se dão bem. Partilham coisas, recursos pequenos da horta, ou outras coisas que se traz do emprego, que se arranja. Umas madeiras, caixas, ou arame e pregos. Nas casas destas aldeias de subúrbio é normal ver-se muitas coisas que são ali botadas  porque servem para qualquer coisa, nem que seja para dar ao vizinho. E este dar e receber vive-se desde sempre, posto que os vizinhos se dêem, está claro.

E um dia, um vizinho teve ninhada de cães e quando se tem tantos cachorrinhos é normal que não se deitem fora. É normal que se dêem. Os vizinhos dão os seus cachorros, não os vendem. Outros há que acabam por deitar a afogar no rio as cadelinhas por via de uma espécie de "misoginia canina", que é uma coisa que tem tendência a acabar, graças a Deus.

Ora, e um dia um vizinho foi à casa da ninhada escolher um cão. E foi assim que começou a a ser traçada a vida do "Skyp". Ele foi o escolhido porque era o mais bonito da ninhada. Foi um critério de escolha muito razoável, acertado até. Quem não escolheria o cão mais bonito da ninhada se tivesse essa oportunidade?
E o cão deve ter percebido isso. Era o príncipe perfeito, o mais bonito e foi com vaidade que se viu no colo daquela mulher. Saiu do peito da mãe para os braços daquela que iria cuidar dele porque mereceu, porque tinha predicados convincentes e irrecusáveis. Quantos de nós nunca se sentiram assim? O escolhido de entre tantos outros.

Já passaram muitos anos sobre este momento de glória do Skyp e o único outro momento de glória deste  cachorrinho foi o dia em que fechou os olhos para sempre. Quase treze anos depois. Treze anos passados amarrado a uma jaula feita de meio bidão de fibra de vidro , um forno no verão e uma geladeira no inverno. O único brinquedo do Skyp era uma gamela de cimento, onde caía ali uma comida de lavagem. Nunca calcorreou chão nenhum que não fosse aquele pátio sujo de cimento e duvido que tenha tido uma carícia, um consolo da mulher que um dia o retirou do colo materno. Quando por ali passava gente ele era um simples cão perigoso porque era grande e forte e ladrava.
 A única relação de afecto que teve em toda a sua vida foi criada com um carpinteiro vizinho, que ali passava todos os dias de casa para o trabalho e do trabalho para casa. O homem, certo dia a caminho de casa, lembrou-se de lhe atirar com um resto de comida. E isto repetiu-se anos seguidos. Para Skyp, que fora o escolhido, o mais perfeito entre os irmãos, o grande momento da vida dele, o zénite transcendental, era quando o rapaz ali passava e lhe deitava um osso, um bocado de pão ou o que fosse. Por vezes o rapaz não levava nada e via o cão correr aos saltos até onde o cadeado permitia. Via o olhar contente do cão e ficava triste porque percebia a falta, a quebra do ritual.
E assim, ao longo de  quase treze anos, o rapaz procurou não faltar ao combinado. No últimos anos, quando já o pobre bicho definhava, o rapaz sofria. Sofria em silêncio porque eram vizinhos de uma aldeia de subúrbio. E os vizinhos das aldeias de subúrbio dão-se bem e não fazem revoluções. Os vizinhos zangam-se com coisas humanas, não com vidas de cães. Os vizinhos são capazes de observar atrocidades como esta, e de sofrer com elas, mas está-lhes vedado o instinto justiceiro porque talvez ainda não tenham bem presente a diferença entre um cão que foi "o escolhido" e um monte de tábuas que para ali ficou arrumado junto à parede que menos serventia tem. Tudo aquilo faz parte do mesmo e assim continuará a ser.

Certo dia, o rapaz passou frente à casa e não viu o cão. Parou por um instante e sentiu uma tristeza e uma alegria, sol e chuva ao mesmo tempo. Sorriu para ele próprio e seguiu o seu caminho. E noutro dia contou-me esta passagem com ar aliviado enquanto bebia uma cerveja.