domingo, 7 de agosto de 2016

Estou muito orgulhoso de ti, meu rapaz. Correste Portugal de lés a lés, à boleia como deve ser, porque a vida é uma boleia, com o teu amiguinho, um amigo daqueles para a vida e que são tão poucos, muito poucos, digo eu que também tenho os meus. Foste levado por médicos, padres, camionistas e miúdas giras. Foste alimentado por religiosas, paraste em tascas, vendas e mercados. E viste a nossa aldeia, o nosso país lindo e diverso. Palmilhaste terriolas, deslumbrando-te umas vezes, desiludindo-te outras, bem sei.
E chegaste a Sagres, o sítio mais tocante do nosso sonho. E olhaste bem lá longe, que longo é o teu caminho, meu rapaz. E eu repito “Oxalá os teus sonhos sejam sempre inspirados por tão deslumbrante paisagem”.


Tenho muito orgulho em ti.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

domingo, 31 de julho de 2016

Vou agora, se me permitem, discorrer sobre um assunto que já me esta a meter nojo: a mania que os meus conterrâneos têm de andar numa de “ai vêm aí os emigrantes, que horror!” ou “credo, é só “avecs” por todo o lado, não os suporto!”
Os emigrantes, meus amigos, bem os emigrantes, para começar, deviam ter uma estátua em cada aldeia portuguesa. Durante este mês de Agosto não há feirante ou lojista que não esteja grato aos “avecs”. Porque eles, os “emigras”, eles compram tudo, eles enchem os restaurantes, eles ocupam as lojas que não vendem quase nada durante o ano e limpam-lhes o stock, as coisas que nós desdenhamos mas eles adoram. Eles mandam construir casas, grandes casas, enquanto nós, coitados, somos enfiados em apartamentos exíguos, eles até piscinas fazem, grandes garagens, três carros - e pagam a tempo e horas!- e isso é o quê? É economia a andar cá em Portugal graças ao dinheiro deles. E já nem falo das remessas que eles andam a mandar para cá há cinquenta anos. Por isso, meus amigos, respeito, muito respeito pelos emigrantes. Sorriam para eles, agradeçam eles virem cá porque muitos deles são já da terceira geração e quase nem sabem falar a nossa língua. Mas adoram Portugal.
Ainda recentemente isso ficou provado. Sim, porque um filho de emigrante português, nascido e criado em França, a trabalhar em França, a falar francês seria muito natural que jurasse amor ao SEU país, a França. Mas não, o raio dos moços adoram Portugal, amam Portugal e apostaram e apoiaram a “Seleçom” como só eles sabem fazer. Tiveram de levar com o mau perder dos franceses e aguentaram, não renunciaram à pátria amada, porque essa é só uma. E agora, chegam a Portugal, à grande e amada pátria e levam com a cara de nojo dos seus compatriotas, a raiva latente nas redes sociais, o ciúme, o preconceito. Se fosse possível eu queimava todas as “memes” que me aparecem a desdenhar os nossos compatriotas emigrantes por esse mundo fora e que fazem o favor de nos vir visitar. E entristece-me muito, aliás, ver muito boa gente que se arma a defender tudo o que é minoria e bla bla bla e depois vem para as redes sociais armar em “português de primeira estorvado pelos emigrantes” coitados, como se isto, esta parvónia fosse um direito só deles.
Por isso respeito, caro amigo, muito respeito pelos emigrantes. Obrigado.

sábado, 30 de julho de 2016

"Shall I compare thee to a summer's day? 
Thou art more lovely and more temperate" 
#Shakespeare

quinta-feira, 28 de julho de 2016

No verão um poema:
"Cicale, sorelle, nel sole con voi mi nascondo nel folto dei pioppi e aspetto le stelle."
Salvatore Quasimodo 

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Parabéns a estes putos que foram a França fazer história contra o cepticismo de quase todos nós. Hoje, é tempo de celebrar este momento excepcional da portugalidade, da diáspora. E obrigado a estes miúdos por colocarem a imagem de Eusébio junto da Taça. Eusébio merece. Não por ter sido o melhor mas sim por ter sido um exemplo do talento e do querer, sentimentos aliados ao sofrimento do "sentir Portugal". Eusébio sentia Portugal como poucos, embora não tivesse nascido na península. Como sente Pepe, que nasceu em terras de Vera Cruz, como sentem os filhos de África desta nova geração, os filhos dos ciganos, os filhos dos insulares, os filhos dos emigrantes. Todos eles somos nós e Eusébio é todos eles. Obrigado, miúdos

quarta-feira, 29 de junho de 2016

bebamos!
não fazem falta lâmpadas!
basta um dedo de dia para as grandes
copas multiadornadas vamos
ergue-as! o
filho de sêmele e zeus
diôniso
nos deu aos homens vinho
lassidão contra a dor - olvido:
a cada parte de água duas
só de vinho assim
plenas até a borda
bebamos -
uma após a outra - copas
e mais copas!
Alceu - Fr.96 Diehl
(E.Munch, 1895)

segunda-feira, 20 de junho de 2016

uma frase do dia, de todos os dias.

...para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam ou dizem chavões, mas queimam, queimam, queimam...
 Jack Kerouac

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Terias muito mais fiéis se tivesses sido capaz de te manifestar quando o outro Governo, por questões ideológicas, cortou com os subsídios para o Ensino Especial, o tal cujos alunos são rejeitados pelo ensino privado como se vivêssemos na idade média, onde os deficientes eram depositados nos currais e hoje há tantos casos de deficientes que ficam em suas casas porque os pais não podem pagar a propina. Terias muito mais fieis se por ventura te tivesses manifestado quando o outro Governo encerrou Escolas Públicas na província, fazendo com que crianças tenham de se levantar às 5 da manhã e fazer uma longa viagem para poderem usufruir de um direito fundamental, que é o Ensino, a Instrução, como bem se dizia no tempo de Salazar. Quando o outro Governo cortou direitos adquiridos a milhares de professores, barrou o acesso de professores ao trabalho justo e honesto, fazendo com que os que ainda continuam ficassem sobrecarregados com turmas pesadas, com "paper work" a dar com um pau, com avaliações medievais. Faz um esforço, cara Igreja Católica Portuguesa e quando, por questões ideológicas não te revês em certas matérias fracturantes, então cala-te e deixa lá os neoliberais sequiosos de dinheiro entregues aos seus lóbis. E não sejas lobi. porque eu acredito num Deus e não numa Instituição Lobista.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

A propósito da questão Colégios Privados versus Escola Pública, acabei de ouvir: "Não havendo Deus, não há autoridade." (Pedro Arroja no ‪#‎portocanal‬). 
Ora, o meu Deus não é autoritário, e sou católico! O "antigo" entendimento do Deus Católico, sim, era autoridade, era descriminação, era um labirinto de preconceitos. Chegou a ser racista, misógino, elitista. O Deus Católico dos nossos dias, melhor dizendo, a sua interpretação, está bem patente no espírito do actual líder da Igreja Católica. É, portanto, o Deus que acolhe e dá. Não manda coisa nenhuma!

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Ian Curtis deixou-nos há 36 anos. Eu tinha 14, e já ouvia pink floyd, deep purple, neil young, graças ao meu irmão e aos meus amigos mais velhos. O Fernando, o Vitorino, o Sá e o Morgado. Depois, vieram os wham e outras cenas de que eu não gostava nada. Duran duran, ok, queen, fixe, mas um dia ouvi joy division no progarama dois pontos, de rui morrison, creio (nessa época eu só gostava de ouvir coisas estranhas, como tangerine dream e outras couves intragáveis). Quando descobri joy division ja não havia Ian mas também já não havia hendrix, morrisson...
Eram os gloriosos anos oitenta. As descobertas, as folhas caídas e o que era novo e fresco. The cure, u2, the cult. E depois parou tudo porque em 85 descobri os the smiths. Aí parou tudo e só nos intervalos conseguia ouvir outra coisa, outras coisas.
Faz hoje 36 anos que o ian nos deixou.

terça-feira, 10 de maio de 2016

É muito fácil perceber a bela equação da Direita: quer que os ricos estudem em bons colégios privados que lhes "dão" as melhores notas para entrarem nas excelentes universidades públicas, enquanto os pobres devem permanecer nas empobrecidas escolas públicas e assim serem empurrados para as péssimas universidades privadas.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

“O CAPTAIN! my Captain! our fearful trip is done,
The ship has weather'd every rack, the prize we sought is won,
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring;
But O heart! heart! heart!
O the bleeding drops of red,
Where on the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.

O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
Rise up - for you the flag is flung - for you the bugle trills,
For you bouquets and ribbon'd wreaths - for you the shores
a-crowding,
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
Here Captain! dear father!
This arm beneath your head!
It is some dream that on the deck,
You've fallen cold and dead.

My Captain does not answer, his lips are pale and still,
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will,
The ship is anchor'd safe and sound, its voyage closed and done,
From fearful trip the victor ship comes in with object won;
Exult O shores, and ring O bells!
But I with mournful tread,
Walk the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.” 
― Walt WhitmanLeaves of Grass

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Ao Espelho

E de repente chegas aos 
quarenta e tal anos 

e palavras como colesterol 
hipertensão astigmatismo 

começam a invadir a tua 
vida... Olhas para trás e 

o que vês? Uma pomba 
com uma das asas ferida 

condenada ao mais terrí- 
vel pedestrianismo 

Jorge de Sousa Braga, in 'Porto de Abrigo' 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016





Um belo dia fui ao cinema "sala bebé", no Porto, ver "Merry Christmas, Mr Lawrence" Num dia em que íamos ao cinema ver arte. A arte nunca morre. Good Morning, Mr. Bowie

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

"O Benfica quer sempre estar em primeiro. Essa é uma realidade e não a podemos esconder, era obviamente algo que não queríamos mas é a realidade e resta-nos lidar com isso. Vamos continuar o nosso caminho." NÃO AGUENTO MAIS ESTE DISCURSO....A SÉRIO!!!!

domingo, 22 de novembro de 2015

Toda a gente viu que esta equipa não jogou nadinha e toda a gente viu que o treinador falhou. E toda a gente viu que a jogar assim é impossível derrotar duas equipas em simultâneo, mesmo que sejam fracas. 

O lugar de um benfiquista é ao lado do seu clube!
Baixar a cabeça?! Só para beijar o símbolo.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

breve contribuição para a preservação do rojão do redenho

Numa frase daquelas que rolam nas redes sociais diz-se que não há melhor amigo do que aquele que adora comer, ou melhor, que á cada vez mais à mesa que se cultivam as amizades reais, já que a espécie humana, para além de se servir do dildo e do smartphone cada vez em maiores quantidades, insiste em criar e manter a sua condição de ser gregário através das redes sociais digitais. Sim, digitais porque também ainda existem redes sociais físicas e essas estão cada vez mais condicionadas pela nobre função gastronómica onde, à volta de uma mesa, se fazem os mais complexos tratados de amizade, casam-se os namorados, afinam-se os movimentos politicos, preparam-se as revoluções e mata-se o bicho, vá.
Por isso, sempre que alguma entidade mor se atreve a nos reduzir a margem de manobra gastronómica  ao dispor das nossas parcas carteiras, isto é, tirar-nos o apascento de uma moira, a tranquilidade de uma loncha de presunto ou a altivez de um rojão do redenho, isso implica que o factor solidão/isolamento cresça em cada um de nós de tal forma que um dia ainda vamos ter que reaprender a encarar pessoas de frente nos tempos livres de que dispomos. O que não se afigura nada fácil, creiam-me, até porque a religião já se tinha encarregue de nos separar gastrogeograficamente.
Vem isto tão a propósito que eu até ando a ler um livro (1) sobre a Primeira Guerra Mundial e que diz, por exemplo, que na França andaram a confiscar cabras para dar de comer aos indianos que foram aos milhares para ali, em ajuda aos aliados, e não podiam comer vaca, cum catano! E o pobre agricultor, que se queixou e bem, tinha de se lhe ver requisitadas as cabras, depois de lhe terem levado os filhos e de lhe terem comido o pão. Raios, ao menos não lhe levassem os olhos para que pudesse chorar, como chorou, dissera um deles.
 Acho pois todo esse alarmismo da OMS contra os enchidos, fumeiros e afins, de que provoca o cancro somado ao já estafado veredicto de que nos lixa as coronarias e portanto nos mata,  uma espécie de contribuição imoral para o extermínio da humanidade enquanto grupo de pessoas e consequente criação de uma especie estranha de hominídeos que se alimenta de erva disfarçada de croquetes da avozinha.
 De modo que, e para fazer um certo lobi junto de quem me possa estar a ler, acho eu, e é bem que o diga, que essa tal organização mundial não passa de uma seita recheada de religiosos inimigos do porco e suas transformações e outros fanáticos vegan e aposto que deve andar por lá um que é primo do dono da Lusiaves.

(1) O Grande Rebanho, de Jean Giono




quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O Presidente da Republica, Cavaco Silva, acaba de indigitar o líder do PSD para formar Governo. É um direito que ele tem e eu não o posso contestar embora não concorde, embora possa entender que podia ter sido tomada outra solução. Ponto final parágrafo.

Parágrafo mas com uma grande ressalva. É que o PR, sendo um homem de Direita, antigo primeiro-ministro à custa dos votos dos que nele votaram, não pode nunca tecer as considerações que teceu acerca de partidos que tiveram votos nestas eleições, que são legais e que jogam as regras democráticas que norteiam o nosso país. Partidos que têm eleitores, milhares de eleitores.
 O PR é, devia ser, o Presidente de todos os portugueses, não é um labrego qualquer, tem perfil de institucionalista mas padece de um mal: julga-se líder supremo de uma seita e tudo faz para a salvar, para a manter na ribalta do poder. Mas como é possível um PR actuar desta maneira? Só o pode fazer porque este país não tem um verdadeiro júri, que devia ser o Tribunal Constitucional, que o deveria impedir de ter o discurso que teve.
 Nna verdade o que o PR disse foi que ele apenas escolhe governos por via da visão que tem ao nível do carácter dos partidos.  
Então para que há eleições, pergunto eu? Para que nos pedem para votar? Para que é que financiam partidos com orientações diferentes das destes senhores? Estes partidos são ilegais se forem contra o Euro? São ilegais se forem contra a NATO? Ou só o são, pelos vistos, quando o PR verifica que eles passam a ter uma voz activa na formulação de um Governo que, pasme-se, vai contra o poder instalado?
Penso portanto, e quero daqui gritar, que isto é uma injustiça, uma golpada, uma ditadura disfarçada. Se me autorizam a votar num determinado partido, não podem vir agora tecer ataques de carácter contra esse partido só porque ele obteve um estatuto de decisão governamental através de VOTOS LIVRES, tão livres como todos os outros. Sinto-me portanto ultrajado, desrespeitado nos meus direitos como democrata e cidadão quando o PR do meu país considera, de forma completamente orweliana, que há votos mais democráticos do que outros.


 Eu votei num partido legalmente constituído e no qual eu acredito e me revejo e apenas quero que ele seja respeitado, principalmente pelas instituições democráticas que deviam ser o mais firme alicerce da democracia que vigora em Portugal.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

aprendi que democracia=direita. só há democracia se a direita ganhar.


Mais de 40 anos de democracia e de governos de direita que nos levaram para a miséria. 

Chega de sermos explorados por uns quantos, basta de humilhação. Veja-se a Suécia Estado Membro da União como nós e onde se trabalha apenas 35 horas por semana e nós, aqui com empregos precários e os patroes a forçarem os empregados a assinar isenção de horário só para que possam estar nos locais de trabalho até AS 22 HORAS, por exemplo, e ninguém lhes poder pegar!
 
Querem a Direita que nos deixou Um país com salário minimo miserável, com um sistema de Saude ligado à máquina dos Hospitais Privados e com um sistema de ensino oferecido aos colegios privados que recebem milhares do Estado só para alimentar a fortuna de alguns e as escolas publicas a fechar e os professores metidos num colete de forças, a terem que trabalhar até aos 65 anos, enquanto os colegas europeus começam logo aos 50 a comprar autocaravanas e a planear belos passeios por Portugal, país onde tudo é barato e as pessoas são simpaticas, pois falam linguas, sabem de tudo mas servem à mesa, fazem camas, tal e qual os seus pais e avós faziam em França e outros paises mas só que esses não tinham instrução? Um país que forma enfermeiros, medicos, engenheiros, arquitetos, cientistas e tem de os mandar para fora porque aqui está tudo tomado nas maos do Capital e da especulação? Um país de desgraçados sem esperança no futuro? Um país onde as filas para a sopa dos pobres são maiores do que as filas para o cinema...?
Tenham juizo e deixem a Democracia Funcionar.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

"Existem coisas que nos lembramos mesmo que elas possam nunca ter acontecido."
Harold Pinter

Pois é amiguinhos portistas, isto da solidariedade não vai com brilho à custa dos outros. Vai com ser solidário de facto, cumprir com a palavra. E como estas coisas têm de ser lembradas, porque existe memória, e a propósito desse gesto de grande solidariedade do F C Porto para com os refugiados migrantes e que só fica bem ao vosso clube, diga-se, pergunto-vos se por acaso o Terramoto no Haiti em 2010 vos diz alguma coisa enquanto portistas solidários? Não diz nada, claro. Mas a nós, benfiquistas, diz-nos muito porque o nosso clube contribuiu com 500.000,00€ para ajuda às vítimas dessa tragédia, sem grandes alaridos mas cumprindo, que é o que se impõe nestas alturas.
 O vosso Presidente nessa altura não se lembrou nem de ajudar nem de pedir que ajudassem, o que não constitui crime nenhum, que fique bem claro. Mas nesse ano de 2010, e pouco mais de um mês depois, houve uma outra tragédia que nos tocou, a nós portugueses, bem mais de perto: as cheias do Funchal. Lembram-se? Aquele aluvião que destruiu tudo na sua passagem? Pois foi, e sabem que clube português contribuiu para ajudar as vítimas? O Benfica, claro está, que através da sua Fundação pagou a construção de três casas e entregou-as a três famílias, e isto passados apenas cinco meses da tragédia, repito, cinco meses depois da famigerada tragédia!
 O F C Porto, por sua vez, e porque nos tocava a todos mais fundo, lá resolveu ser solidário. Através do seu Presidente prontificou-se a fazer um Jogo de Beneficência no Funchal entre o seu F C Porto e um misto de jogadores da Madeira e com a presença do grande Cristiano Ronaldo, que até teria já garantido a sua disponibilidade para participar, vejam bem. Foi lindo aquele anúncio no JN de 22 de Fevereiro de 2010 (podeis ir ver que a notícia ainda está na Net). Mas a verdade, meus amigos, a verdade verdadinha é que o jogo ainda está à espera de data, é o que é! Sem tirar nem pôr.


Isto cá para nós, há por aí alguém ligado à estrutura do F C Porto com um pingo de vergonha e trate de cumprir a promessa antes que o CR7 termine a sua brilhante carreira de futebolista? Ou aquilo foi só para inglês ver?

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Não, não vou por aí.

Eu pertenço a uma geração que começou a dar os primeiros passos na primavera marcelista e aprendeu a ler em plena revolução. Depois, apanhou professores desfasados dos manuais marxistas que lhes impuseram, até que um dia vieram os retornados e os turras. Toda a gente tinha medo dos turras, os pretos que haviam de vir para cá por causa das ex-colónias. Mas eram os retornados que mais a gente temia. Dizia-se que vinham tantos e era preciso dar de comer àquela gente, hordas de bem falantes da nossa língua, brancos bem penteados e com hálito a coca-cola. Uma tribo assim tão conhecedora do mundo novo, experimentada em grandes estradas e outras empreitadas, estava a chegar e a pobre gente do velho império ouvia nas missas o aconchego dos padres. Era preciso pedir ajuda à fé para bem entender esta invasão que nos ia tirar os empregos, o pão, as terras e sabe-se lá mais quê.
E naquele tempo, as televisões eram uma para cada cinco casas, e os jornais eram três ou quatro, e as vendas de vinho e as barbearias eram as redes sociais onde tudo era falado e discutido e o medo e a incerteza andavam errantes, de segunda a domingo, por entre tristonhos telejornais e a rádio renascença que a todos acudia com canções pedidas e saudades em carne viva. Saudades dos nossos portugueses que iam quase todos os dias para a França, a Alemanha e outros sítios lá longe, onde se ganhava dinheiro para um dia voltar e morrer em paz na terra amada, na pátria eterna, em Portugal.

Não, não vou por aí.

Hoje tudo é diferente, menos o medo. E a emigração. A viagem que se faz, que não de comboio e mala de cartão mas sim de avião de baixo custo e i-pod, e a saudade que se canta e o dinheiro que se vai buscar lá fora. A nossa sina. A sina de um povo que desde o dia em que lhe mataram Viriato teve de se pôr a caminho porque daí para cá a europa e o mundo só o quis explorar. Mais nada.
Fomos e viemos, vamos e vimos. Tocamos o mundo, seja onde for, e assim será sempre.
Cá continua a haver de tudo. Desemprego, falência, injustiça, pobreza, miséria. De tudo. E desassossego também. E medo e ignorância.
Espera-se outra vez que os senhores padres nos sosseguem nas missas e lêem-se os jornais todos, centos deles, e ouvem-se as rádios todas e em todas as horas as noticias na televisão e os programas de comentadores e o Facebook. A gigante venda de vinho, a grande barbearia do nosso tempo, o Facebook, onde todos dizem qualquer coisa e onde todos comentam o que é dito, onde fala o burro e zurra o cavalo iliterado e pacóvio. E o medo cresce porque não há sossego nas almas sãs da casta gente. Que trabalha e tem casa para pagar, já sabemos, que tem filhos na escola, que tem a mulher no desemprego e os pais doentes e a reforma é pequena e o país está falido e as festas medievais é que são boas. E os refugiados, esses vilãos terroristas, que vão para onde quiserem, que não venham para cá.

Não, não vou por aí.

Não vou mesmo, garanto. Não vou alinhar com esse medo absurdo, ignorante e hipócrita dos migrantes, hordas de gente a invadir o meu país. Não vou estar de pau na mão à espera dessa gente mal vestida e assustada que disfarça a sua índole maléfica, escondendo terroristas por debaixo das saias. E que ainda por cima é muçulmana! Não vou estender-lhes o dedo culpando-os da minha vida miserável. Dos erros que cometi, dos políticos que elegi e da sociedade mesquinha, egoísta e cruel que ajudei a erguer. 
Não, não vou por aí, Não vou alimentar os burros falantes, os ferrabrases . Vou antes agarrar-me com unhas e dentes à sanidade mental que me resta e me faz pensar nos meus amigos que emigraram, naqueles meus  concidadãos que um dia tiveram de vir para cá e que se adaptaram aos nossos costumes e trabalham e vivem como eu, e finalmente nos que andam por esse mundo à procura de um rumo e podem ter de vir parar aqui e a quem, pela minha parte, juro-vos, hei-de olhar de frente e, na falta de mais alguma coisa, de certeza que lhes darei respeito e admiração, de certeza que lhes darei a minha mão.



sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Um tipo abre um jornal online e lê Portugal perde em Alvalade um a zero frente à França e fica a pensar raios partam estes franceses sempre a ganhar-nos jogo após jogo depois um tipo olha mais em baixo e vê de súbito um quadrado com a fotografia genero passe à la minute do presidente do Sporting de Lisboa a dizer a Seleção é composta na sua maioria por jogadores do Sporting e pensa ainda bem que perdemos...

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Os rivais do Campeão andam a comprar jogadores desterrados e descartados pelos seus atuais clubes e a imprensa cá da terra baba-se a elogiar sem sequer ao menos se perguntar como é que esses rivais sedentos de títulos vão conseguir pagar os altos salários dessas vedetas, enquanto o Benfica procura seguir uma linha coerente e condizente com um clube campeão e estável. Já neste caso a imprensa critica , levando os adeptos de vitórias (e são tantos) ao desespero. 

Assim sendo ,  já nada presta no clube campeão nacional só pq  não ganhou uns joguitos de pré-época.  E para os rivais só elogios. 

Caros rivais, lembrem-se de exigir bom futebol quando for a valer, quando só houver lugar a 3 substituições, quando os estádios estiverem cheios de adeptos a dar colinho, quando os vossos craques começarem a atirar a toalha ao chão, e não venham para  aqui chorar baba e ranho por causa da simples e clara superioridade do Sport Lisboa e Benfica.

Depois, quando for a doer não me venham cá com a teoria do colinho, está bem? Quando for a doer lembrem-se que o Campeão já não está a treinar mas sim a ganhar. 
Ça fait toute la différence!

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Há alguma coisa para dizer? Há sempre alguma coisa para dizer, nem que seja uma. Uma coisa. De maneiras que hoje comi duas sandes de fiambre duma assentada. Pronto!

quarta-feira, 18 de março de 2015

Mandaram um portista de Singapura escrever que o Benfica só ganha contra dez, foram buscar um artigo do Colina para acusarem o Benfica de fazer bloqueios (mas nem leram o artigo, senão ficavam era calados), a SporTV inventou uma nova realidade: a descodificação da linguagem perante um cartão e põe um jogador do Setubal a dizer, na imaginação deles, "nem lhe toquei", precisamente num jogo contra o Benfica. Pegaram num relatório que mostra uma esporádica liderança de audiências do Porto Canal, como se isso fosse uma vitória, mesmo sabendo que a BTV tem dois canais por subscrição, ou seja, antes de sintonizar o canal é preciso pagar. Anunciaram aos quatro ventos que o  clube deles fez grande façanha ao atingir os quartos de final da Champions League, gabando-se de tal feito ter sido apenas deles (o de agora e o último há seis anos - claro que se esqueceram do Benfica de 2011/12 que também atingiu tal meta). Fartam-se de chorar por tudo e por nada, por lançamentos laterais e cantos mal assinalados, por "patadas", por expulsões legais dos seus jogadores, por  nomearem para o Benfica sucessivamente árbitros do Porto, por tudo e por nada choramingam. Até desenterraram o Domingos, paciencia, o Kleyton, o Secretário, etc.

 O Benfica, por sua vez, continua sólido na frente, com vantagem cabal e a jogar futebol, enche o seu estádio e sustenta os aflitos com records de assistências nos seus campos. Chega ao cúmulo de pôr, através do seu futebol estonteante,  jornalistas pseudo independentes (este "pseudo" deveria estar atrás do jornalista, bem sei) a proclamar o grande futebol do Benfica e o enorme trabalho do seu treinador, precisamente uma semana depois de terem andado a dizer que o Benfica é levado ao colo. Temos pois um Benfica forte e unido, disposto a ser Campeão e a fazer por isso. Do outro lado temos a reação: os que se afidalgaram desta porra toda nos últimos anos e que agora lhes custa imenso voltar para a caverna da sua existência e os outrora fidalgos que, de arruinados, até já proclamam segundos lugares com o pomposo título de "Vice Campeão".

Ora perante isto, e perante muito mais ridicularias que quem como eu é benfiquista e vive no norte ouve todos os dias nos cafés, barbearias, talhos e mesmo salas de jantar eu pergunto: SOU EU QUE ESTOU COM MEDO?

sábado, 17 de janeiro de 2015

EIS A VERDADE DESPORTIVA Jogo Penafiel- F C Porto: - 8 minutos: Rabiola ganha lance sobre Indi na linha final,não sei se foi na área mas foi empurrado para fora de campo. - 20 minutos: cotovelada de Casemiro amarelo. - Primeiro golo do porto fora do jogo. - Segundo golo do porto fora do jogo a bola está atrás de Martinez pode-se ver pela linha pequena área. - Terceiro golo do porto falta de Jackson que dá cotovelada no pescoço antes do cruzamento. Bola cabeceada por Casemiro contra Oliver; a bola vem de novo para Casemiro que está fora de jogo e fora de campo,centra para Oliver mas beneficia de ressalto em fora de jogo. Conclusão: Não venham praqui falar em andores. Obrigado

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Para todo aquele que vai ou tenciona ter um cãozinho neste Natal, todo aquele Ser Humano que vai adorar a experiência linda e ternurenta de receber um cachorrinho neste Natal, quase todos aqueles que vão certamente receber um Cão de Raça, com "pedigree" e essas coisas todas que elitizam os caninos, sim, talvez para ti também que me estás a ler, tomem todos atenção a uma coisa, aliás a muitas coisas: o Cão é um animal que consegue amar o seu próximo 35 milhões de vezes mais, ou mais, do que um ser humano. O Cão só dá e não quer saber se recebe. Aliás, o Cão se recebe fica feliz e mostra-o, e no dia seguinte não vai reclamar nem fazer uma revolução se nada receber.
O Cão não tem tédio. Isso não existe na sua vida inteira. Ele pode ficar a tarde toda deitado ao pé do Amigo Ser Humano, se essa for a vontade do Amigo Ser Humano, ou pode passar o dia inteiro a brincar, desde que esteja presente, desde que participe. O Cão, caro amigo, não é um brinquedo que se recebe de prenda e de que nos fartamos a seguir. Que se substitui, que se deita fora. O Cão não é uma moda nem um acessório nem tão pouco um animal que se veste com roupas lindas no inverno e se abandona ao frio do esquecimento no verão.
Um cão é um ser que entra na nossa vida e não quer sair jamais. Por isso, caro amigo, se não consegue perceber que "ter" um cão não é posse mas sim partilha, então peça ao Pai Natal ou ao Menino Jesus uma Playstation.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Ah, vcs nem imaginam o gozo que é comemorar nesta cidade um titulo do Benfica. Nem imaginam!
Metemo-nos no carro artilhadinhos de cachecois do Benfica, zarpamos para o Porto (vamos de Gaia) e antes de atravessarmos a ponte eu aviso com voz grave "atenção, vamos entrar em Palermo, toca a descaracterizar e esconder tudo o que são acessórios do Benfica". E assim entramos na bela cidade do Porto que nem seminaristas inocentes. Os cruzamentos são um perigo por causa dos semáforos.
Sente-se a adrenalina. E a cereja é quando vamos numa artéria, uma fila de carros, alguém buzina e cá dentro uma voz "Buzina aí também". A medo lá sai uma apitadela e, de repente, como que por magia surge um turbilhão imenso de buzinadelas. Todos os carros em brado, todos. E as bandeiras e os gritos ao Benfica...um destemor, uma loucura.
 O Benfica na clandestinidade é tão mais saboroso!...
Depois é estacionar o carro num sitio discreto e ir para a Rotunda da Boavista aos saltos. Ver ali a policia a desviar o trânsito, preparada para o que possa acontecer mas sempre com aquela sanha siciliana contra os adeptos encarnados. E todos nós, benfiquistas portuenses, dos mais sofredores, dos mais leais e dos mais invictos, porque jamais nos venceram estes labregos, todos nós, dizia eu, em festa num regozijo destemido. É o Benfica na sua universal pureza, não numa canção de Lisboa mas sim numa imensa Ode ao júbilo e ao amor por um clube e uma causa que jamais alguém no mundo ha-de saber explicar.
No final é o regresso a casa, as mesmas ordens de camuflagem e a volta a ser feita pela praça, os Aliados. E ver em cada pessoa um dragaozito ja sem chama, apagado na sua frustração. E fazer um filme "olha aquele está ali a ver se descobre algum benfiquista e pronto a mandar um SMS ao macaco". E é então que atravessamos a ponte a gritar e a cantar. Vambora pra casa que o Benfica é campeão!

terça-feira, 22 de outubro de 2013

onde tudo começa é no outono. nas árvores com folhas amarelas de mais, nos ventos agrestes e nos sóis mais raros. é no outono que se fazem os mais secretos planos. não de férias nem de empregos nem de mudança de vida. planos de usar pijamas quentes, calçar meias grossas e beber vinho doce enquanto as castanhas não descem de preço. é no outono que se rivaliza no futebol, ainda todos podem ganhar, e é no outono que os mais organizados começam a comprar coisas para o natal. é no outono que a gente mais se manifesta e é no outono também que se modera mais a linguagem e os modos. é no outono que estamos e é no outono que se começa a beber vinho tinto.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Para os pedrosenses

Este indivíduo que aparece na fotografia que eu captei por ocasião do encerramento da Repartição das Finanças dos Carvalhos, de megafone na mão, encenando reclamar um equipamento que o Governo Central retirou à população do Sul de Concelho, presidente da Junta de Freguesia de Pedroso, já por cá anda há mais de 20 anos e persiste em por aqui andar por muitos mais anos porque o poder calcinado nas teias dos favores, no marasmo do "deixa pra la", no faça-se o que for preciso fazer para que tudo fique na mesma, de tudo se serve para que tipos como este sejam os novos Regedores das Freguesias.

Outrora impostos pelo Poder Central, os Regedores eram os senhores da terra. Os que mandavam. Hoje, porém, a Nossa Democracia, dotada de leis de mão, artimanhas legais e a caça ao voto - vejam o que ele fez há dias quando levou os velhinhos a almoçar em terras de Fátima, passando a jornada a chantagear os nossos seniores que "se não votarem em mim para o ano não vai haver passeio"- não mais faz do que perpetuar no poder esta fauna de caciques, gente de mão, cristalizada no expediente "natural" de fazer vida à custa da Democracia.
A Democracia tem de ser, em primeiro lugar, um instrumento que garanta a rotatividade no poder, que elimine o cargo vitalício. A nossa Democracia, a nossa jovem Democracia, definha nos vícios do antigo regime, na epilepsia do favor, na estalactite do "Capo Regime".

Por isso mesmo, pedrosenses, é hora de dar um coice de mula a gente como esta. É hora de apoiar a renovação, dar lugar a outros, conceder a oportunidade de gente nova, sem vícios, de mostrar outro tipo de capacidade, outra forma de tentar ajudar a comunidade a crescer e a valorizar-se.
 Já que estes dinossaurozinhos de paróquia não se enxergam, não percebem os princípios fundamentais da Democracia, saindo de cena por mão própria, que seja a Democracia, através do acto eleitoral, a correr com eles daqui para fora. Oxalá!

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Samuel parou por um momento, tirou o capacete velho e desbotado e coçou a cabeça. Olhou para os céus negros de uma negritude belicosa. Na encosta era fogo alto e gente a correr pelos caminhos. Gritos de mulheres, sirenes, cães ladrando e Samuel ali sentado a olhar o desespero. Da estrada principal, chegava o carro do Director da Protecção Civil, um bólide alemão com motorista, e outro carro, também alemão, chegava quase em simultâneo. Dele saiu o Presidente da Câmara. E mais outro carro, e mais outro homem importante, um Secretário de Estado, talvez. E outro "alta cilindrada" alemão. E um motorista. E as televisões a correr, as rádios, e os jornais a correr.
 E Samuel , coçando a cabeça, de casco na mão, olhava para aquele molhe de gente e veio-lhe à cabeça a lembrança de que lá no quartel quem pagou o frigorífico foi a vaquinha entre todos, a Internet também, e nas horas mortas, se quiseram ver a bola para entreter, tiveram que ser eles a mandar instalar o cabo. Para o serviço, o gasóleo é pouco e os carros, os carros dos Soldados da Paz, estão velhos e avariam-se muitas vezes. E os uniformes são fracos e mortos de velhos, e o fogo é forte. Que forte é o fogo que arde ali fora e que quente é a raiva de Samuel. Que vontade de gritar! Que impotência, que miséria!
 É neste preciso momento que Samuel pensa numa vontade.  Correr desalmadamente, não para investir contra as chamas que a todos ganham, mas correr direitinho àquela corja e investir forte sobre todos eles, o Director, o Presidente e o Secretário. Que sensação tão estranha se apoderou daquele pobre bombeiro. Era fodê-los a todos, esses cabrões. Dizer-lhes duas verdades, que se pusessem na alheta, que dali não levavam nada, nem foto nem imagem nem votos.
 Por um momento viu-se naquele acto heróico e quase iniciou a marcha triunfante dos que sofrem em silêncio as injustiças dos que falam de cima do pedestal, mas as crianças sujas de carvão negro, enfeitadas com as faúlhas que caíam do céu e as mulheres que berravam gritos calados por soluços de uma vida atropelada nas chamas, fizeram-no olhar para trás, e Samuel, que era um deles, correu para a frente do fogo e descarregou naquela parede vermelha toda a sua raiva, e assim esteve até noite dentro a apagar os lumes que lhe iam na alma.
Quando voltou a sentar-se, a tirar o capacete, a coçar o rosto molhado, olhou para o outro lado e já só via o restolho que ficara daquela gente importante. Por certo haviam de parar mais a sul, porque o fogo é procissão do demo.  Melhor assim, que tenham feito boa viagem. E foi aí que se lembrou de ligar para casa, dando notícias, que estava bem e que só queria  estender as pernas um bocado.

sábado, 28 de julho de 2012

Caro Professor,

Ao longo dos tempos, pelo menos desde que existe essa coisa chamada Ensino, houve professores que marcaram de forma indelével os - ou pelo menos um - alunos. Pessoalmente, lembro-me da minha professora de inglês, a Odete Veludo, que também lecionou na Escola Secundária de Carvalhos e que me atirou logo no primeiro dia de aulas do meu décimo ano com um  "o que andas aqui a fazer?".
Eu não passava de um aluno medíocre a inglês, como ela de resto já tinha percebido quando fora minha professora no oitavo ano. E a seguir àquela pergunta irónica e quase maternal passaram-se dois anos de apaixonante vivência com a língua de sua majestade, da qual acabei por me desenvencilhar, e, sobretudo, de um extremo relacionamento franco e sincero entre uma professora devota e um aluno "ingenuo-anarquista", sedento de saber e ao mesmo tempo a viver as escuridões das estrelas, que é uma coisa que poucos hão-de conseguir explicar. Adiante.

E ao longo dos anos, de certeza que houve muitos professores que foram capazes de marcar os pais dos alunos. Ou de um aluno.
O professor, que não duvido tenha e venha a marcar muitos alunos, é um desses profissionais que é capaz, para além da sua dedicação como técnico, de deixar ficar aos pais essa marca de autenticidade e valor. Durante os cinco anos em que foi o professor de inglês do nosso filho, foi capaz de nos marcar. Não interessará muito descriminar aqui os factos e as experiências vividas, os momentos de tensão, de solidariedade, de compreensão e paciência. O que vale, agora que o "nosso" ciclo de relacionamento professor-aluno-pais termina, é dizer obrigado. Obrigado por ser o homem e o profissional que é. E oxalá a sua capacidade de "ser", enquanto professor, possa contribuir para que outros alunos e outros pais percebam que isto dos alunos e das escolas e dos professores  não é apenas uma relação efémera e processual. Não é apenas uma tarefa. É a tarefa perene, A que fica e prevalece. Obrigado professor.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Eia, pá, agora somos outra vez muito bons!
Ontem, escrevi no Twitter que Portugal inteiro estava preparado para adular a sua equipa nacional de futebol, caso vencesse, ou para a destruir, caso terminasse a sua participação do Campeonato da Europa de Futebol. Afinal, somos finalmente bons outra vez! E fomos bons, sim senhor. Pelo menos ontem fomos competentes e efectivos e o nosso adónis encheu-nos de orgulho!

Após o jogo, dispensei-me de assistir aos bocejantes debates televisivos portugueses sobre futebol que teimam em não sair daquele registo tão tuga, a ausência de qualquer sentido crítico, e que está na génese do tal  tweet que eu escrevera bem antes do início do jogo . Preferi ver o "Punto Pelota", o programa mais "kitch" sobre as coisas da bola, uma coisa que só vista. Passa em Espanha, com epicentro em Madrid, e versa sobretudo a rivalidade entre Barcelona e Madrid, e, claro, Cristiano Ronaldo. Ali, o nosso CR7 é esmiuçado de uma forma tão meticulosa que dá arrepios.
 Idolatrado por madridistas e triturado por todos os outros, dá-me particular gosto e especial satisfação devorar aquilo tudo até à medula, o madridismo, a xenofobia, a sobranceria, a inveja.
Para terem uma ideia, os tipos ontem gastaram 50 minutos só com o nosso CR7 e isso arrasta para o seio de Espanha toda a nossa portugalidade e uma espécie de vingança histórica de todo um povo contra Castela, onde li, com agradável surpresa, uma galega dizendo "Se Portugal va con Espana yo voy por Portugal". Lindo, não é?

Veja aqui o Punto Pelota de 21/06/2012

terça-feira, 19 de junho de 2012

Era uma vez uma aldeia de subúrbio, com casas empilhadas entre ruas e vielas. Com pátios de cimento e terra, hortas e galinheiros, e um cão. Quase todas estas casas têm um cão, ora porque se gosta de animais, ora porque se gosta de ter a casa vigiada. E quase todas as pessoas destas casas têm vizinhos e se dão bem. Partilham coisas, recursos pequenos da horta, ou outras coisas que se traz do emprego, que se arranja. Umas madeiras, caixas, ou arame e pregos. Nas casas destas aldeias de subúrbio é normal ver-se muitas coisas que são ali botadas  porque servem para qualquer coisa, nem que seja para dar ao vizinho. E este dar e receber vive-se desde sempre, posto que os vizinhos se dêem, está claro.

E um dia, um vizinho teve ninhada de cães e quando se tem tantos cachorrinhos é normal que não se deitem fora. É normal que se dêem. Os vizinhos dão os seus cachorros, não os vendem. Outros há que acabam por deitar a afogar no rio as cadelinhas por via de uma espécie de "misoginia canina", que é uma coisa que tem tendência a acabar, graças a Deus.

Ora, e um dia um vizinho foi à casa da ninhada escolher um cão. E foi assim que começou a a ser traçada a vida do "Skyp". Ele foi o escolhido porque era o mais bonito da ninhada. Foi um critério de escolha muito razoável, acertado até. Quem não escolheria o cão mais bonito da ninhada se tivesse essa oportunidade?
E o cão deve ter percebido isso. Era o príncipe perfeito, o mais bonito e foi com vaidade que se viu no colo daquela mulher. Saiu do peito da mãe para os braços daquela que iria cuidar dele porque mereceu, porque tinha predicados convincentes e irrecusáveis. Quantos de nós nunca se sentiram assim? O escolhido de entre tantos outros.

Já passaram muitos anos sobre este momento de glória do Skyp e o único outro momento de glória deste  cachorrinho foi o dia em que fechou os olhos para sempre. Quase treze anos depois. Treze anos passados amarrado a uma jaula feita de meio bidão de fibra de vidro , um forno no verão e uma geladeira no inverno. O único brinquedo do Skyp era uma gamela de cimento, onde caía ali uma comida de lavagem. Nunca calcorreou chão nenhum que não fosse aquele pátio sujo de cimento e duvido que tenha tido uma carícia, um consolo da mulher que um dia o retirou do colo materno. Quando por ali passava gente ele era um simples cão perigoso porque era grande e forte e ladrava.
 A única relação de afecto que teve em toda a sua vida foi criada com um carpinteiro vizinho, que ali passava todos os dias de casa para o trabalho e do trabalho para casa. O homem, certo dia a caminho de casa, lembrou-se de lhe atirar com um resto de comida. E isto repetiu-se anos seguidos. Para Skyp, que fora o escolhido, o mais perfeito entre os irmãos, o grande momento da vida dele, o zénite transcendental, era quando o rapaz ali passava e lhe deitava um osso, um bocado de pão ou o que fosse. Por vezes o rapaz não levava nada e via o cão correr aos saltos até onde o cadeado permitia. Via o olhar contente do cão e ficava triste porque percebia a falta, a quebra do ritual.
E assim, ao longo de  quase treze anos, o rapaz procurou não faltar ao combinado. No últimos anos, quando já o pobre bicho definhava, o rapaz sofria. Sofria em silêncio porque eram vizinhos de uma aldeia de subúrbio. E os vizinhos das aldeias de subúrbio dão-se bem e não fazem revoluções. Os vizinhos zangam-se com coisas humanas, não com vidas de cães. Os vizinhos são capazes de observar atrocidades como esta, e de sofrer com elas, mas está-lhes vedado o instinto justiceiro porque talvez ainda não tenham bem presente a diferença entre um cão que foi "o escolhido" e um monte de tábuas que para ali ficou arrumado junto à parede que menos serventia tem. Tudo aquilo faz parte do mesmo e assim continuará a ser.

Certo dia, o rapaz passou frente à casa e não viu o cão. Parou por um instante e sentiu uma tristeza e uma alegria, sol e chuva ao mesmo tempo. Sorriu para ele próprio e seguiu o seu caminho. E noutro dia contou-me esta passagem com ar aliviado enquanto bebia uma cerveja.

domingo, 3 de junho de 2012

Primeiro domingo de um junho que  começa fresco e verde. É de manhã e eu estou a ouvir uma emissora de radio pela internet. Chama-se "radio paradise" e passa música preferencialmente de outro mundo. Rádio ecléctica para um gajo ecléctico, como manda a lei e ordenam os astros.
É quase meio dia cá em casa. De tarde vou acabar de ver o filme "quatrocentos golpes", de François Truffaut, que não consegui ver todo ontem na rtp2. Um belo filme que retrata a vida miserável de um menino na sociedade parisiense de finais dos anos cinquenta. Depois disso, a Europa cresceu muito e a classe média enriqueceu. Hoje está pobre outra vez. Mais pobre ainda porque perdeu também os valores e os sonhos que F. Truffaut tão bem retrata naquele filme. Viva a Europa pobrezinha que eu, entretanto, vou tratar de me debater com uma feijoada bem à portuguesa.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Nao conhecia o menino de 17 anos que partiu por via de uma praia que nos é tão querida, a praia da Baía, em Espinho. Uma praia de que todos nós, aqui da zona, gostamos e utilizamos. Uma tarde de calor, de primavera, de tragédia provocada pela flor da juventude, pela audácia, pelo infortúnio. E hoje, deixei cair uma lágrima por esse menino. Que descanse em paz e que o seu infortúnio nos ensine.