Hoje o
meu sogro faria oitenta e seis anos. Tenho muitas histórias para contar sobre o
meu sogro. E ele também me contava muitas histórias da vida dele, sobretudo da
Guiné. Falava muito comigo, principalmente às tardinhas, à volta de um copo. E
se eu estivesse três dias sem aparecer, ele virava-se para a filha – O Sôr
Altino? Que é feito dele? E complementava aquela pergunta com uma suposição
qualquer que lhe viesse à cabeça.
O meu
sogro era um homem bonito e quando o conheci gostei logo dele, sempre bem
vestido e com aqueles óculos que o faziam mais parisiense do que o próprio Jean
Paul Sartre.
Do meu
sogro dos passeios com a netinha – Ó vu, já chega de serras!, do meu sogro das
patuscadas, da serenidade a comer (gostava de comer, mas não era guloso. Servia-se
do seu bocado e ficava ali a saborear calmamente com um ar feliz, sobretudo
quando na mesa estava toda a sua prole), do meu amigo sogro falarei um dia, sem
dúvida.
Hoje,
porém, tenho vontade de recordar os encontros com o irmão, o tio Eusébio, quando
este o visitava nas tardes de sábado. Que festa aquilo era! Muitas vezes tive
eu o privilégio de vê-los ali aos dois a falar sobre tudo o que lhes vinha à
cabeça, histórias da mocidade, dos pais, dos irmãos, disto e daquilo, enquanto
por sua vez as cunhadas, do outro lado da mesa, falavam de coisas de cunhadas.
E depois, para celebrarem aqueles momentos, o meu sogro ia buscar uma gaita de
boca pequeníssima e dava-se início ao “Duo Lamonte”, como eles gostavam de
dizer. Um recital de bem cantar modas de sempre, muitas vezes interrompidas por
um copo ou por uma graça ou por qualquer outra coisa menos tristezas.
Muitas
saudades tuas, meu sogro.