segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

cada coisa...

Hoje já tenho quarenta e cinco anos e acordei muito cedo. A manhã estava bonita, argenta de um nevoeiro cunhado no Douro que é prata, e o sossego destas manhãs colhe-me sorrisos de privilégios.
Ando um bocado fodido, é verdade, mas ainda assim tem-me dado para olhar para diante e sorrir para o nevoeiro. Bem sei, confesso, que tenho um defeito, uma falha. Nasci com uma falha sem remédio. Uma deriva de me empascaçar de mim mesmo, que é uma coisa defeituosa e peçonhenta. Talvez se tivesse um cancro as coisas pudessem ser diferentes. Talvez aí eu deixasse de ser um ser defeituoso para ser um coitadinho sem cura. Mas com esta falha que carrego nos ombros é que não sei lidar. Não há médicos nem medicamentos nem "quimios". Só nevoeiro melancólico e mais nevoeiro melancólico.
Se em certo dia tenho ideia de génio, logo no momento seguinte a falha resolve empatar o feito. Sou em mim um desalquimista catedrático, especializado em transformar em lata o ouro da minha vida. Não sou fadista, não senhor, apenas tenho uma falha que não se vê, e é tão grande que não cabe em verruga ou protuberância que se apalpe. Juro que é verdade, podem crer.
O nevoeiro estava bonito e agora vejo chumbo no céu e, contudo, despertei em mim uma nova sensação que vem da falha. Senti pela primeira vez este ano o aroma bestialmente único que brota das azedas floridas da primavera. Cada coisa que a minha falha me inspira, meu Deus, que até nem sei se volte a sair de casa hoje.

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