quarta-feira, 1 de abril de 2026

 

Hoje o meu sogro faria oitenta e seis anos. Tenho muitas histórias para contar sobre o meu sogro. E ele também me contava muitas histórias da vida dele, sobretudo da Guiné. Falava muito comigo, principalmente às tardinhas, à volta de um copo. E se eu estivesse três dias sem aparecer, ele virava-se para a filha – O Sôr Altino? Que é feito dele? E complementava aquela pergunta com uma suposição qualquer que lhe viesse à cabeça.

O meu sogro era um homem bonito e quando o conheci gostei logo dele, sempre bem vestido e com aqueles óculos que o faziam mais parisiense do que o próprio Jean Paul Sartre.

Do meu sogro dos passeios com a netinha – Ó vu, já chega de serras!, do meu sogro das patuscadas, da serenidade a comer (gostava de comer, mas não era guloso. Servia-se do seu bocado e ficava ali a saborear calmamente com um ar feliz, sobretudo quando na mesa estava toda a sua prole), do meu amigo sogro falarei um dia, sem dúvida.

Hoje, porém, tenho vontade de recordar os encontros com o irmão, o tio Eusébio, quando este o visitava nas tardes de sábado. Que festa aquilo era! Muitas vezes tive eu o privilégio de vê-los ali aos dois a falar sobre tudo o que lhes vinha à cabeça, histórias da mocidade, dos pais, dos irmãos, disto e daquilo, enquanto por sua vez as cunhadas, do outro lado da mesa, falavam de coisas de cunhadas. E depois, para celebrarem aqueles momentos, o meu sogro ia buscar uma gaita de boca pequeníssima e dava-se início ao “Duo Lamonte”, como eles gostavam de dizer. Um recital de bem cantar modas de sempre, muitas vezes interrompidas por um copo ou por uma graça ou por qualquer outra coisa menos tristezas.

Muitas saudades tuas, meu sogro.

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