Samuel parou por um momento, tirou o capacete velho e desbotado e coçou a cabeça. Olhou para os céus negros de uma negritude belicosa. Na encosta era fogo alto e gente a correr pelos caminhos. Gritos de mulheres, sirenes, cães ladrando e Samuel ali sentado a olhar o desespero. Da estrada principal, chegava o carro do Director da Protecção Civil, um bólide alemão com motorista, e outro carro, também alemão, chegava quase em simultâneo. Dele saiu o Presidente da Câmara. E mais outro carro, e mais outro homem importante, um Secretário de Estado, talvez. E outro "alta cilindrada" alemão. E um motorista. E as televisões a correr, as rádios, e os jornais a correr.
 E Samuel , coçando a cabeça, de casco na mão, olhava para aquele molhe de gente e veio-lhe à cabeça a lembrança de que lá no quartel quem pagou o frigorífico foi a vaquinha entre todos, a Internet também, e nas horas mortas, se quiseram ver a bola para entreter, tiveram que ser eles a mandar instalar o cabo. Para o serviço, o gasóleo é pouco e os carros, os carros dos Soldados da Paz, estão velhos e avariam-se muitas vezes. E os uniformes são fracos e mortos de velhos, e o fogo é forte. Que forte é o fogo que arde ali fora e que quente é a raiva de Samuel. Que vontade de gritar! Que impotência, que miséria!
 É neste preciso momento que Samuel pensa numa vontade.  Correr desalmadamente, não para investir contra as chamas que a todos ganham, mas correr direitinho àquela corja e investir forte sobre todos eles, o Director, o Presidente e o Secretário. Que sensação tão estranha se apoderou daquele pobre bombeiro. Era fodê-los a todos, esses cabrões. Dizer-lhes duas verdades, que se pusessem na alheta, que dali não levavam nada, nem foto nem imagem nem votos.
 Por um momento viu-se naquele acto heróico e quase iniciou a marcha triunfante dos que sofrem em silêncio as injustiças dos que falam de cima do pedestal, mas as crianças sujas de carvão negro, enfeitadas com as faúlhas que caíam do céu e as mulheres que berravam gritos calados por soluços de uma vida atropelada nas chamas, fizeram-no olhar para trás, e Samuel, que era um deles, correu para a frente do fogo e descarregou naquela parede vermelha toda a sua raiva, e assim esteve até noite dentro a apagar os lumes que lhe iam na alma.
Quando voltou a sentar-se, a tirar o capacete, a coçar o rosto molhado, olhou para o outro lado e já só via o restolho que ficara daquela gente importante. Por certo haviam de parar mais a sul, porque o fogo é procissão do demo.  Melhor assim, que tenham feito boa viagem. E foi aí que se lembrou de ligar para casa, dando notícias, que estava bem e que só queria  estender as pernas um bocado.

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