Tinha saído de casa relativamente cedo, por volta das oito horas da manhã, no primeiro sábado de setembro, carregado com uma mochila às costas que pesava para aí uns bons dez kg, e de modos que me deitei ao caminho e só deixaria de andar quando me achasse em plena Plaza do Obradoiro, em Santiago de Compostela. Ia visitar o Apóstolo Tiago Zebedeu. E assim foi.
De tal modo foi que cheguei a Compostela no segundo sábado do mês de setembro. Não fiz diário, não me preocupei com dicas ou segredos. Não levei mapa, apenas segui as setinhas. E fui andando desde a porta da minha casa, passando por umas alminhas ali para as bandas de Perosinho, já em pleno “caminho de Santiago”.
Nesse primeiro dia andei muito. Caminhei mais de quarenta quilómetros até ao Mosteiro de Vairão, em Vila do Conde, onde pernoitei. E assim fiz várias etapas do “caminho”. Caminhei, descansei, pernoitei e voltei ao caminho, às pausas, aos episódios esquisitos, às capelas, às catedrais, aos miradouros, ao asfalto e aos caminhos, às serras, aos campos, aos montes e aos aceiros. Um caminho perfeito, espiritual, desafiante, abrasivo e relaxante, uma mistura de todos os ingredientes, aqueles que sabeis e aqueles que pensais vir um dia conhecer. Destes, eu não falarei muito, porque vos digo: ide fazer o “caminho” e assim descobrireis o sal que vos falta.
Bom, mas no “caminho”, o caminho de cada um que o faz, acontecem coisas estranhas, mágicas ou sei lá quê, e disso eu vos dou garantia porque fiz o “caminho” e sou, portanto, testemunha viva de que “há coisas”. E dessas “coisas de que há”, que acontecem, que nos afrontam e nos confrontam e que nos colocam perante um outro sentido da vida eu vou contar-vos uma.
Estava eu acabadinho de chegar a Barcelos, portanto findava a segunda jornada de caminhada que compreendia já uns bons setenta quilómetros, entro no Albergue dos Peregrinos de Barcelos e após fazer o registo de peregrino e ter sido encaminhado para o meu sítio onde ia pernoitar, fui confrontado com o meu pé direito. O meu pé direito já não parecia um pé. Parecia uma abóbora de tão inchado que estava. Bolhas enormes rebentadas por debaixo do pé, um latejar a ameaçar infecção, um espectáculo para os outros peregrinos, sempre solidários, tão solidários meu Deus, “então isso está mau?” perguntavam-me em inglês. E eu respondia, desanimado, num pobre inglês triste e arruinado “estou bem, vamos ver como vai ser amanhã”
O amanhã era dali a umas horas, que os peregrinos parecem abelhas, logo pelas primeiras horas da madrugada a arrumar as coisas, lanterninhas acesas para não incomodar quem ainda dormia, ou seja eu, o lesionado, o derrotado pelas bolhas de água, o pobre português que se calhar leva uma vidinha a andar de carro para todo o lado e, está claro, tem uns pezinhos de vidro que não aguentam dois dias a caminhar, e é deixa-lo dormir descansado que quando acordar vai direito ao hospital. Entretanto eu acordo, desvairado, com o pé numa autêntica via-sacra. Não sabia o que fazer. Os outros peregrinos iam saindo e passavam por mim e tentavam dar-me coragem e eu sem reacção, perdido, derrotado. O meu pobre pé desfalecia.
De súbito resolvi agir. Vesti-me, fui à cozinha e tirei de lá uma garrafa de água e bebi dois ou três goles. Tentei enfiar as botas mas sem sucesso. O meu pé direito quase rebentava. Resolvi então enfiar as minhas velhinhas asic que já tinham feito mais de mil km comigo a correr. O pé não recusou, embora resmungasse. Os peregrinos saiam e saudavam-me quase em modo de despedida. E eu ali já vestido e calçado e a porta do albergue aberta e lá fora a estrada e a escuridão.
Eram para aí umas seis da manhã eu aventurei-me a sair, ainda sem saber bem para onde ir. Mas eu queria ir para o “caminho”, raios me partissem. E mal saí e vi aquela seta amarela a apontar o caminho, o andar cambaleante, muito lento, o céu a clarear, deu-me para me dizer “Olha, meu, se não andares depressa andas devagar. Vamos indo e vamos vendo, se isto piorar sempre podes parar”. E depois, Cristo também podia desistir e não desistiu. Podia dizer “Pai, estou cansado, dói-me o corpo, vamos parar com isto” e de certezinha absoluta que Deus mandava que todo aquele sofrimento de Jesus a caminho do Calvário terminasse ali mesmo, tal como eu podia terminar ali ou em qualquer momento deste meu calvário o meu sofrimento. De modos que fui caminhando por de entre os primeiros milheirais que surgiam à medida que ia deixando Barcelos e, tal como Jesus Cristo, estava decidido a ir até ao fim.
E assim andei durante dez penosos quilómetros, sem deixar de me sentir bem naquele sofrimento, de apreciar as paisagens, de me sentar no primeiro café aberto que encontrei e saborear uma deliciosa meia de leite e comer uma boa sanduíche de queijo e fiambre. “Vou preparar-lhe aqui uma bela sandes de queijo e fiambre muito saborosa para a sua caminhada” disse o rapaz que me atendeu e eu recordo isto porque foi verdade e porque foi importante. Foi muito reconfortante, encorajador mesmo, ouvir esta conversa de cortesia. E depois não deixei de me deter perante a majestosa igreja de Abade de Neiva “Até ao monumento vai ser sempre a subir” e tirei uma fotografia que publiquei no Facebook “Bom dia”.
E assim caminhei durante dez penosos quilómetros até Tamel, S. Pedro de Fins. Andava eu neste arrastão pio, a ser ultrapassado por tudo o que era peregrino, até por um casal de portugueses com o Miguel ao colo, catorze meses de idade e já a fazer os Caminhos de Santiago e eu que tive de esperar cinquenta anos. E eu lá ia metendo conversa e as pessoas passavam e eu caminhava agarrado ao meu cajado, ao meu amiguinho fiel que me segurava e me marcava o passo, até que numa recta de estrada asfaltada, ladeada por umas moradias de construção recente, cujos passeios generosos se estendiam pela beira da estrada, eu vislumbro dois homens sentados. Dois peregrinos que me olhavam, apreciando aquele pobre desgraçado que caminhava cambaleante. “Você está bem?” perguntou-me um deles em português com sotaque brasileiro. “Eu estou fodido!”, foi tal e qual a minha resposta, de tão aliviado que fiquei por poder falar português. É que por incrível que vos possa parecer, este Caminho Português de Santiago está carregadinho de estrangeiros, de modo que tirando o casal português com o bebé, eu só falava inglês para tudo o que era peregrino.
 “Eu estou fodido”, disse eu, e repito, só o facto de eu ter dito aquilo foi já um grande alívio, e mais alívio foi quando o tipo me diz “Senta aqui que eu faço um curativo pra você”. Com tal proposta eu não tinha mesmo nada a perder, como podem imaginar, nem tinha pressa sequer, afinal tinha saído muito cedo do albergue e naquele tramo estavam a passar os peregrinos que acordaram mais tarde. Sentei-me naquele passeio à sombra, tirei o chapéu, tirei a mochila das costas e respirei aliviado. O cara perguntou de onde eu era e eu também. “Sou de Belém do Pará, Amazónia”. Meu Deus, pensei eu, nem sequer são de São Paulo ou do Rio, são do Brasil profundo, da selva. “Viemos fazer o caminho e começámos no Porto mas ficamos em hotéis porque compensa mais. Queremos chegar e descansar e não estar levando com todas as implicações dos albergues”. Bem pensado, disse eu.
"Muito prazer, eu me chamo Solano. Tenho aqui um óleo muito bom que se usa lá na amazónia. É de uma árvore que se chama copaíba, cê conhece?" Não. "É um cicatrizante muto bom, com muitas propriedades curativas".
 Bem, amigos, perante isto, perante esta revelação, esta experiência em Tamel, S. Pedro de Fins, eu ali prestes a conhecer um processo terapêutico trazido da terra dos índios, da amazónia, fiquei siderado, parvo, maluco, não queria acreditar. Solano, porém, fez o que tinha a fazer. Diligentemente limpou o meu pé, e passou aquele óleo uma e duas vezes. Mais uma. E fez-me um penso com um adesivo. E eu comecei logo ali naquele instante a sentir um bem-estar tão bom, tão bom, tão bom e comecei a pensar como é que isto é possível? Como é que tinha de me aparecer um peregrino da Amazónia com óleo de copaíba? Porque é que não estava ali um paramédico do INEM a peregrinar e carregado de anti inflamatórios e cicatrizantes das nossas farmácias? Tinha de ser coisa do Apóstolo, senhores. Só podia ser. De modos que, em me vendo a sentir muito melhor, Solano resolveu achar que era hora de ir andando. Eu fiquei mais um pouco. Antes porém, perguntei: É católico? Sou, pois! Solano viu bem o estado em que eu fiquei com aquela resposta, Percebeu bem a comoção que se apoderou de mim. E resolveu ir para o caminho.
Uns quilómetros à frente eu ainda o vi sentado numa sombra à espera que um tal restaurante abrisse. Acenámos um ao outro e eu bem vi a alegria dele ao perceber que o meu caminhar já era outro, mas eu resolvi seguir o meu caminho porque no caminho é assim, há que seguir o nosso próprio caminho. De maneiras que nunca mais o vi. Fiz todas as etapas do caminho graças àquele índio “Não tire o penso, deixe ele ficar até sair por si” e quando cheguei a Compostela ainda o procurei no meio da multidão.
“Havemos de chegar a Santiago”. Eu cheguei, amigo Solano. Espero que tu também.


PS: E espero que um dia tu possas ler isto porque isto vai ficar aqui à espera que um dia tu me encontres novamente e eu a ti e eu quero que tu saibas que foi graças a ti que eu pude cumprir o meu desejo de fazer o Caminho de Santiago quando fizesse cinquenta anos. Um abraço, Solano.
igreja de abade de neiva

vós que ides passando lembrai-vos dos que estão penando

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