sábado, 24 de agosto de 2019

Do filme "Variações", que fui ver, tenho a dizer: É ir a correr, sentar e ver, apreciar e recordar...

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Não morro de amores por João Miguel Tavares. Não aprecio as suas crónicas no jornal Público mas, por outro lado, consigo tolera-lo no programa "Governo Sombra" da TVI24, talvez porque os seus colegas de programa dominem como poucos a arte de contradizer, ou melhor, contrariar a fina retórica do rapaz.
Posto isto, eu que nunca liguei muito ao 10 e Junho, tirando aquele, nos idos de oitenta, em que eu fui para o estádio do Bessa ver Lena D'Agua e Jorge Palma, eis que dei por mim a ler uma mão cheia de opiniões sobre um tal discurso que o jovem jornalista fez em Portalegre. E lá fui eu ouvir o que é que nele havia.
No que me foi dado perceber, acho que ninguém que seja razoável pode não ter concordado com o que foi dito. É claro que, sendo um discurso, tinha de ter alguma empatia, algum calor, palavras ritmadas, repetidas até (nem todos são como o Vieira), mas no essencial o rapaz disse coisas importantes que a todos tocam, de certeza. Pelo menos a mim tocou-me. A mim que sou filho e uma geração destroçada pela ditadura e pela guerra colonial, desmantelada por via da emigração forçada, onde poucos foram aqueles que investiram na educação dos filhos, na cultura. A mim que, na parte que me toca, procurei investir nos meus filhos. Tudo por eles, tudo para eles. E agora são eles que comandam, que se erguem na vida, no trabalho e nos sonhos. E foi sobretudo a pensar neles que este discurso foi escrito.
Por isso o discurso foi bom não só porque criticou os políticos, e, em suma, a Sociedade que somos nós, mas também porque nós precisamos de aprender a ouvir coisas boas e que nos fazem pensar, mesmo que sejam ditas por pessoas de quem nós podemos até nem apreciar muito.
Uma palavra para aqueles que ainda continuam a ver as coisas pelo lado enviesado da clubite politica: façam o favor de amadurecer!

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Entre Julho e Novembro – David Mourão Ferreira

Rangia entre nós dois a música da areia
como se fosse Agosto a dedilhar um sistro
Agora está fechada a casa onde te amei
onde à noite uma vez devagar te despiste

Floresça o clavicórdio em pleno mês de Outubro
Na harpa de Setembro entrelaçou-se a vinha
A que vem de repente entre os dois este muro
feito de solidão de sal de marés vivas

Podia conjurar-te a que não me esquecesses
mas é longe do Mar que os navios são tristes
De que serve o convés com a sombra das redes
 

Quis a tua nudez. Não quis que te despisses

quarta-feira, 25 de abril de 2018

#32 💟
Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma...Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.
Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.
E em duas bocas uma língua..., - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.
Depois... - abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!
José Régio - Soneto de Amor

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Ó Carlos, tu não me ligas a ponta de um corno mas eu insisto em escrever-te. E escrevo-te aqui e daqui porque um dia tu vais ler isto, um dia eu vou ler isto. E vai saber bem.



Como andas?

Olha, eu fui ver Bob Dylan a Lisboa. Imagina tu que andei eu estes anos todos a criar um filho que deu nisto de gostar muito de ouvir o Velho Robert e, assim, lá resolveu comprar dois bilhetes e “Ó Tinoco, vamos a Lisboa ver Bob Dylan”.
Confesso que gostei, Carlos. Principalmente porque isto tem muito a ver com uma certa tomada de posição no que toca a criar filhos. Tocar as canções com eles a crescer, som alto de preferência, Zappa, Dylan, Doors, Pink Floyd, e eles a crescer e a resmungar. Tom Waits tantas vezes, “Um dia ainda ides acabar por gostar de Tom Waits” e esse dia chegou bem cedo e surpreendente, ou não, porque estes músicos, estes autores, estes artistas também hão-de ser ouvidos pelos filhos dos meus filhos, e pelos netos, de tão eternos que são. E estando ainda alguns vivos, há que ir. Há que não perder.

E gostei, Carlos. Gostei da viagem que fiz com um filho homem ao meu lado. Das conversas que tivemos, das pausas, das perguntas, das expressões. Depois veio o concerto e o homem é aquele que tu bem conheces e que já viste tocar no Porto, há muitos anos, e me disseste que ele é diferente. Que não quer cá palminhas e folclore “olá Lisboa!”. Nada! O homem está em palco, acendem-se as luzes, canta, toca, exprime, enfim, a sua arte que não é bem a arte de um entertainer, apesar de o ser. É uma arte que não é bem um concerto musical, apesar de o ser. É uma arte que vem de um artista raro, muito, muito raro.
E, portanto gostei. Principalmente de ver o meu filho a gostar quase muito mais do que eu e dos outros cotas que encheram o pavilhão.

E tu, como andas? Sempre apareces um dia?

Nós que vimos juntos Neil Young, Lou Reed e que já vimos Dylan em momentos diferentes, podemos sonhar ver um dia Tom Waits. Mas para isso seria preciso que tu viesses cá e que ele não acabe por se fartar desta vida. Tenho esperança, enfim, de vos ver aos dois.

Um abraço, Carlos. Um grande abraço.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Quero ver se não morro sem antes conhecer muito bem Manuel António Pina, que nos deixou fez ontem cinco anos. Passar pela sua obra é um arrepio constante. tocá-la, sentir os tons da sua pele, ah que sabor....

TODAS AS PALAVRAS



As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo
e se foram levando o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.


Manuel António Pina

quarta-feira, 8 de março de 2017

Neste dia em que se celebra o #DiaDaMulher e que, por uma vez, não sei bem porque raio se celebra o Dia da Mulher, pois tenho para mim que a mulher está no topo da pirâmide evolutiva de todos os seres vivos de que há memória e não precisa, portanto, de dias especiais de comemoração coisa nenhuma, mas enfim, já que se instituiu este dia eu, muito humildemente e em homenagem a todas as mulheres, gostaria de partilhar com as minhas amigas e os meus amigos a memória desta senhora que para mim simboliza, digamos, a mulher no seu mais sublime estado de capacidade, coragem, amor e visão da humanidade: Dorothy Day.
Pouco conhecida, obviamente, mas que eu insisto em "dar" a conhecer a quem estiver interessado e, aliás, relembrar que o Papa Francisco, aquando da sua visita aos EUA e numa sessão pública em que ele homenageou algumas figura heróicas da América, surpreendentemente referiu o nome desta grande heroína da humanidade.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Dorothy_Day


sábado, 25 de fevereiro de 2017

Parabéns, Carlos. Chegámos à idade da cachaça, dos sabores fortes e  intensos. E como as melhores aguardentes, saberemos inspirar força e adstringência necessárias ao andamento perene das nossas vidas. Somos lima-limão suficientemente fresca e suave para poder olhar o que lá vem ao longe. Porque uma boa aguardente tem de saber chegar a velha, tem de saber guardar o tempo que passa e ganhar o tempo que vem. Um abraço.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

“Don´t think twice, it´s all right”

Olá Carlos, esse Natal? Espero que tenhas tido um bom Natal. O meu correu dentro da normalidade, correu bem, embora tenha vivido um bocado de nostalgia de quando não tinha o Natal a correr dentro da normalidade, de quando passava essa noite a ouvir Pink Floyd e a tentar perceber a ordem das coisas. Ou a desordem.

Neste Natal, Carlos, recebi um disco de Bob Dylan, prenda da Catarina. “The Essential Bob Dylan”. E lembrei-me mais uma vez de ti, amigo, dos teus discos de vinil, das nossas conversas perdidas no tempo. Num tempo em que éramos apanhados pelos momentos do agora e sempre. A vida era aquele momento especial e, olha, continua a ser, se calhar. O “agora” é uma coisa constante, perdura. Que confusão, amigo. São duas da manhã e eu estou a ouvir Dylan e lembrei-me de ti. Feliz Natal, Carlos.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Bob Dylan - 100 Essential Recordings (AudioSonic Music) [Full Album]

Ao meu amigo Carlos Manuel Gonçalves Reis. Onde quer que estejas, mereces mais do que todos este Nobel Prize ao grande poeta das canções de todas as lutas, todas as filosofias, todos os romances e tragédias. Um abraço.

"Maybe your friends think I'm just a stranger
My face you'll never see no more
But there is one promise that is given
I'll meet you on God's golden shore"


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