transições ou terapia de regressão

Há os fins-de-semana e a semana laboral propriamente dita. E há a transição do fim-de-semana para a semana útil, embora pouco se fale disso, ao invés da transição imediatamente anterior e que se dá por volta da aurora de todas as sextas-feiras. Pois eu ando a notar certas marcas que persistem obliterando a passagem dos domingos para as segundas-feiras. Aos domingos, pela noitinha, vemos o "conta-me como foi" onde, com nostalgia se calhar, é mostrada a vida dos nossos pais, depois arremata-se com o "equador" onde perpassamos ao de leve pelo período pré-republicano e lá nos vem à memória as matérias que estudámos nos tempos de escola e, cos diabos, ficámos com a sensação de que o país viveu qualquer coisa entre um bordel e uma empresa liberal qualquer. Depois, caminha quente e a transição a surgir. De manhãzinha, café com leite e as notícias da manhã a correr. Tirando o futebol, onde tudo permanece imutável, as restantes novidades começam a ser uma espécie rara de fatalidade: despedimentos e falências em catadupa, numa novela inacabável que nos faz esquecer os tempos de Luís Bernardo Valença e nos transporta para os anos 20. É a crise. A Grande Crise do início do Terceiro Milénio e os argumentos. Os argumentos hilariantes daqueles que falam e procuram explicar o fenómeno maldito do colapso financeiro mundial. É o zénite da transição para a semana laboral. Dezenas de sentenças proferidas com propriedade intelectual por sábios insuspeitos. neo-liberais quase todos e funcionários públicos bem pagos e com ADSL e outros mimos. Tipos que falam sem temor, e sem pudor, contra o estado da nação e os males perpetrados por quem nos desgoverna. E de tão cegos tribunos, de barriga cheia ainda por cima, nunca se lhes leu um "ai", nunca se lhes ouviu um "ui". Falam da crise porque falam de tudo.É esta transição que me anda a inquietar; uma transição empobrecida pela falta de um elemento fundamental para a mudança: a Revolta.

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