sábado, 10 de junho de 2006

quando olho para mim vejo-me inteirinho neste poema

Cântico Negro

"Vem por aqui" --- dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
--- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
--- Sei que não vou por aí.

José Régio

sexta-feira, 9 de junho de 2006

Pronto, pronto. A malta esmerou-se em "parabenizar" Francisco José Viegas ( sem link para que ele não leia isto). Eu não lhe dou os parabéns porque não tenho autoridade para isso. Sempre achei essa merda de dar os parabéns uma forma doentia de exercermos a nossa mais absoluta mediocridade, mas enfim, deixemos isso para outra maré. O que eu fiquei foi contente, porque o tipo merece. Aliás eu não li o livro e devo dizer que nunca mais hei-de gostar tanto de um escrito desse gajo como um que ele escreveu para o Jornal Expresso, num daqueles guias de viagens e que falava sobre o Alto Alentejo. Foi a coisa mais soberba que esse escritor-blogger-apresentador-portistadesgraçado, me escreveu. A mim, sim. Aposto que ele escreveu aquilo para mim que amo Portalegre, Castelo de Vide, o Marvão, Alter do Chão e o Crato e Aviz ( com z claro). Bom, é tudo. Só para que conste que eu gosto de ver as pessoas de quem gosto por aí, felizes. E é tudo.
sim, porque uma folha de menta cheirosa, suave e fresca, pode muito bem ser pouca coisa. mas não é erva daninha nem flor para a vista. tem cheiro que fica, sabor intenso que resiste e pede mais. uma folha de menta pode não ser grande coisa, pode até secar e amarrotar e ser levada pelo vento, destroçada. mas o aroma fica. e o aroma não vai para longe. e se olharmos bem para esse longe, ela lá está, a folha de menta, muito suave e que nos faz arrepiar e correr e saltar e sorrir e desejar. essa folha de menta perdida é bem capaz de me fazer conseguir sonhar.

spin on my world

Coney Island Baby

Every night she cames
To take me out to dreamland
When I'm with her, I'm the richest
Man in the town

She's a rose, she's the pearl
She's the spin on my world
All the stars make their wishes on her eyes

She's my Coney Island Baby
She's my Coney Island Girl
She's a princess, in a red dress
She's the moon in the mist to me
She's my Coney Island Baby
She's my Coney Island Girl

Mr. Tom Waits

quinta-feira, 8 de junho de 2006

Scolari Clube de Portugal ou, se quiserem, que se foda o gajo!

Querido diário, hoje regresso a casa e amanhã começa o Mundial de Futebol. Noutros tempos, sempre que havia Mundial o meu país ficava sempre fora e eu era, assim, adepto de uma Selecção Estrangeira. Detestava o Brasil e acho que ainda detesto. Fui adepto da Itália em 82 ( em 78 era menino de 12 anos e gostava do Brasil, obviamente, mas também gostei da Holanda), Fui adepto da Argentina em 86 e 90, fui adepto da Itália em 94 e da França em 98. Em 2002, Portugal esteve lá tal como em 86 mas foi-se, ainda a procissão estava no adro. Tornei-me adepto da Turquia que fez um belo campeonato e tinha feito um grande jogo contra o Brasil. Este ano confesso-me adepto da Itália. Não porque eles sejam bons ou coisa parecida. Apenas porque gosto dos equipamentos e do Micoli, pronto. Quanto a Portugal, que vai lá estar, passa-me ao lado. Ó crime dos crimes! Que o meu filho não leia semelhante heresia! Mas faço questão de tornar público que eu não irei torcer por Portugal. Aliás, pelo SCP, ou seja: Scolari Clube de Portugal. Não e pronto. Viva a Itália, o Irão e todos os que lá estão. Menos os do Filipão. PUM!

de profundis

Oiço o tema “Amélie”, do filme "O Fabuloso Destino de Amélie", e nada tenho para fazer. Estou longe de casa e a cama do hotel está longe da minha vontade.
Não me apetece fazer nada. Podia ir ao “Terreiro” beber cerveja e olhar o castelo de Leiria que, na noite, fica mais bonito, mais castelo. Podia estar num bar qualquer da Batalha a ver pessoas bonitas, a ouvir a música estafada dos bares de gente (porque há poucos bares de não-gente) quase sempre cheios desses seres sorridentemente banais que enxameiam os sítios de se beber, demasiadamente bonitos e muito bem vestidos, perfumados, barbeados, usando cores vivas nas malhas de pouco pano. Mas detenho-me, quieto, quase sonolento a ouvir música. E a fumar. E no entanto podia fazer tantas coisas de que desejaria fazer aqui, se não estivesse aqui, se é que estou aqui.

quarta-feira, 7 de junho de 2006

conspirações da alma III

Vinte anos. Passaram vinte anos e pronto. Aquela viagem ficou guardada, como todas as viagens, e agora estamos mais velhos. Todos os poemas do mundo não servem de nada. Todos os caminhos, todas as árvores e todos os rios não chegam para abraçar esta corrente de memória, esta lembrança indelével. Passaram vinte anos e as asas levaram-nos. Os ventos fortes, tempestuosos, levaram-nos para longe e ficaram os sonhos, os desejos, as angústias e a memória. A menória daquilo que foi e deixou de ser. A menória como um filme mais belo que todo o cinema do mundo. A memória que me faz sorrir hoje como há vinte anos. E se o sol aparecer de novo, então valeu a pena. Sorrir é uma coisa que vale a pena. Pela memória.

segunda-feira, 5 de junho de 2006

e agora, politicamente incorrecto...

Quer me parecer que este que vos escreve anda numa onda completamente anti-nacionalista. Que Angola ganhe para eu ver os angolanos gritarem bem alto: "Portugal é nosso!"

peregrinação

Querido blog, hoje volto à estrada quente e cansativa. Mais uma semana a coleccionar terras e localidades, a cultivar clientes, que sou agricultor sem charrua mas cuido saber arar esta terra dura, efémera. Irei a Pinhal Novo, a Sines, a Sesimbra, e por essas terras acharei um pequeno plano, uma chaminé, um beiral, uma ou duas cegonhas apaixonadas. E regressarei satisfeito, como a águia que volta ao seu ninho para cuidar dos seus. Depois deixo-me estar, atento à paisagem e aos lagos e aos montes da vida. E volto a andar. Sempre a andar, eu, peregrino sem santuário.

sábado, 3 de junho de 2006

dos despertares...

Acordei. Bebo "Pedras", sabor Framboesa e Ginseng. Uma água doce para temperar o meu gosto, perfumada e fresca. Em mim tudo é fresco na Primavera.

sexta-feira, 2 de junho de 2006

Já agora, façam o favor de comentar isto

Numa aula de substituição a professora incumbida dessa aula decidiu que tinha de se ausentar da sala, não sei bem porque motivo foi. Obviamente que aos miudos, sozinhos, só lhes lembrou uma coisa que é a coisa que lembra a todos os miúdos quando se acham em tal situação: algazarra. Quando a professora chegou e viu aquele ambiente decidiu marcar uma falta disciplinar colectiva. Numa primeira fase levaram todos por tabela, mesmo aqueles que estavam inocentes. Depois o Conselho Executivo mandou retirar a falta colectiva e encomendou que os alunos fizessem um relatório individual da ocorrência. Gerou-se ali uma mole de acusações: este fez isto e aquele fez aquilo. Ao outro, porque eu nem gosto dele por ele ter um telemóvel, vou acusa-lo. E assim por diante. Na mão dos relatórios, o Conselho Executivo decidiu que se mantivesse a falta disciplinar apenas aos alegados faltosos, os pestinhas. E quem foram os faltosos? Os acusados pelos colegas, pois então. E a veracidade? E a equidistância? E onde estava o Professor? O Auxiliar de Educação estaria de baixa? Era hora de tomar châ? Ninguém sabe. Aconteceu uma forma surrealista de se fazer justiça. Acham que isto é credível? Acham que os miúdos ficaram com a noção de que fora feita justiça? Comentem por favor. Ao meu filho não foi marcada falta disciplinar.Teve sorte? Devo ficar contente? Sei lá. Sabemos lá...

e se a bola é redonda porquê insistir que é quadrada?II

Caro besugo, infelizmente tu és frontalmente contra o sistema de comentários, o que me obriga a gastar um post deste meu excelentíssimo diário para te responder. Sabes, amigo lagarto, eu chamei “funcionária” a uma professora que se comportou como tal enquanto directora de turma, não enquanto professora. Também tenho familiares professores e mais, a minha mulher é Licenciada em Ciências da Educação. E deves saber que uma mulher fala com o marido sobre essas coisas do ensino e das reformas e um marido, como deves saber, gosta de ouvir a sua mulher para além dos apreciados carinhos e das solicitações para retirar o carro da garagem. Adiante. No teu caso, como médico, jamais te chamaria funcionário. Mas se estivesses a exercer qualquer cargo administrativo, executivo ou não, serias sempre um “funcionário” no tempo em que te dedicarias aos expedientes do ministério da saúde, etc e tal. Portanto, não considero, nem de longe nem de perto, que tenha sido menos cortês para com a classe dos professores, embora esteja convencido de que muitos professores deveriam fazer testes psicotécnicos antes de se lhes ser entregue a responsabilidade de exercer a prática do ensino. No mais, caro besug,o estamos conversados. Tens carradas de razão, sim senhor. Não quis ser mau para a classe, com certeza que não. Pretendi apenas denunciar este estado de coisas que grassa nas escolas do ensino básico e que tenho vivido de muito perto e devido a um vasto conjunto de factores: o meu filho é delegado de turma, logo tem assento nos surrealistas processos disciplinares. A minha mulher é a representante dos pais para este tipo de casos, logo tem assento nos caprichosos processos disciplinares. Parando aqui, dou-te já um exemplo que me ocorre assim de repente que eu sou um gajo de repentes, como sabes. Num processo disciplinar a um miúdo da turma do meu filho, a “funcionária” do conselho executivo (que é professora mas que não dá aulas porque está ali naquele gabinete a mandar que se façam mil mais um relatório sobre a forma mais ao menos supinada com que determinado aluno estaladou determinado colega) perguntou ao meu filho qual o castigo que se deveria dar ao colega. Queria que o miúdo falasse, para que ficasse escrito, entendes? A um miúdo de 11 anos pode pedir-se tudo, mas não lhe peçam para ser juiz, não obstante a sua capacidade de ser honesto e ponderado. Valeu ao pequeno que a representante dos pais ali presente intercedesse junto da mesa para que se evitasse semelhante parvoeira.
Não sei, besugo, se fui capaz de ser ilustrativo com o que aqui te conto. Sei que não falo de cor, e acho que não é apenas e só por ser o meu filho. Também é, claro. Mas podia ser o teu ou o da vizinha. Eu tenho estado por dentro e só me dá vontade de rir quando olho para o que leio e oiço e confronto tudo isso com a realidade dos factos que tenho vivido. Acontece também que estou a ponderar seriamente em matricular o meu filho no Colégio dos Carvalhos, embora isso me custe os olhos da cara porque sei que, ali, a padralada ainda funciona, ainda tem algum bom senso e isso deixa-me descansado. E também o que valem uns olhos da cara para o bem dum filho nosso?
Web Analytics